São um bando de arruaceiros e extremistas. É falso. Vimos lá pessoas de todas as idades. Além disso, nenhuma manifestação inorgânica consegue evitar a infiltração de eventuais arruaceiros e provocadores. Por exemplo, um grupo de extrema-direita já tentou lá ir fazer confusão.
Têm bandeiras da Palestina. O facto de os defensores de algumas causas se aproveitarem para as difundir não retira razão nem legitimidade à causa central: a crise da habitação.
São estrangeiros. É normal que alguns estrangeiros também reclamem pois vêm-se aflitos para encontrar uma casa, e precisam tanto como os nacionais.
Fizeram declarações inaceitáveis. Por exemplo, alguém falou em atirar um tijolo à casa do primeiro-ministro, e outro em acabar com o Estado. Nenhuma manifestação inorgânica consegue evitar que um ou outro manifestante diga “coisas”, isto é, disparates. Devem ser identificados e levados à justiça, se for caso disso. Tais anomalias não ferem a virtude da causa.
São esquisitos e têm cabelo rosa. E então? Gostos não se discutem. A cor do cabelo não significa que não tenham direito a habitação. Será que uma manifestação “aceitável” implica agora um dress code?
Realizaram “assembleias populares”. Numa manifestação inorgânica como se podem ouvir as pessoas e tomar decisões democráticas sem ser assim? Parece-me até uma medida muito útil, pois funciona como válvula de escape da frustração e revolta sentidas e pode contribuir para evitar o recurso ao vandalismo.
Estão a infringir a lei. Parafraseando Jesus Cristo sobre a guarda do sábado, os cidadãos não existem por causa da lei, mas a lei por causa dos cidadãos. E a Constituição está acima de qualquer lei ordinária, sobretudo se esta for anterior à mesma. Além disso, as ilegalidades tratam-se nos tribunais, não à pancada.
Porque motivos o Governo perdeu legitimidade para invocar uma pretensa ilegalidade?
Porque nas manifestações anteriores, com tendas e pernoita, até mesmo em frente a órgãos de soberania (o que nem sequer foi aqui o caso) nunca a polícia foi mandada para reprimir os manifestantes e muito menos com violência despropositada.
Porque a polícia nada faz nas zonas dos bares de animação noturna, nas nossas cidades, apesar das queixas recorrentes dos moradores, devido ao ruído provocado até altas horas da noite, impedindo os moradores de descansar, ocupando a via pública e provocando problemas de salubridade. Nunca a polícia foi mandada para reprimir os notívagos e muito menos com violência despropositada.
Porque a polícia nada faz nos grandes eventos futebolísticos, quando adeptos e claques ocupam a via pública até tarde e sujam a cidade. Nunca a polícia carrega à pancada sobre os adeptos, a não ser quando há distúrbios entre eles, em especial nos jogos internacionais.
Por isto e muito mais, o Governo não dispõe de qualquer legitimidade moral nem política para invocar uma pretensa ilegalidade, pelo facto de manifestantes pacíficos reclamarem o seu direito constitucional de ter uma casa para morar, mesmo com tendas montadas nas praças e pernoita, sem incomodar ninguém.
Todos os argumentos invocados são de má-fé. Desde a argumentação miserável sobre sacrifícios, do presidente do IHRU, que pouco ou nada faz para resolver este problema porque não funciona há muito tempo, passando pelo ministro da Administração Interna.
Nunca se viu um político invocar tanto a legalidade quando está demonstrado que ele, quando dirigia a Polícia Judiciária, deixou atrás de si um rasto de incumprimento dos procedimentos adequados e suspeitas de ilegalidades.
Até o primeiro-ministro se reduziu ao silêncio, desaparecendo de cena. Só vejo uma razão para tal: estar a ganhar coragem para demitir Luís Neves.
O resultado das cargas policiais no Porto e em Lisboa, de forma desproporcional, só vieram acicatar os portugueses e dar força ao movimento pelo direito à habitação. A partir de agora, serão muitos mais a protestar. Além disso, o país político agita-se. Fernando Negrão exige que Montenegro se pronuncie, Ângelo Correia alerta para as consequências do silêncio desse silêncio, Jorge Moreira da Silva critica a carga policial e muitas vozes clamam por ouvir António José Seguro sobre o assunto.
O Governo vai nu. Tem que mudar urgentemente de estratégia. O Presidente da República é o presidente de todos os portugueses, por isso já devia ter falado. A não ser que queiram ver Lisboa e Porto a arder como Paris, Bruxelas ou Espanha. Depois não se queixem.
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