Conheço suficientemente o Brasil para saber que ninguém conhece verdadeiramente o Brasil. Nem os próprios brasileiros, quanto mais nós, portugueses, que durante séculos imaginámos aquele imenso território como uma extensão tropical das nossas pequenas grandezas europeias, reduzindo-o frequentemente ao Morro dos Dois Irmãos, a Copacabana ou aos paraísos turísticos do Nordeste. O Brasil é um continente disfarçado de país, com múltiplas identidades, contradições, culturas e maneiras de olhar o mundo. Não se compreende o Nordeste a partir de uma varanda em Copacabana, nem se explica a Amazónia nos escritórios climatizados da Avenida Paulista. Brasília é uma extraordinária invenção arquitetónica de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, mas também uma cidade onde os corredores do poder raramente conduzem aos interesses de quem vive fora deles.
Para mim, o Brasil é um segundo país, por razões familiares, culturais e afetivas. Um território que percorri de Norte a Sul, com Lisboa a encontrar no Rio de Janeiro uma espécie de irmã mais velha, infinitamente mais exuberante, menos disciplinada, bastante mais divertida, mas também mais perigosa e insegura. Conheço São Paulo, Brasília, o Rio e muitos outros Brasis que não aparecem nos folhetos das agências de viagens. E conheço-os através de Jorge Amado, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Machado de Assis, da música de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, do cinema de Glauber Rocha a Walter Salles, das artes plásticas, da arquitetura e das telenovelas – essas produções da Globo que, a partir do final dos anos 70 e sobretudo na década de 80, entraram pelas salas portuguesas e ajudaram a transformar mentalidades, abordando conflitos de classe, sexualidade e comportamentos sociais que a nossa televisão ainda tratava com uma prudência quase paroquial. E, já agora, com o meu grande fetiche de juventude: Sónia Braga, que finalmente conheci no Festival de Cannes, por ocasião da apresentação de Aquarius (2016), do meu camarada da crítica, entretanto transformado em grande realizador, Kleber Mendonça Filho. Confessei-lhe o meu fascínio. Sobrevivi ao encontro.
Acompanho, por isso, a política brasileira quase tão atentamente como a portuguesa. E foi com essa proximidade que assisti à noite de domingo, 25 de outubro, quando Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu aquilo que, três semanas antes, parecia improvável: virar uma eleição presidencial que começara por perder e conquistar um quarto mandato. Com 51,79% dos votos, mais de 64 milhões de brasileiros deram-lhe a vitória contra os 48,21% de Flávio Bolsonaro. Uma diferença superior a 4,4 milhões de votos, confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral. Não foi um milagre. Foi política, mobilização e capacidade de reconhecer erros. A abstenção diminuiu e os eleitores perceberam que estava em causa mais do que a escolha de um Presidente.
O operário que nunca aprendeu a desistir
A 27 de Outubro, Lula completa 81 anos. É difícil imaginar uma prenda de aniversário mais extraordinária para um homem habituado a sobreviver a derrotas, adversidades, processos judiciais, prisão e ressurreições políticas. Nasceu em Garanhuns, Pernambuco, numa família pobre, migrou ainda criança para São Paulo, trabalhou como engraxador e operário, tornou-se torneiro mecânico e uma figura central do sindicalismo durante a ditadura militar. Fundou o Partido dos Trabalhadores com outros sindicalistas e intelectuais, perdeu três presidenciais consecutivas e chegou finalmente ao Planalto em 2003. Foi reeleito em 2006, regressou em 2022 e repetiu agora a proeza.
O antigo metalúrgico de São Bernardo do Campo tornou-se uma figura internacional nas discussões sobre pobreza, desigualdade e relações entre o Norte e o Sul globais. É também um Presidente controverso. Lula não é um santo, não é infalível e o PT não tem um cadastro político imaculado. Os escândalos que marcaram a história do partido não desapareceram, tal como persistem problemas nas contas públicas, dificuldades de governação e a ausência de algumas reformas estruturais. Mas a sua extraordinária resistência eleitoral explica-se, em boa medida, por uma ligação social que ultrapassa as estruturas partidárias. O operário que chegou ao poder nunca deixou de falar a língua de quem trabalha, mesmo quando os compromissos políticos o obrigaram a conversar, e muito, com quem vive dos rendimentos do capital.
