Robert Capa tornou-se uma lenda do fotojornalismo. Gerda Taro ficou durante demasiado tempo colada à lenda. A História tem destas manias desagradáveis: quando um casal trabalha junto e o homem acaba transformado num dos fotógrafos mais famosos do século XX, a mulher corre o risco de ficar arrumada na prateleira das “companheiras de”. Amante de. Colaboradora de. Musa de. A fotografia pode apanhar o instante decisivo, mas a posteridade é perfeitamente capaz de o revelar mal.
Alina Marazzi corrige agora a exposição e, sobretudo, o enquadramento. La Ragazza con la Leica, filme de abertura da competição Orizzonti da 83.ª Mostra de Veneza, recupera Gerda Taro do arquivo, da sombra de Capa e de quase noventa anos de simplificações biográficas. E fá-lo num filme elegante, apaixonado e politicamente consciente, sem aquela obrigação contemporânea de transformar todas as mulheres esquecidas pela História em heroínas retroativamente homenageadas pelo cinema. Gerda não precisava disso. Precisava de espaço. A atriz Emilia Schüle dá-lho.
Uma rapariga chamada Gerda, um fotógrafo chamado Capa
Paris, 14 de julho de 1937. Gerda prepara-se para regressar a Espanha e à Guerra Civil. Passa o último dia com Robert Capa e os amigos que, como ela, fugiram da Alemanha nazi. A partir desse presente já contaminado pela tragédia que conhecemos, Marazzi abre portas para Leipzig, Paris, o exílio, a militância política, os amores, as discussões, as festas, a pobreza e finalmente a descoberta da fotografia. A Leica entra-lhe na vida como poderia ter entrado uma arma. Com uma diferença: Gerda prefere disparar contra o esquecimento. O filme adapta livremente o romance de Helena Janeczek, vencedor do Prémio Strega em 2018, mas muda inteligentemente a perspetiva. No livro, Gerda é reconstruída através das memórias dos sobreviventes. Marazzi ressuscita-a. Põe-na a andar, rir, dançar, discutir política, seduzir, fotografar, amar Capa e, detalhe importante, recusar ser propriedade dele. Robert Capa continua lá, naturalmente, interpretado por Aaron Altaras, e ninguém lhe está a fazer um processo sumário quase noventa anos depois. Só que desta vez a câmara não está apaixonada por ele. Está apaixonada por ela. Capa nascera húngaro com o nome de Endre Friedmann. Gerda chamava-se Gerta Pohorylle. Os dois jovens refugiados inventaram juntos a personagem “Robert Capa”, fotógrafo americano misterioso e naturalmente caríssimo, porque vender fotografias assinadas por dois emigrantes judeus da Europa Central não constituía exatamente um grande plano comercial nos anos 30. Gerda participou na fabricação do mito. Depois, o mito ficou quase todo com ele. A História também sabe fazer marketing.
Quando fotografar era escolher um lado
Alina Marazzi trabalha há muito a memória, o arquivo e a identidade feminina — de Un’ora sola ti vorrei a Vogliamo anche le rose e Tutto parla di te — e encontra em Gerda uma personagem feita à medida do seu cinema: judia fugida do nazismo, militante antifascista, fotógrafa num ofício esmagadoramente masculino e mulher determinada a amar sem abdicar de trabalhar e uma enorme vontade de ser livre. Hoje chamar-lhe-íamos moderna. Em 1937, muitos preferiam chamar-lhe irresponsável. Marazzi recusa também transformar a política em assunto vintage. Fascismo, racismo, exílio, guerra e ameaças à democracia pertencem aos anos 30, mas é difícil assistir ao filme em 2026 com o conforto de quem contempla arqueologia. A Europa mudou. Algumas ideias aprenderam apenas a trocar de roupa. A fotografia de Manuel Alberto Claro, colaborador de Lars von Trier em Melancolia e Ninfomaníaca, constrói um belíssimo diálogo entre ficção, arquivo e imagens originais de Taro e Capa. O documento entra no filme sem vitrinas nem luvas de museu. De repente, aquelas personagens existiram mesmo, aquela guerra aconteceu e alguém teve de chegar suficientemente perto para carregar no obturador. O fotojornalismo ainda não tinha drones, telemóveis, transmissão instantânea, Instagram nem especialistas de painel televisivo a explicar uma guerra vinte segundos depois de ela começar. Era preciso chegar. Olhar. Escolher. Aproximar-se. E sobretudo sobreviver. Gerda não sobreviveu. Morreu a 26 de julho de 1937, na sequência da batalha de Brunete, esmagada por um tanque republicano durante a retirada. Tinha 26 anos e faria 27 seis dias depois. Já trabalhava autonomamente e conquistara o direito a deixar de ser apenas “a fotógrafa de Robert Capa”.
Emilia Schüle: atenção a este nome
Um filme destes podia facilmente morrer de respeitabilidade e até entrar na Competição principal, ainda mais com uma única mulher, este ano a competir pelo Leão de Ouro. Biografia histórica, Guerra Civil de Espanha, antifascismo, fotografia, feminismo, arquivo e uma protagonista destinada a morrer jovem: estavam reunidos todos os ingredientes para uma daquelas obras muito importantes que admiramos durante a sessão e não esquecemos antes do jantar. Emilia Schüle impede, que completamente que a esqueçamos.
A bela atriz alemã, conhecida internacionalmente por Marie Antoinette e pela série Ku’damm, dá aqui um salto de dimensão. Marazzi escolheu-a pela energia e pela capacidade de reincarnar Gerda sem procurar uma semelhança de museu de cera. A coincidência ajuda: Schüle estudou fotografia, fotografa e possui várias Leicas. Nota-se. Não pega na máquina como uma atriz a quem entregaram um adereço cinco minutos antes do “ação”. Carrega-a como ferramenta de trabalho e extensão do seu corpo. A sua Gerda é luminosa, sensual, insolente, generosa, ambiciosa, impulsiva e ocasionalmente irritante. Dança, ri, deseja, discute, quer reconhecimento e movimenta-se com aquela invencibilidade específica dos vinte e poucos anos, quando a morte ainda parece algo longínquo e reservado aos outros. Schüle tem uma beleza centro-europeia simultaneamente clássica e contemporânea, mas o mais fascinante é o movimento. Gerda parece estar sempre a chegar primeiro a qualquer lado. Mesmo parada.
A mulher que saiu da sombra
La Ragazza con la Leica conversa curiosamente com Ink, de Danny Boyle, também apresentado neste arranque veneziano. Dois filmes sobre jornalismo e duas maneiras radicalmente diferentes de fabricar aquilo a que chamamos realidade. Num, o jornal descobre que vender a notícia pode ser mais lucrativo do que compreendê-la. No outro, uma fotógrafa arrisca a vida porque acredita que uma imagem pode impedir o mundo de desviar os olhos. Gerda morreu jovem demais para administrar a própria lenda. Capa continuou, fundou a Magnum, fotografou outras guerras e morreu também a trabalhar, em 1954, na Indochina, ao pisar uma mina. Tornou-se definitivamente Capa. Gerda permaneceu durante décadas demasiado próxima do nome dele. Alina Marazzi devolve-lhe aquilo que uma fotógrafa merece: enquadramento próprio. A fotografia mudou, o jornalismo mudou, a tecnologia mudou. As guerras continuam assustadoramente reconhecíveis e continua a ser necessário alguém suficientemente corajoso, profissional ou louco para se aproximar quando os outros fogem. Gerda Taro aproximou-se. A Leica registou o resto.