

Cresceu com o peso de ser filho de Hans Frank, dirigente nazi condenado à morte e enforcado em Nuremberga, que ficou conhecido como o “carniceiro da Polónia”. Ao longo da vida, Niklas Frank, que durante décadas foi jornalista e editor da revista Stern, dedicou-se a reunir ainda mais provas contra o pai. O livro que escreveu, O Meu Pai – Uma Vingança, agora editado em Portugal, é uma longa carta que dirige ao homem que Adolf Hitler nomeou como governador-geral dos territórios polacos ocupados durante a II Guerra Mundial. Não acredita na vida depois da morte, mas, se pudesse, levaria todos os documentos para o Inferno, para poder discuti-los com o pai. “Ele voltaria a mentir. Nunca reconheceria aquilo que fez”, acredita Niklas.
No dia 16 de outubro, fez 80 anos que o seu pai foi enforcado, depois de ter sido condenado à morte em Nuremberga. É uma data especial para si?

Hans Frank, governador- -geral dos territórios polacos ocupados pelos nazis, foi enforcado em Nuremberga, a 16 de outubro de 1946, depois de ter sido condenado por crimes de guerra e por crimes contra a Humanidade. Um dos seus filhos, Niklas Frank, nascido em 1939, escreveu um livro como se fosse uma longa carta dirigida ao pai. O tom é acusatório e sarcástico. Um ajuste de contas familiar e histórico. O Meu Pai – Uma Vingança acaba de ser editado em Portugal pela Zigurate, coincidindo com os 80 anos do final julgamento de Nuremberga.
Livros Zigurate
Não, para mim não. Mas vou contar-lhe uma história recente. Em fevereiro de 2024, recebi uma carta de uma pessoa de Nuremberga que não conhecia de lado algum. Ele escrevia: “Honorável senhor Frank, estaria interessado numa fotografia do seu pai, depois de ter sido enforcado, mas nu?” Fiquei verdadeiramente entusiasmado. Respondi imediatamente que sim, que estava muito interessado. Era a minha vitória final: publicar uma foto do meu pai morto e todo nu. Ele enviou-me a foto e eu escrevi um longo artigo. Mas ninguém na Alemanha aceitou publicar a fotografia. Desde o fim da guerra que todos os jornais e todas as revistas publicam imagens de judeus assassinados e nus. Não se importam. Mas, de repente, isto já é um problema.
Que explicação encontra para isso?
Julgo que, bem lá no fundo da cabeça dos alemães, ainda existe esse sentimento de que somos o melhor povo do mundo. E este homem, o Hans Frank, por azar, pertenceu a uma época em que a História alemã não foi propriamente exemplar. Portanto, por favor, não o exponham de uma forma tão imoral.
Acabou de mencionar as fotografias de judeus assassinados. De que forma olha para o que Israel tem vindo a fazer em Gaza?
É algo horrível, mas não é Israel. É o governo israelita. O senhor Netanyahu é um dos maiores criminosos de guerra. Ele e os seus ministros.
Sabemos o que a Alemanha nazi fez. Para acontecer tudo aquilo, foi necessário que muita gente fechasse os olhos e fizesse de conta que não estava a acontecer. Não é justo pensar o mesmo em relação a Israel?
Em Israel, não há muito que as pessoas comuns possam fazer, mas, mesmo assim, há manifestações contra o governo e contra a guerra. Jamais compararia com o que aconteceu na Alemanha. Nós fizemos tudo, desde o início, de uma forma muito organizada. E antes de 1933 os judeus não lançavam bombas contra a população alemã dentro da Alemanha. Essa é uma diferença fundamental. Israel não tem forma de viver em paz tendo o Hamas ao lado.
Voltemos a si e ao seu pai. No livro escreve “a tua morte dava-me prazer”. E conta que, nos anos que se seguiram a 1946, nas noites que antecediam o 16 de outubro, o aniversário da morte, se masturbava sentado no chão da casa de banho.
