A vitória da Lista dos Estudantes na Sérvia deveria fazer soar os alarmes nas sedes dos grandes partidos europeus. Uma candidatura impulsionada por um movimento estudantil, reunindo profissionais e figuras da sociedade civil, conseguiu vencer uma máquina de poder que muitos julgavam praticamente inamovível. As projeções atribuíram-lhe uma maioria absoluta nas eleições legislativas de 25 de outubro, e Aleksandar Vučić reconheceu a derrota do seu campo político.
Há aqui uma mensagem que ultrapassa as fronteiras sérvias: os cidadãos podem deixar de esperar pelos partidos que, durante anos, lhes pediram que esperassem.
O movimento nasceu depois do desabamento da cobertura da estação ferroviária de Novi Sad, em novembro de 2024, que matou 16 pessoas. A exigência de esclarecimento e responsabilização transformou-se numa mobilização contra a corrupção e o funcionamento das instituições. Uma tragédia concreta expôs uma rutura profunda entre quem exercia o poder e quem suportava as suas consequências.
Foi dessa rutura que nasceu uma alternativa.
Durante demasiado tempo, as juventudes foram tratadas como figurantes da democracia: úteis nas campanhas, convenientes nas fotografias, dispensáveis nas decisões. Quando se afastavam, eram acusadas de apatia. Quando protestavam, de imaturidade. Quando propunham mudanças, de desconhecimento da realidade.
Na Sérvia, organizaram-se e venceram. A realidade, afinal, também pode mudar de mãos.
Seria ingénuo imaginar que uma vitória eleitoral resolve tudo. A capacidade de mobilizar não garante, por si só, a capacidade de governar. A nova maioria terá de demonstrar competência, coerência e respeito pelo escrutínio. Mas essa exigência não apaga a lição que os partidos instalados precisam de aprender: a experiência deixa de ser um argumento quando serve apenas para justificar a repetição dos mesmos fracassos.
É também por isso que precisamos de discutir a qualidade de quem nos governa.
A mediocridade intelectual de uma parte demasiado visível da classe política não se mede pela ausência de diplomas. Há currículos extensos que escondem uma confrangedora pobreza de pensamento. Mede-se pela incapacidade de compreender a História, relacionar problemas, antecipar consequências e sustentar uma decisão para além da conveniência do momento.
A má formação política revela-se na confusão entre lealdade e obediência, entre autoridade e arrogância, entre comunicação e conhecimento. Revela-se quando uma pergunta difícil recebe um slogan, quando uma crítica recebe um ataque pessoal e quando um problema estrutural recebe uma operação de imagem.
Os partidos têm responsabilidades neste empobrecimento. Sempre que promovem quem não incomoda, afastam quem pensa e recompensam quem sabe esperar pela sua vez, selecionam a docilidade em prejuízo da competência. Depois, espantam-se com a falta de credibilidade de dirigentes que aprenderam a subir dentro de uma estrutura sem aprenderem a compreender o país que pretendem dirigir.
Entretanto, uma geração inteira ouve falar de crescimento sem conseguir encontrar uma casa. Ouve elogios às suas qualificações enquanto lhe oferecem precariedade. Ouve discursos sobre natalidade quando não dispõe de condições para constituir família. Ouve apelos à participação enquanto percebe que as decisões relevantes circulam entre os mesmos gabinetes e interesses.
A desilusão com esta política pode ser, ele mesma, profundamente política. Pode traduzir uma exigência de democracia mais séria, mais exigente e mais próxima da vida.
Embora a Sérvia não pertença à União Europeia, o que ali aconteceu interpela diretamente o projeto europeu. As lutas por salários dignos, habitação, saúde, educação e proteção social têm contextos diferentes, mas partilham uma pergunta essencial: para que serve uma organização política que não consegue garantir às novas gerações a possibilidade de viver com autonomia?
A União Europeia arrisca-se a perder a resposta quando parece mais interessada na sua sobrevivência enquanto estrutura do que na vida dos cidadãos que a justificam.
A preservação dos seus equilíbrios internos, das suas hierarquias e dos seus compromissos não pode substituir um projeto de sociedade. Se a Europa se mobiliza para tranquilizar os mercados, mas hesita perante a insegurança de quem trabalha; se encontra flexibilidade para acomodar o capital, mas rigidez para responder à pobreza, está a corroer a sua própria legitimidade.
Nenhuma instituição se salva indefinidamente pedindo aos cidadãos que sacrifiquem o futuro para garantir a continuidade do presente.
No plano internacional, a inquietação é semelhante. Putin, Trump e Xi Jinping representam projetos de poder distintos e responsabilidades que não devem ser confundidas. Mas a Europa precisa de enfrentar a pressão de todos eles com autonomia, em vez de aceitar que o seu destino seja definido por ambições alheias.
A imagem de uma “nova Yalta” traduz esse perigo: um mundo tratado como um mapa de zonas de influência, recursos e vantagens estratégicas, onde os povos aparecem como objetos de negociação. Não é necessário imaginar um acordo secreto entre os três para reconhecer o risco de uma ordem em que os mais poderosos procuram decidir quanto vale a soberania dos restantes.
Uma União Europeia que se dobre perante essa lógica, subordinando os seus princípios à conveniência económica ou ao receio geopolítico, acabará por pedir aos cidadãos uma confiança que ela própria deixou de demonstrar no seu projeto.
É neste ponto que a analogia com a Revolução Francesa ganha força.
Não porque estejamos perante a repetição de 1789. As condições históricas são diferentes, e nenhuma comparação séria deve apagar essa distância. Mas existe uma semelhança política inquietante: o desgaste de uma ordem que continua a exigir sacrifícios a quem menos beneficia dela, enquanto os seus dirigentes parecem incapazes de compreender a profundidade do descontentamento.
O antigo regime não perdeu legitimidade apenas porque havia dificuldades. Perdeu-a também porque o privilégio se tornou intolerável e a ordem existente deixou de conseguir justificar-se.
A democracia europeia deve retirar daí uma advertência. Quando os lugares parecem reservados, a mobilidade social bloqueada e os sacrifícios distribuídos de forma desigual, cresce a perceção de que existe uma cidadania para quem decide e outra para quem paga.
Há ainda uma coincidência que alimenta leituras simbólicas deste tempo: na linguagem astrológica, Plutão voltou a Aquário, signo pelo qual também transitava durante a Revolução Francesa. Não se trata de uma configuração celeste integralmente repetida, nem de uma explicação científica para as mudanças políticas. É uma associação simbólica a um período de transformação da ordem social.
A História, porém, faz-se aqui em baixo. Faz-se nas casas que os salários não permitem pagar, nos serviços públicos que falham, nas oportunidades que não chegam e nas instituições que deixam de ouvir. E faz-se também quando alguém decide que a indignação precisa de organização, de propostas e de votos.
Talvez seja esse o mundo novo que começa a despertar: ainda contraditório, sem garantias, exposto a erros e a tentativas de apropriação, mas menos disposto a aceitar a resignação como prova de maturidade.
O seu maior desafio será transformar a revolta em instituições melhores, preservando as liberdades e recusando novos cultos de personalidade. Porque substituir os ocupantes do poder é insuficiente se os mecanismos permanecerem iguais.
Da Sérvia chega, por agora, uma demonstração de possibilidade. Os jovens não precisam de pedir autorização aos partidos tradicionais para construir uma alternativa. E os dirigentes europeus fariam bem em ouvir o que essa possibilidade lhes diz: A vossa sobrevivência não é o nosso futuro.
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