No passar de décadas que poucos, ou nenhuns, já contam, existiram dezenas de reviravoltas na História e todas elas empurraram as pessoas tanto para um lado como para outro ou, até, para nenhum deles. Na verdade, as reviravoltas da aventura humana no tempo tiveram altos e baixos e todas, todas partiram da necessidade de melhorar qualquer coisa, sempre.
Hoje, numa Europa começada em abril de 1951, pela vontade de pôr termo a conflitos mundiais, exponencializar a paz e promover a cooperação, o que se ouve em várias capitais europeias é tudo menos a tranquilidade de quem encontrou, nessa promessa de paz cooperativa, condições para viver uma vida feliz e, leia-se agora, uma vida tremendamente humana.
De 1951 até aos dias que correm, existiram avanços inegáveis como, em traços gerais, a crescente concretização do cidadão europeu por meio de um espaço público confiável, onde leis fundamentais o protegiam, a prosperidade, que permitia escolhas reais de horizontes concretos e a cooperação entre os vários estados-membros, que possibilitava imaginar um futuro comum a todos e qualquer um.
Porém, hoje, entre a intenção que levantou a União Europeia há mais de 70 anos e a sua realização atual no mundo parece correr um enorme rio de profundíssima turbulência, do qual cada vez menos europeus conseguem realmente sair e se chama assim: desumanização.
Aliás, é deste muito lamentável rio que, quem ainda vai tendo braços para segurar a esperança, tem saído e tem-se organizado pela Europa inteira para exigir uma vida em que o trabalho permita mais do que a sobrevivência, que uma casa seja mais do que um sonho e o futuro, esse cada vez mais distante, volte a ser um lugar onde caiba o presente.
A rapaziada toda que decidiu iniciar este movimento há semanas, muitos em solidariedade com os seus próprios professores, trouxe consigo uma mancheia de humanidade que, se quisermos ver bem, mesmo com excessos alheios a si, reclama o que nós também temos reclamado, mas, ainda, sentimos vergonha em dizer em voz alta.
Seja com caras fechadas aos pais no pós-detenções, seja a esconder as nódoas negras de quem gostam, seja até em lágrimas perante juízes que os compreendem, mas sentenciam a incompreensão, esta rapaziada vestiu-se das dores que todos temos e, efetivamente, nenhum de nós confessa: queremos ser felizes e não temos sabido como.
A Europa, pelo menos a que foi sempre nossa, não é insensível a isto e sabe que erra tremendamente, logo consigo mesma em primeiro lugar, quando se deixa incendiar, partir e apenas reage reprimindo quem implora por ação, mudança e um lugar no mundo.
Veja-se que qualquer europeu, que queira realmente pensar nisso, sabe que a Europa da repressão não é Europa nenhuma. A nossa Europa, que é de todos, responde, de pronto, ao apelo urgente que Charles Chaplin – sim, esse mesmo! – fazia ao dizer, no Discurso do Grande Ditador (1940), que “(…) mais do que máquinas, precisamos de humanidade! Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura!”
Neste momento, em todos os cantinhos da União Europeia, pode perguntar-se, quem é que ainda arrisca, realmente, a afeição e a doçura que Chaplin pedia? Quem é que tem tempo para aprofundar o amor junto de quem ama mesmo? Quem é que não resume o seu tempo livre a contar talões de descontos no supermercado? Quem é que, hoje, aqui mesmo, sabe que se ficar doente tem a certeza de ter médicos para o tratar?
Se a Europa não quer ser confundida com o que nunca foi nem é, os seus órgãos deliberativos, os seus Estados-membros, as suas pessoas, terão de avançar, realmente, para ontem, com a única grande pasta que nunca ninguém ainda arriscou: um Ministério da Felicidade e Bem-Estar. Apenas nesse momento, com o humano no centro-central do debate público, as manifestações, estas ou outras, começarão a resolver-se e as pessoas, reencontradas em si mesmas, começarão a sentir-se humanas como, há muito, já não conseguem fazê-lo. Com infinita verdade, só nesse exato instante, os europeus, na Europa e no mundo, conseguirão retomar o esquecido caminho que nos deu azo, em 1951, há mais de 70 anos, ao futuro!
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.