Sentia uma pressão enorme quando se aproximava o 16 de outubro. A minha mãe não, mas os meus familiares preparavam-se sempre para celebrar essa data que tinham como sagrada, em que um homem inocente tinha sido morto. Para eles, o meu pai tinha sido uma vítima de [Heinrich] Himmler, de [Adolf] Hitler e da justiça norte-americana. A celebração daquela espécie de dia sagrado, com cerveja e salsichas deliciosas, perturbava-me muito. A masturbação era uma escapatória de tudo aquilo, que me dava uns momentos de prazer.
Só por uma vez visitou o seu pai na prisão em Nuremberga, correto?
Sim, ainda antes de ser conhecida a sentença. Pela pesquisa que fiz, essa visita terá acontecido em setembro de 1946. Eu era o mais novo dos cinco filhos, mas todos nós – e também a minha mãe – tínhamos noção de que ele iria ser condenado à morte. Desde 1945 que os jornais publicavam fotografias de judeus mortos nos campos de concentração. No verão de 1946, o advogado disse à minha mãe que as provas eram tão fortes que era inevitável ele ser condenado. Foi já com esta consciência que fomos visitá-lo à prisão. Foi a primeira e a última visita.
Ainda assim, durante essa visita, ele falou consigo sobre o Natal seguinte que iriam passar todos juntos.
Sim, lembro-me de estar sentado ao colo da minha mãe, enquanto o ouvia, e a pensar: “Porque é que ele está a mentir? Ele sabe que vai ser enforcado. Está a mentir para quê?” Isso foi uma desilusão enorme.
Citando uma outra passagem do livro: “O estalo do Teu pescoço poupou-me uma vida lixada.” Consegue imaginar como teria sido a sua vida caso o seu pai não tivesse sido enforcado?
Ele ter-me-ia envenenado a cabeça. Eu teria demorado muito mais tempo a libertar-me da lavagem cerebral que ele me teria feito. Tenho a certeza disso. Vou contar-lhe uma coisa que descobri recentemente. Quando a minha mulher, a Hannelore, morreu – a 14 de abril de 2022 –, passei dias e noites a chorar. E, de repente, percebi que nem sempre tinha sido um homem que fizera a mulher feliz. Tive muitas relações extraconjugais e houve alturas em que a deixei. Mas havia entre nós um amor profundo. Ela amou-me sempre e suportou tudo. No meio de todo esse sofrimento, percebi uma outra coisa: o meu pai roubou-me a ternura. A morte dele deve ter influenciado o meu carácter – e a forma como vivi a minha vida – de uma maneira muito mais profunda do que alguma vez tinha imaginado. Acho que, por causa da sua morte, tive de construir uma armadura de aço à minha volta. Mas quando somos adultos já não podemos responsabilizar o nosso pai pela pessoa que somos. Quando somos adultos já somos responsáveis por nós próprios. Não me tinha apercebido de que tinha passado toda a vida dentro dessa couraça, porque sempre me considerei um tipo porreiro, muito seguro de si e que vivia a sua própria vida. Só depois da morte da Hannelore é que percebi que aquela couraça sempre ali estivera. É também por isso que continuo a chorar a morte da minha mulher: porque não fui capaz de perceber que havia algo de errado comigo.
Ainda tem essa armadura vestida?
Agora está aberta. Mas só se abriu com a morte da Hannelore. Abriu-se demasiado tarde. Não sou uma pessoa religiosa, não acredito na vida depois da morte, e isso é o mais terrível. Se fosse crente, até poderia pensar que vou voltar a encontrá-la e que vamos poder falar sobre tudo. Mas sei que isso não vai acontecer. E isso deixa-me furioso. Enquanto a Hannelore esteve doente, com cancro, houve momentos em que quis falar-lhe sobre certas coisas do passado. Um dia fui ter com ela e disse-lhe: “Hannelore, tenho de te contar alguns episódios terríveis que continuam a arder dentro de mim, no meu coração. Por favor, deixa-me falar sobre isso.” E ela respondeu: “Oh, Nikian, esqueçamos isso. Agora somos felizes.” E foi aí que cometi o maior erro da minha vida. Como cobarde que sou, respondi simplesmente “está bem”. E isso continua a consumir-me todos os dias.
