“O que há, pois, em um nome? O que se chama rosa com outro nome teria o mesmo perfume.” As famosas palavras de Julieta ao refletir sobre Romeu e ao concluir que a essência não se altera com a terminologia (no caso, a natureza de Romeu não se altera por este ser um Montéquio, uma família rival da sua, os Capuleto). O mundo moderno, e em espacial a América de Trump, parece apostado em negar a veracidade da análise de Julieta.
Nos últimos meses, Polymarket tornou-se um nome comum, uma plataforma para apostar numa multitude de eventos. De resultados eleitorais (não apenas americanos, mas também noutras jurisdições como no caso das presidenciais portuguesas) à data da celebração do casamento de Taylor Swift. Da data de início da guerra no Irão a resultados de eventos desportivos…
Foi batizado de “mercado de prognósticos” e os seus defensores alegam que permite ao público estar mais bem informado e tomar decisões mais racionais. Não se trata de “jogo e aposta”, mas de um mercado legítimo, afirmam. Agentes mais bem informados partilhariam o seu conhecimento ao apostar… Não se trataria de manipular o mercado, mas de o tornar mais transparente. Os apostadores são batizados de “traders”, afastando a conotação de perigo associada ao jogo a dinheiro… e enfatizando o carácter de que não se trata de fortuna ou azar, mas de uma análise cuidadosa do mercado.
Os proprietários do Polymarket e seus defensores, nomeadamente empresas de criptomoedas (o meio de pagamento das apostas), insistem que não é jogo, mas um mercado financeiro, sujeito às leis dos mercados financeiros. “Não somos um casino”, afirmam, ninguém aposta contra a “casa”. “Somos um mercado” − um site onde o lucro do proprietário resulta de uma taxa cobrada a quem aposta.
A tese não visa garantir alinhamento com as regras que regulam o dever de segredo ou os conflitos de interesses nos mercados financeiros, mas evitar a obrigatoriedade de obter uma licença de jogo.
A Administração Trump, sem surpresa, afinal Donald Trump Jr. (o filho do Presidente) é investidor e consultor da Polymarket, autorizou os mercados de prognósticos. A esta data, cerca de 50 ações judiciais estão em curso para determinar se os estados americanos podem proibir este tipo de sites ou se este é um poder federal. Na Europa, já vários países, incluindo Portugal, ordenaram o bloqueio do site. O acesso, no entanto, é sempre possível via uma VPN. O número de jogadores continua a crescer e o volume acumulado de transações ultrapassa 15 mil milhões de dólares.
Notícias recentes mostram o impacto efetivo da Polymarket (e de mercados congéneres). Não se trata apenas de ter uma slot machine sempre no bolso, travestida de mercado de capitais e respetivo risco de adição e perdas financeiras. O anonimato permitido pelo pagamento feito em criptomoedas torna-o um meio especialmente apetecível para lavagem de dinheiro proveniente de fontes ilícitas. A tentação de influenciar resultados é grande. O jornalista que reportou a queda de um míssil em Jerusalém foi alvo de mais de 100 mensagens ameaçadoras, tentativas de corrupção, um pagamento para escrever que tinham sido estilhaços, depois ameaças à integridade física, sua e da sua família. A tentação do lucro fácil, mesmo pondo em causa a segurança nacional… demonstrada por um militar americano que terá participado na operação militar na Venezuela, e que ganhou 400 mil dólares ao apostar que Maduro sairia do governo venezuelano antes do final de janeiro. E finalmente, mas não menos grave, mais um fator de destabilização na realização de eleições, quando as apostas não correspondem ao resultado final, e o risco de tal ser usado para desacreditar tais resultados… sobretudo, ora, que a família Trump anunciou o seu próprio mercado de prognósticos, o Truth Predict. Num mundo já tão precário, mais um fator de destabilização de que certamente não precisávamos. Impõe-se por isso maior cooperação internacional na regulação do jogo online e em especial no combate ao jogo online ilegal.
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