Luís Montenegro não tirou férias. É importante deixar o País bem liderado.
Vanessa Martins diz que treina a sua equipa para estar disponível fora de horas. É importante que o negócio não pare.
Parece haver qualquer coisa de virtuoso nesta disponibilidade permanente. O líder que não descansa. O trabalhador que responde à mensagem à noite. A equipa que está sempre contactável. A pessoa que leva o computador para as férias “só por precaução”.
Chamamos-lhe compromisso. Profissionalismo. Ambição.
Mas talvez devêssemos chamar-lhe outra coisa: incapacidade de parar.
A batalha pela redução do tempo de trabalho foi longa e custou vidas. A jornada de oito horas não apareceu porque alguém percebeu, num dia iluminado, que era mais saudável trabalhar menos. Foi conquistada por trabalhadores que lutaram para que houvesse tempo para dormir, para estar com os filhos, para viver.
O trabalho é importante. Dá-nos rendimento, autonomia, dignidade e, muitas vezes, propósito. Mas não pode ser toda a nossa existência.
E, no entanto, há cada vez mais pessoas cansadas da permanente conexão ao trabalho. Não necessariamente porque trabalham mais horas, mas porque nunca deixam verdadeiramente de trabalhar.
Será que trabalhamos assim tanto porque queremos? Ou porque aprendemos a romantizar o excesso de trabalho? Vendem-nos o sucesso associado às agendas cheias, às noites longas, às reuniões ao domingo e à frase “eu não paro”. Como se parar fosse sinal de pouca ambição.
Há décadas que discutimos a jornada de oito horas como se fosse o ponto final da evolução. Entretanto, já discutimos semanas de quatro dias, automação e Inteligência Artificial. Mas continuamos estranhamente agarrados à ideia de que o valor de uma pessoa se mede pelo tempo que permanece disponível.
Talvez porque tenhamos medo do contrário.
Medo de parar. Medo de não sermos necessários. Medo de descobrir que, sem o trabalho, sobra demasiado tempo para percebermos quem somos.
E depois vem a Inteligência Artificial.
Quando começar a avançar, de botas de borracha, pelos locais de trabalho e nos obrigar a abrir espaço para máquinas fazerem aquilo que hoje fazemos durante oito horas, qual será a nossa reação?
Vamos lutar para preservar oito horas de trabalho, mesmo quando já não forem necessárias?
Ou vamos finalmente perceber que a tecnologia pode não servir apenas para produzir mais, mas também para nos devolver tempo?
Talvez a verdadeira batalha do futuro não seja pelo direito a trabalhar.
Talvez seja pelo direito a não ter de estar sempre a trabalhar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.