Talvez esteja errado em relação à vida depois da morte. Talvez um dia possam estar de novo juntos.
Quando ela estava no hospital, a morrer, houve um momento em que me disse: “Nikian, acho que já não falta muito.” Então abracei-a na cama, comecei a chorar e disse-lhe: “Nunca mais vou poder ver-te.” A resposta dela foi: “Talvez um dia possas.” Porra.
Escreve que sempre quis ser mais velho do que o seu pai era quando morreu. Porquê?
Um dia, descobri que o meu irmão Norman, 11 anos mais velho do que eu, também tinha esse desejo. O enforcamento do nosso pai exerceu sobre nós um peso muito maior do que pensávamos. Quando a tal armadura se abriu, com a morte da Hannelore, também percebi que, quando era criança, devo ter amado o meu pai muito mais do que pensava. O facto de não sentir da parte dele o mesmo amor foi muito doloroso. Tenho gravada na cabeça uma cena, passada na casa de banho, em que ele pôs um bocadinho de espuma de barbear no meu nariz. Por que razão isto ficou marcado na minha memória? Porque é a única cena em que me lembro de alguma ternura da parte dele.
No livro escreve: “Queria descobrir tudo sobre ti. Como filho estava preparado para deixar a misericórdia prevalecer sobre a justiça. Mas quanto mais descobria sobre ti […], mais vivo me parecias. E, portanto, mais odioso.” Quando começou este processo de investigação e de aprendizagem sobre o seu pai, o seu desejo era perdoá-lo, encontrar algo que o ilibasse?
Não, o objetivo não era esse. Mas tentei encontrar.
Não encontrou nada que mostrasse que o seu pai tinha um coração?
Não. Era um carreirista. Todos os dias teve de ignorar atrocidades que aconteciam na Polónia ocupada. Recordo-me de um episódio que se passou com o meu irmão Norman. Ele costumava jogar futebol com outros miúdos alemães num parque perto do Castelo de Cracóvia. À noite, perguntou ao meu pai o que se passava, porque tinham visto cadáveres ao longo da estrada. O meu pai, o todo-poderoso governador-geral da Polónia ocupada, no meio daquela sala de jantar luxuosa, atirou com o garfo e com a faca, gritou que não queria saber nada daquilo, levantou-se e saiu. O meu pai era assim. Dias antes de ser enforcado, a minha mãe escreveu-lhe uma carta para a prisão na qual aparece a seguinte frase: “Lembras-te da noite em que estávamos deitados na cama e me contaste todas as cenas horríveis de que tinhas conhecimento sobre o campo de concentração?” Ele sabia de tudo, mas não se importava. Até a mulher do [Hermann] Göring conseguiu salvar alguns judeus através dos poderes do marido, atores e atrizes, porque ela própria era atriz. A minha mãe nunca fez nada por eles.
Nasceu em março de 1939, alguns meses antes do início da guerra. As suas primeiras memórias são já na Polónia?
A minha primeira memória é na casa do lago Schliersee [na Baviera]. Lembro-me de estar sentado numa bacia a tomar banho. Devia ser ainda um bebé. Depois tenho várias memórias de infância passadas no Castelo de Kressendorf, na Polónia.
E também no Castelo de Wawel, em Cracóvia, certo?
Sim, a tal cena da espuma de barbear no nariz, por exemplo, foi em Wawel.
Como era para uma criança viver num castelo?
Era incrível. Tínhamos o nosso próprio criado e gozávamos com ele. Fazíamos isso porque sabíamos que éramos crianças poderosas.
Tinha essa perceção?
Sim. Tinha um carro a pedais e andava com ele pelos longos corredores do castelo. Ficava à espera de que aparecesse algum adulto e ia contra as suas pernas. Eu sabia que eles sabiam que não podiam fazer nada contra mim porque eu era filho de um homem poderoso.
