Existem várias formas de responder à desilusão com um líder que destruiu a imagem pública exclusivamente por sua responsabilidade, perdendo assim o prestígio granjeado e a admiração de muitos, por vezes após longos anos de persistente exposição.
A primeira é a negação. Trata-se de negar a existência do problema através da minimização e da comparação pela negativa com as falhas de outros líderes. Baseiam-se na ideia de que ninguém é perfeito, logo…
A segunda é a distinção entre a obra e o indivíduo. No fundo como que perdoam o erro ou o crime da pessoa em nome da obra feita. Em política é a velha máxima do governador e perfeito de São Paulo Adhemar de Barros, no final dos anos 50: “Eu roubo mas faço!”.
Depois vem a abolição. Estes são semelhantes aos anteriores mas vão mais longe ao banir os textos dos líderes caídos em desgraça e tentam revogar a sua autoridade. O problema é que não conseguem evitar a influência que eles tiveram no passado e ainda terão sobre muitos indivíduos.
Finalmente entram em campo de mãos dadas a revisão e a redenção. Ao reconhecer o impacto duradouro exercido sobre muitos, os revisionistas procuram “renovar as investigações para reavaliar ou reinterpretar o legado”, tentando assim resgatar das cinzas toda uma herança reconhecidamente positiva.”
Karen V. Guth, professora de estudos religiosos no College of the Holy Cross, apontou estas categorias referindo-se ao caso de líderes religiosos cristãos que caíram em desgraça na América, mas podia ser aplicado a políticos ou quaisquer outras figuras públicas com funções de liderança. Seja em que âmbito for, lançar fora o bebé com a água do banho nunca será uma reacção madura nem justa.
A maturidade implica reconhecer e valorizar o legado positivo e por vezes mesmo excepcional que o líder caído em desgraça deixou atrás de si, rejeitando o que é tóxico. Quando não se consegue executar este exercício de distanciamento crítico e da mais elementar justiça acaba por se cair na cultura do cancelamento, como agora se diz, o que é dramático tanto para a política como para as artes e a cultura ou a religião.
É a partir daqui que se destroem estátuas históricas, que se diaboliza a gesta da Expansão Portuguesa, a colonização, e tantas outras dimensões que integram a nossa história colectiva. Isto sucede quando não se é capaz de distinguir um escritor da sua obra, como no caso de Enid Blyton ou um artista plástico como Picasso. Pior ainda é quando se pretende reescrever a história ao expurgar duma obra literária expressões ou alusões hoje consideradas politicamente incorrectas, sem a devida e necessária contextualização.
No campo religioso, e no caso dos textos sagrados sucede o mesmo. Ataca-se o apóstolo Paulo por que nunca se rebelou contra o sistema esclavagista, esquecendo que essa era a estrutura social vigente na época e ninguém a contestava, e ignora-se que Paulo revolucionou as relações sociais na igreja, fazendo de senhores e de escravos irmãos na fé em Cristo, sem discriminação e colocando-os ao mesmo nível. Atacam-se textos do Antigo Testamento lendo-os com os olhos do homem contemporâneo, como se não tivessem sido escritos num contexto histórico-cultural e religioso muito específico e concebidos há milhares de anos. Aliás, este é um erro em que muitos cristãos também incorrem, acabando por desrespeitar os mais elementares princípios hermenêuticos e criando verdadeiras aberrações interpretativas.
A tendência de apagar da história líderes que caíram em desgraça é quase sempre um tiro no pé seja no plano político, religioso ou cultural. Antes de mais revela dificuldade em aceitar que todo o ser humano é imperfeito e passível de falhar. Por norma, quando não aceitamos as nossas próprias falhas também não estamos disponíveis para aceitar as dos outros. Depois, apagar alguém da história é desprezar a obra feita e o legado que em tempo tanto apreciámos e elogiámos. Parece que agora tudo isso deixou de ter valor apenas por que o autor nos desiludiu.
Boaventura Sousa Santos está acusado de assédio sexual na academia. Apurem-se os factos e condene-se o homem se for caso disso, mas não se caia na tolice de atirar para o caixote do lixo a obra de um académico considerado brilhante, goste-se ou não do seu posicionamento ideológico. Nesse caso seria a ciência e toda a sociedade que sairiam a perder.
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