Minha filha,
Na madrugada de 25 de outubro, a polícia avançou sobre as pessoas acampadas no Rossio, em Lisboa, e na Praça D. João I, no Porto, em protesto pelo direito à habitação. Houve bastonadas, cães, feridos e detenções. A PSP invocou a necessidade de repor a legalidade. Mas não podemos deixar de perguntar o que acontece a uma democracia quando quem reclama direitos acaba a enfrentar a força do Estado.
Foi a pensar em ti que vi estas imagens. No mundo em que vais nascer. Na facilidade com que nos habituamos a ver direitos postos em causa, governos a aprovarem medidas regressivas e pessoas tratadas como um problema quando tentam denunciar os problemas que não se conseguem resolver.
Porque a habitação também é uma questão de liberdade feminina. É difícil falar de igualdade quando uma mulher não tem condições económicas para sair de uma relação abusiva, quando a precariedade a obriga a adiar a maternidade ou quando a falta de uma casa lhe retira a possibilidade de construir uma vida autónoma. Sem independência económica e sem um lugar seguro a que possa chamar seu, a liberdade de uma mulher pode existir na lei e faltar-lhe na vida.
E este é um dos meus medos, minha filha. Porque serei mãe de uma menina. Porque tu és metade do mundo e não quero que passes a vida a lutar para conquistar aquilo que deveria ser teu: o direito a escolher, a dizer não, a ocupar o teu lugar e a decidir o teu próprio destino.
Assusta-me deixar-te um mundo onde ser mulher ainda signifique ter de provar mais, aceitar menos e resistir sempre. Onde os direitos conquistados pelas mulheres não sejam garantias, mas batalhas que cada geração tem de voltar a travar.
É também por isso que a democracia importa. Não se resume ao voto, nem se mede apenas pela legalidade das decisões de quem governa. Mede-se na capacidade de proteger a dignidade humana, de permitir o protesto e de garantir que ninguém tem de escolher entre a sua segurança, a sua liberdade e o direito a viver com dignidade.
Minha filha, não quero deixar-te um mundo perfeito. Quero deixar-te um mundo onde não precises de pedir licença para ser livre, nem de conquistar todos os dias o direito a ter direitos.
Que herdes a coragem das mulheres que vieram antes de ti, mas não a obrigação de travar eternamente as mesmas batalhas.
Que tenhas uma casa onde possas ser livre, uma voz que possas usar sem medo e uma democracia que não te peça silêncio em troca de segurança.
Talvez seja essa a responsabilidade maior de te amar: não aceitar como inevitável o mundo que te deixo.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.