Sentia-se um príncipe?
Sim, posso dizer que sim.
Foi uma infância feliz?
Sem dúvida. Também não tínhamos grande relação com a nossa mãe, que se comportava como se fosse a rainha da Polónia. Mas foi uma infância feliz em grande parte devido à nossa ama, a Hilde. Foi ela que fez de mim um ser humano. Era uma rapariga da Baviera, com cerca de 25 anos. Só depois da guerra, quando passámos a ser uma família de criminosos e já não havia uma ama, é que fomos estreitando a relação com a nossa mãe.
Além de si, que nasceu em 1939, os seus pais tiveram mais quatro filhos: Sigrid (1927), Norman (1928), Brigitte (1935) e Michael (1937). Eles tinham pelo pai o mesmo sentimento de rejeição?
Não. Quando nos encontrávamos todos, passados cinco minutos já estávamos a discutir sobre o nosso pai. A Sigrid, a Brigitte e o Michael sempre acharam que ele era inocente e que tinha sido vítima de Hitler e da justiça americana. Só o Norman é que estava aberto a ver a realidade e os documentos que provavam a culpa do nosso pai. Ele dizia sempre: “Sei que o nosso pai foi um criminoso, mas eu amo-o.” Isto é compreensível. Teve com ele uma relação muito mais próxima do que eu, porque era 11 anos mais velho. O nosso pai, no seio familiar, era um homem bem-humorado e que contava muitas anedotas.
A sua mãe morreu em 1959.
Sim, no dia do meu aniversário.
Que visão tem sobre ela?
Com a minha mãe é diferente. Nós vivíamos no meio do luxo e de repente ficámos pobres. E ela fez das tripas coração para nos criar e para fazer com que fosse possível irmos para a escola. E, tanto quanto me lembro, ela nunca glorificou o meu pai nem o Terceiro Reich.
Mas no seu livro, a determinado momento, escreve: “Há cartas que ela [a sua mãe] escreveu que me fazem odiá-la tanto como te odeio. Mas mesmo assim ela era melhor do que tu, não era tão efeminada.”
Sim, há muitas cartas… Lembro-me de uma que ela escreve ao meu pai quando ele estava na prisão. Havia um jornalista alemão, judeu, que trabalhava para uma estação da Baviera durante o julgamento. Ele tentou estreitar relações com as mulheres de todos os arguidos e por isso ia muitas vezes a nossa casa. Lembro-me muito bem porque nos trazia sempre chocolates. Nessa carta para o meu pai, a minha mãe fala dele – chamava-se Gaston Ullmann – e escreve a seguinte frase: “É judeu, mas acredito que tem um coração humano.”
O facto de a sua mãe, durante a guerra, ir fazer compras ao gueto também diz alguma coisa sobre ela, não?
Sim, sem dúvida.
Até a mulher do [Hermann] Göring conseguiu salvar alguns judeus através dos poderes do marido, atores e atrizes, porque ela própria era atriz. A minha mãe nunca fez nada por eles
Tem alguma recordação dessas idas ao gueto?
Sim. Não sei quantas vezes fui com ela – normalmente estava com a minha ama. Mas lembro-me de uma dessas visitas. Vi todas aquelas pessoas à minha volta, com um ar tão triste. Para uma criança, foi realmente impressionante.
Só se lembra dessa visita, ou terá sido a única vez em que lá esteve?
Diria que foi a única, porque a minha mãe não estava muito interessada em ter aqueles malditos filhos sempre à volta dela.
Diz que a sua mãe nunca glorificou o Terceiro Reich. Mas o seu pai disse ao psiquiatra que o acompanhou em Nuremberga, Gustave Gilbert, que, caso se tivesse casado com o seu primeiro amor, Lilly Groh, nunca se teria tornado nazi.
