Uma chave de casa cabe na palma da mão. Pesa pouco, ocupa quase nada, mas pode conter uma vida inteira: a possibilidade de fechar a porta, de amar sem pedir licença, de pousar os livros numa estante que não seja provisória, de decidir onde começa o nosso silêncio. Para muitos jovens, essa pequena peça de metal tornou-se mais distante do que todas as tecnologias que aprenderam a dominar. Conseguem falar com alguém do outro lado do planeta, mas não conseguem pagar um lugar para viver na cidade onde trabalham. É uma estranha forma de progresso, esta que nos aproxima de tudo enquanto nos afasta de uma vida possível.
Na madrugada de 25 de outubro, a polícia desmantelou os acampamentos pelo direito à habitação em Lisboa e no Porto. Houve bastonadas, feridos e detenções. A PSP classificou a atuação como proporcional; os manifestantes denunciaram violência sobre pessoas que protestavam pacificamente. Esta divergência exige apuramento independente e responsabilidades concretas. Exige também que não deixemos desaparecer a pergunta essencial debaixo da discussão sobre as tendas: como chegámos ao ponto em que reclamar uma casa se tornou matéria de intervenção policial?
Penso na geração que viveu a juventude nos anos 60 (como os meus pais) e naquela a que demos a última letra do alfabeto. A comparação exige cuidado. Em Portugal, os anos 60 tiveram censura, polícia política, pobreza, fome, penúria, emigração e guerra colonial. Seria uma ofensa à memória apresentar esse tempo como um jardim de oportunidades. Nem todos tiveram esperança, nem todos puderam transformar a sua vida. Contudo, entre os que resistiam, havia um horizonte de libertação; e, depois de Abril, a possibilidade de estudar, de aceder a cuidados de saúde, de conquistar direitos e de dar aos filhos uma vida melhor ganhou uma expressão coletiva.
A esperança tinha adversários, mas tinha também uma direção. Para quem nasceu nessa década e cresceu com a democracia, o futuro pôde adquirir o sentido de uma abertura. Havia muito por fazer, e esse muito constituía uma promessa.
Hoje, demasiados jovens recebem uma mensagem inversa: estudem mais, adaptem-se mais, aceitem mais incerteza, sem que ninguém lhes garanta sequer que o trabalho chegará para pagar a renda. O esforço continua a ser exigido; a contrapartida tornou-se incerta.
Chamamos-lhes Geração Z, como se uma letra explicasse milhões de vidas diferentes. Há jovens protegidos pelo património familiar e jovens para quem um imprevisto de cinquenta euros desorganiza o mês. Há quem herde uma casa e quem herde a obrigação de ajudar a pagar uma. A distância decisiva passa também por aqui: pela desigualdade entre aqueles que podem começar e aqueles que precisam de passar anos a reunir condições para começar. Depois, ainda ouvimos discursos sobre a falta de autonomia dos jovens, como se a autonomia fosse um traço de personalidade que se pudesse desenvolver entre quatro paredes emprestadas.
Ernst Bloch escreveu, na abertura de O Princípio Esperança, numa formulação que podemos traduzir assim: “Trata-se de aprender a esperança.” No seu pensamento, esperar implica reconhecer possibilidades e agir sobre o que existe, em vez de aceitar o sofrimento como destino. Esta ideia torna particularmente obscena a facilidade com que pedimos confiança aos jovens sem lhes oferecermos condições para a exercer. A esperança precisa de alguma correspondência com o mundo: um salário que permita fazer planos, uma casa onde esses planos caibam, instituições que respondam quando se bate à porta.
O problema atravessa a Europa. Segundo o Eurostat, entre 2010 e 2024, os preços das casas na União Europeia aumentaram 53% e as rendas 25%. As médias escondem diferenças profundas, mas ajudam a perceber que a inquietação não termina nas nossas fronteiras. Uma Europa que se apresenta como espaço de direitos tem de responder à dificuldade de os tornar habitáveis. A liberdade de circulação sabe a pouco quando a única mobilidade acessível consiste em mudar para cada vez mais longe do trabalho, da família e dos lugares a que pertencemos.
É neste ponto que a bastonada adquire um significado que ultrapassa o instante da agressão. Quem procura nas instituições uma resposta para a sua vulnerabilidade e encontra a força pode aprender uma lição devastadora sobre a democracia. Hannah Arendt escreveu, num ensaio de 1969, na tradução minha: “A violência pode destruir o poder; é inteiramente incapaz de o criar.” Referia-se ao poder que nasce da ação conjunta e do apoio das pessoas. Uma praça pode ficar vazia sem que a autoridade se torne mais respeitada; pode até ficar vazia precisamente quando essa autoridade começa a perder o respeito de que necessita.
Por isso, condenar a violência contra manifestantes pacíficos constitui uma exigência democrática elementar. A atuação de cada agente deve ser apurada, bem como as decisões de comando. Aos governantes cabe responder pelas orientações que assumem, pela fiscalização que exercem e pelas soluções que oferecem. Não é necessário inventar uma ordem política para cada golpe para exigir responsabilidade política a quem governa. Basta recusar que a manutenção da ordem sirva de resposta suficiente à desordem social de um país onde trabalhar pode já não chegar para ter casa.
Que espécie de governantes elegemos quando aceitamos que o sofrimento seja tratado como um incómodo de comunicação? O desprezo político nem sempre se anuncia numa frase brutal. Reconhece-se na facilidade com que se pede mais um sacrifício a quem já não tem margem, na distância entre a urgência de quem precisa e o calendário de quem decide, na condescendência com que se recomenda paciência a quem vive há anos em suspensão. Um jovem adia a saída de casa; um trabalhador conta os dias até ao salário; um idoso calcula o que sobra depois da farmácia. Governar exige que estas vidas tenham peso nas decisões, para além da utilidade que lhes reconhecemos durante as campanhas eleitorais.
Também seria profundamente injusto transformar esta crise numa guerra entre novos e velhos. Muitos dos que conquistaram direitos chegam à velhice com medo de perder a casa; muitos pais e avós sustentam, com as suas míseras pensões, a autonomia que os salários dos filhos não permitem. Há uma aliança possível entre quem teme não conseguir começar e quem teme não poder terminar a vida com dignidade. Desfazê-la em acusações entre gerações só facilita a vida a quem prefere ver os cidadãos a disputar migalhas.
Recuso, por isso, concluir que nesta geração já não existe esperança. Quem sai à rua ainda acredita que a sua presença pode mudar alguma coisa. Mesmo quando a voz vem carregada de raiva, há nela uma exigência de pertença: queremos viver aqui, queremos participar, queremos que este país também nos reconheça. O perigo maior chegará se essa exigência der lugar à certeza de que nada vale a pena, deixando o terreno livre aos que prometem proteção em troca de obediência e oferecem culpados no lugar de soluções.
À geração que acreditou poder mudar o mundo cabe agora escutar aqueles que pedem condições para nele viver. E aos governantes cabe compreender que o futuro se julga na vida concreta que tornam possível.
As bastonadas não constroem casas. Podem, porém, ensinar uma geração inteira a deixar de confiar na democracia que lhe devia abrir a porta.
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