Cai ou não cai? Keir Starmer está a viver uma tempestade política que pode acabar com a sua chefia do Governo britânico. É mais um dos efeitos colaterais do escândalo Epstein, que se prende com a nomeação para embaixador britânico nos EUA, em 2025, de Peter Mandelson, um dos íntimos do pedófilo e abusador sexual que se suicidou.
Na altura, Starmer já conhecia a ligação entre os dois. Terá perguntado a Mandelson, que se limitou a negar qualquer coisa para além de uma amizade banal e fortuita, e sempre dentro dos limites da decência. Convém dizer que Epstein já tinha estado detido, na primeira década dos anos 2000, e, em 2025, já alguns ficheiros reportavam a troca de e-mails entre os dois.
Mesmo assim, foi nomeado embaixador, sendo também presidente da Câmara dos Lordes, cargos que foi agora obrigado a abandonar com a divulgação de milhares de documentos e fotografias relacionadas com o caso, que, aliás, envolve também Sarah Ferguson e o ex-príncipe André de Windsor.
O chefe de gabinete do primeiro-ministro britânico demitiu-se, assumindo a responsabilidade pela indicação de Mandelson para embaixador. Chega? Há inúmeros deputados trabalhistas a exigir a cabeça do primeiro-ministro, mas, no Labour, a queda de um líder — e, neste caso, também chefe de Governo — é um processo mais lento do que no Partido Conservador.
Só há dois métodos para derrubar Starmer: ou um terço dos deputados trabalhistas escolhe um potencial candidato, que tem de ir a votos contra o atual líder, junto do partido e dos apoiantes, ou é lançada uma moção de confiança ao Governo, que contaria sempre com a maioria dos votos dos «tories», mais os trabalhistas que já não querem Keir Starmer na liderança do partido e na chefia do Governo.
O que é extraordinário, pasme-se, é que este escândalo — do qual ainda falta saber quase tudo — está a causar mais perturbação política em Londres do que nos EUA, onde a lista de amigos e parceiros de Epstein envolve Trump e outras figuras públicas, líderes empresariais e artistas. São três milhões de documentos para analisar, e essa dimensão acaba por fazer perder o fio à meada, o que agrada muito ao presidente americano. Enquanto estiverem concentrados em Keir Starmer, na monarquia britânica e na norueguesa, maior será o descanso para Donald Trump e os seus amigos e conhecidos.
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