É completamente mentira. Ele mentiu durante toda a vida. Tornou-se nazi… Eu diria que ele era um antissemita alemão normal. Nada mais do que isso. Mas isso mudou quando conheceu Hitler. Ele nasceu em 1900 e, durante a infância, viveu naquele maravilhoso Deutsche Reich. De repente, depois da I Guerra Mundial, tudo mudou. No diário que escreveu quando era jovem dizia: “Precisamos de alguém que devolva a honra à Alemanha – talvez essa pessoa possa ser eu.” Mas depois caiu nas mãos de Hitler. A minha irmã mais velha, a Sigrid, escreveu à minha mãe durante a guerra: “Acho que o pai ama Hitler mais do que a própria família.” Se Hitler tivesse dirigido aquelas frases cruéis não contra os judeus, mas contra os portugueses, o meu pai teria dito exatamente as mesmas coisas, com a mesma crueldade, sobre matar portugueses.
Faltavam-lhe convicções.
Sim. Ele também disse ao psiquiatra: “Diria que existem duas personalidades dentro de mim. Uma é o professor; a outra é aquele homem que se juntou aos nazis.” Nesse aspeto, tinha razão.
No seu livro pergunta-lhe como é que homens como ele se transformam em criaturas monstruosas. É uma excelente pergunta. Encontrou uma resposta?
Não, ainda não. Ele poderia ter atravessado o Terceiro Reich como advogado, talvez até como membro do Partido Nazi, como fizeram milhões de pessoas. Mas queria mais. Uma vez, ainda jovem, ajoelhou-se diante da minha mãe e disse: “Brigitte, gostava de, pelo menos uma vez na vida, ganhar mil marcos por mês.” Isso é compreensível. E depois, por um acaso, tornou-se advogado de alguns nazis que tinham espancado pessoas e conseguiu evitar que fossem condenados. De repente, passou a ser defensor e advogado de Hitler. E foi então que se apaixonou verdadeiramente por Hitler.
Durante a guerra, estaria apaixonado por Hitler ou teria um medo terrível dele?
A mudança mais importante na vida dele aconteceu depois da guerra, quando se reaproximou da Igreja Católica. Tinha sido educado como católico, mas abandonou a Igreja quando se tornou membro do Partido Nazi. Após a guerra, o padre O’Connor – um padre americano que falava alemão fluentemente – batizou-o novamente na Igreja Católica. E, de repente, tornou-se, de uma forma absolutamente inacreditável, um homem profundamente religioso. A minha mãe lia-nos as cartas que ele enviava da prisão e nessas cartas falava muito de Deus. Sempre achei que aquelas cartas não eram honestas. Isso tornou ainda mais forte o meu ressentimento em relação ao meu pai. Ele escreveu um livro durante o período em que esteve preso – In the Face of the Gallows (Diante da Forca) –, que a minha mãe publicou mais tarde, com grande sucesso. Nesse livro há relatos muito interessantes sobre a relação dele com Hitler e, ao mesmo tempo, páginas inteiras cheias de Jesus e de Deus. Chegou a dizer que o povo alemão se tinha afastado de Deus e da religião e que, por isso, tinha cometido todos aqueles crimes terríveis.
Crescimento da extrema-direita na Alemanha? Por um lado, deixa-me furioso. Por outro, sempre esperei que isto viesse a acontecer. Os alemães ainda se consideram uma raça superior, estão fartos da democraci ae querem um novo Führer
Nas suas palavras e tendo em conta o contexto histórico, o seu pai seria um antissemita normal, como muitos alemães da época. Mas ter-se-á tornado um antissemita feroz porque era isso que era esperado dele. Isto aponta, mais uma vez, para um homem de convicções maleáveis. Aos seus olhos, isto faz dele mais culpado, ou confere-lhe alguma dose de inocência?
Para mim não faz qualquer diferença. Tanto o nazi mais convicto de todos como o carreirista do partido sabiam que estavam a matar milhões de inocentes.
Voltando ao seu livro e às palavras que dirige ao seu pai: “Não se sabe bem porque é que Hitler te nomeou governador-geral. Creio que foi porque farejou o teu carácter servil, submisso. Porque sabia que tu levarias ansiosamente a cabo qualquer ordem enviada de Berlim.” Qual seria a opinião de Hitler sobre o seu pai?