Flávio Bolsonaro, a herança do pai e os milhões de Vorcaro
Do outro lado, apresentou-se Flávio Bolsonaro, senador, filho de Jair Bolsonaro e herdeiro de uma corrente política que transformou o apelido familiar numa marca eleitoral, num negócio de influência e numa identidade ideológica. Seria intelectualmente desonesto reduzir os quase 60 milhões de brasileiros que nele votaram a uma multidão de fascistas ou fanáticos. Conheço e convivo com alguns desses eleitores: conservadores, liberais, evangélicos, pessoas preocupadas com a criminalidade ou simplesmente desiludidas com o PT. Nem sempre é fácil, mas procuramos deixar a política à porta para não nos zangarmos. Reconhecer essa diversidade não significa, porém, ignorar o percurso da família Bolsonaro. A admiração expressa de Jair pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsável por torturas durante a ditadura, as ameaças às instituições e a tentativa de subverter o resultado eleitoral de 2022 não desaparecem por obra de uma campanha publicitária bem produzida.
Flávio apresentou-se como continuador desse legado. O seu percurso político foi acompanhado de investigações e controvérsias, particularmente no Rio de Janeiro: o caso das chamadas “rachadinhas”, envolvendo o antigo assessor e ex-polícia militar Fabrício Queiroz; as homenagens parlamentares a Adriano da Nóbrega, ex-PM posteriormente apontado como figura do crime organizado; e as suas antigas declarações favoráveis à legalização das milícias. Algumas investigações acabaram comprometidas por decisões judiciais relativas à validade das provas, o que obriga a distinguir suspeitas, acusações e condenações. Mas não elimina as questões políticas e éticas.
E depois temos Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro do Banco Master, protagonista de um escândalo financeiro que parece reunir todos os ingredientes de uma série da Netflix. Com uma particularidade: os episódios foram escritos na vida real e a fatura pode acabar por chegar aos contribuintes.
Segundo investigações jornalísticas iniciadas pelo The Intercept Brasil e desenvolvidas pela Folha de S.Paulo e pela revista piauí, Flávio Bolsonaro negociou com Vorcaro o financiamento de Dark Horse, uma produção cinematográfica destinada a glorificar a vida e o percurso político do pai. O montante negociado rondaria os 134 milhões de reais (cerca de 22 milhões de euros), dos quais cerca de 61 milhões de reais (aproximadamente 10 milhões de euros) terão sido efetivamente transferidos. As mensagens divulgadas mostram Flávio a solicitar novos pagamentos ao banqueiro, a quem tratava com uma intimidade pouco compatível com as suas anteriores negativas de relacionamento.
O caso ganhou novos contornos quando documentos da Polícia Federal apontaram Flávio como interlocutor nas negociações e Eduardo Bolsonaro como participante na gestão dos recursos destinados ao projeto. A investigação procura esclarecer a origem e o destino do dinheiro, os intermediários financeiros e a eventual existência de ilícitos. Flávio reconheceu ter procurado financiamento privado para o filme, mas negou ter recebido vantagens indevidas. As suspeitas ainda não equivalem a uma condenação.
Confesso que os números me despertam uma curiosidade profissional irresistível. Afinal, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional, teve um orçamento estimado em 45 milhões de reais (cerca de 7,4 milhões de euros). O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, custou bastante menos. E a glorificação cinematográfica de Jair Bolsonaro poderia absorver quase três vezes o orçamento do primeiro, caso a totalidade do financiamento anunciado se concretizasse. Nem com efeitos especiais de Hollywood, ressurreição digital dos protagonistas e uma aparição de Charlton Heston a abrir as águas do Mar Vermelho se explica facilmente semelhante extravagância. Sobretudo tratando-se de um projeto cuja viabilidade comercial levanta tantas interrogações.
O problema não é fazer um filme sobre Bolsonaro. Num país democrático, qualquer pessoa pode financiar a biografia de quem entender. O problema é saber por que razão um banqueiro envolvido num escândalo financeiro de grandes proporções estaria disposto a mobilizar dezenas de milhões para promover cinematograficamente uma família política, através de mecanismos de financiamento que continuam sob escrutínio. A questão merece respostas documentadas, e não apenas declarações indignadas sobre perseguição política.