Precisava dele. Antes de se tornar chanceler, precisava dele. Apesar de tudo, o meu pai era um advogado muito competente. Hitler reconhecia-lhe valor e precisava dele. Porém, quando se tornou chanceler da Alemanha, deixou de precisar. Mas Hitler era austríaco e, tal como os bávaros, tinha uma relação especial com os velhos camaradas. Não queria destruí-los. Por isso nomeou-o ministro, mas sem pasta, e depois, como conhecia o seu carácter, acabou também por o nomear governador-geral dos territórios ocupados da Polónia.
Porque sabia que ele seria alguém que lhe diria sempre que sim?
Sabia que ele nunca se oporia verdadeiramente às ordens. Por duas ou três vezes, ainda chegou a pedir a demissão do cargo, mas sabendo perfeitamente que Hitler a recusaria. Estou convencido de que o meu pai interpretava essas recusas como uma demonstração de amor de Hitler por ele. Há uma história muito curiosa, que mostra que Hitler também tinha sentido de humor. Em 1942, quando o meu pai reencontrou a Lilly, quis divorciar-se da minha mãe. Ela não aceitou e chegou a dizer que preferia ser viúva de um ministro do Reich do que uma mulher divorciada. Então o meu pai enviou um dossier para Berlim, pedindo autorização a Hitler para se divorciar. Repare que estamos em 1942, com a guerra no auge. E, em resposta, recebeu um telegrama de [Martin] Bormann, o secretário pessoal de Hitler – consigo imaginar Hitler, com um sorriso, a ditar o telegrama –, a dizer: “O Führer estudou o seu dossier com muita atenção e está preparado para lhe dar autorização para o divórcio se o senhor renunciar a todos os seus cargos e regalias.”
Por vezes, ao ler aquilo que escreve e também entrevistas suas, dá a sensação de que tem alguma vergonha de ser alemão.
Não, de todo. Adoro a Alemanha, mas não confio nos alemães. Essa é uma das grandes lições da minha vida. Durante a minha juventude, continuei sempre a ver o antissemitismo que ainda existia. E a verdadeira razão pela qual escrevi este livro foi para acabar com aquele silêncio, com aquele maldito silêncio que escondia tudo. Escrevi-o convencido de que estava a escrever um livro político. Por isso, fiquei muito surpreendido quando até os jornalistas começaram a atacar-me, dizendo: “Como é possível tratar o próprio pai desta maneira?” Mais tarde, ocorreu-me uma coisa: talvez aqueles jornalistas que escreviam contra mim estivessem furiosos porque o meu livro os obrigava, de repente, a perguntar: “O que é que fez o meu pai? O que é que fez a minha mãe?” E isso era precisamente aquilo em que não queriam pensar.
Como vê o crescimento da extrema-direita na Alemanha?
Por um lado, deixa-me furioso. Por outro, sempre esperei que isto viesse a acontecer. Os alemães ainda se consideram uma raça superior, estão fartos da democracia e querem um novo Führer.
A AfD é um partido nazi?
Sem dúvida. Basta ver as declarações dos seus membros. Querem mudar a imagem do Terceiro Reich que hoje nos é ensinada. Querem mudar tudo, para voltar a fazer da Alemanha um país puro e uma grande nação. E isso é realmente muito triste.
Já me disse que não acredita em Deus e que não acredita na vida depois da morte. Se estiver enganado, gostaria de reencontrar o seu pai no além?
Claro que sim. E espero poder levar comigo para o Céu todos os documentos que tenho – ou melhor, para o Inferno, porque é lá que ele estará sentado – e discutir tudo com ele. E posso garantir-lhe uma coisa: ele voltaria a mentir. Nunca reconheceria aquilo que fez. Mas ele sabia perfeitamente o que tinha feito e o que o esperava. Durante a guerra, em 1943, um amigo dos tempos da juventude foi visitá-lo a Cracóvia. Esse homem, anos mais tarde, contou-me o que o meu pai lhe disse: “Tu vais ser professor e eu vou ser enforcado.” Sabia perfeitamente o que o esperava.
No fim, nos últimos momentos da vida, acha que ele se arrependeu do que tinha feito?
Escreveu duas cartas, uma ao advogado e outra à minha mãe. Nessas cartas dizia: “Um dia, a verdade sobre mim virá ao de cima. Nunca fui um criminoso.” E escreveu isto depois de quase um ano de julgamento, durante o qual tinha sido confrontado com todas as provas dos crimes que tinha cometido.
Acha que estava realmente convencido disso, ou estava simplesmente a mentir?
Estava convencido. Tinha a certeza de que era inocente.
Como? Ele sabia o que tinha acontecido. Como é que se considerava inocente?
Acho que nunca se confrontou verdadeiramente consigo próprio. Pense: ele tinha privado com Hitler, tinha na cabeça todas aquelas imagens em que aparecia ao lado de Hitler, todos aqueles uniformes, todo o poder que tivera no governo. Estava tudo tão profundamente gravado na sua cabeça que nunca conseguiu reconhecer que tudo isso assentava em crimes.
Reconhece alguma qualidade ao seu pai?
Era um mentiroso extraordinário. E essa é a única coisa que herdei dele: também consigo mentir muito bem, de forma brilhante. Mas, precisamente porque sei isso, só menti em raríssimas situações. Quando tive relações extraconjugais, menti à minha mulher. Mas, sim, ele era um mentiroso brilhante. Tenho gravações de todos os discursos dele, que comprei nos arquivos da rádio. Sentei-me a ouvi-los com o meu irmão Norman e não conseguia suportá-los. No fim, estávamos bêbados. Mas quando eu estava no colégio interno, em 1955 ou 1956, dez anos depois da capitulação da Alemanha, o diretor veio ter comigo e disse: “Niklas, há uma coisa que sempre quis dizer-te: o teu pai foi o melhor orador que alguma vez ouvi.” Algum talento ele devia ter.
Tenho a impressão de que passou a vida a tentar exorcizar o seu pai e…
Não, isso não é verdade. Não passei a vida a fazer isso. Fui um ótimo jogador de ténis, escrevi muitos artigos divertidos, amei a minha mulher, tive muitas e maravilhosas relações extraconjugais. O meu pai e aquilo que ele fez? Sim, esteve sempre presente num canto da minha cabeça, isso é verdade. Mas, por outro lado, tive uma vida feliz. Vou contar-lhe uma coisa. Quando a Hannelore fez a segunda ou terceira operação, estava sentado aqui em casa, no meu banco, a beber uma cerveja e a chorar. E, de repente, surgiu-me Auschwitz na cabeça. Por mais estranho que possa parecer, isso reconfortou-me. Eu e a Hannelore tivemos a oportunidade de viver uma vida longa. Tivemos a oportunidade de chegar à velhice e até de enfrentar um cancro mortal. Tivemos direito a tudo isso, a todos os altos e baixos de uma vida. E nós, alemães, tirámos essa possibilidade a pessoas inocentes. Dou muitas palestras em escolas. E digo quase sempre aos alunos: “Imaginem que estão em casa e, de repente, batem à porta. E são expulsos de casa juntamente com as pessoas que amam. Metem-vos num camião e levam-vos para uma estação de comboios. Esperam ali, depois enfiam-vos dentro de uma carruagem. Viajam durante três dias e três noites e, quando chegam à rampa de Auschwitz, tiram-vos as pessoas que amam: os vossos pais, o vosso irmão, a vossa irmã, a vossa namorada, o vosso namorado.” Quando digo isto, aquilo que vejo à minha frente são rostos que se recusam a imaginar. Quantas vezes eu, na minha cabeça, mandei a Hannelore para um campo de concentração. Quantas vezes mandei a nossa filha, a Franziska. Quantas vezes mandei os meus três netos. Multiplique-se esse medo inacreditável da morte por milhões de pessoas. Foi isso que nós fizemos àquelas pessoas inocentes.