Igualmente, num extraordinário artigo publicado na piauí, antes da primeira volta das eleições, João Moreira Salles, cineasta, fundador da revista e membro de uma das famílias ligadas ao grande poder financeiro brasileiro, mas também um homem com profundas preocupações sociais, interrogou precisamente a elite empresarial que se aproximou de Flávio Bolsonaro. O problema, escreveu, não é a falta de informação desses empresários sobre o passado autoritário do bolsonarismo. É saberem muito bem com quem estão a lidar e, apesar disso, preferirem olhar para o lado.
A pergunta ultrapassa o Brasil. Determinados setores financeiros mostram-se inflexíveis perante os défices orçamentais e bastante mais compreensivos perante candidatos que relativizam golpes de Estado, tortura ou violência política. Quando o Estado apoia os pobres, fala-se de despesa insustentável; quando beneficia o capital, prefere-se a expressão incentivo ao investimento. Uma diferença semântica que pode valer muitos milhares de milhões.
A reação de Flávio Bolsonaro à derrota eleitoral também merece atenção. Em vez de reconhecer o resultado anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral, declarou que pediria a anulação da votação, contestando a decisão do ministro Cristiano Zanin de prolongar o funcionamento das urnas por duas horas devido a dificuldades de acesso dos eleitores. O argumento perde força quando se sabe que a própria campanha bolsonarista também solicitara uma extensão do horário, embora apenas em determinadas localidades. Segundo os dados eleitorais analisados pelo jornal Folha, depois das 17 horas foram registados cerca de 34 mil votos. Lula venceu por mais de 4,4 milhões. Uma eleição não é uma partida de futebol em que se pode exigir a anulação dos golos porque não se gostou do tempo de compensação.
E a memória do ataque às instituições brasileiras em 8 de janeiro de 2023 recomenda que estas contestações não sejam tratadas apenas como manifestações de mau perder.
O mercado, Trump e o Brasil que não cabe numa tabela da Bolsa
Lula enfrenta agora uma disputa muito mais vasta sobre o modelo de desenvolvimento do Brasil, a distribuição da riqueza, o papel do Estado e a independência política do país. O Brasil possui recursos minerais, energéticos e agrícolas imensos, uma base industrial importante, capacidade científica e um extraordinário potencial humano. Mas continua profundamente desigual. Os mercados financeiros podem ter razões legítimas para exigir previsibilidade, disciplina orçamental e regras claras. O quarto mandato terá de conciliar responsabilidade fiscal e justiça social, sem transformar uma delas em desculpa para sacrificar a outra.
E depois existe Donald Trump. Na manhã de segunda-feira, a Casa Branca ainda não tinha felicitado publicamente Lula, ao contrário de vários dirigentes internacionais, incluindo governantes latino-americanos da direita. O silêncio, por si só, não demonstra qualquer conspiração, mas a proximidade política entre trumpistas e bolsonaristas é conhecida. A América Latina atravessa uma recomposição ideológica em que Washington procura preservar influência económica e estratégica. Seria ingénuo atribuir aos Estados Unidos a responsabilidade por todas as vitórias conservadoras no continente, mas igualmente absurdo ignorar o seu peso político e financeiro.
Um Brasil influente nos BRICS, com relações comerciais importantes com a China, a Europa e África, não pode ser tratado como uma dependência regional dos Estados Unidos. Lula terá de defender essa autonomia sem transformar a política externa numa sucessão de confrontos estéreis nem relativizar violações dos direitos humanos quando praticadas por regimes politicamente próximos. A democracia não pode ser defendida apenas quando nos convém.
A eleição terminou, mas o Brasil continua dividido
Quase metade dos votos válidos foi entregue a Flávio Bolsonaro. O bolsonarismo não desapareceu, nem desapareceram as razões sociais, económicas e culturais que alimentam o movimento. Lula terá de governar um país onde a polarização atravessa famílias, igrejas, empresas, meios de comunicação e redes sociais. Prometeu mudar a maneira de governar. Terá agora de mostrar como, enfrentando os problemas da segurança pública, defendendo a Amazónia e reconstruindo consensos democráticos.
E terá também de preparar o futuro de uma esquerda demasiado dependente da sua figura. Fernando Haddad, actual ministro da Fazenda, e Geraldo Alckmin, o vice-presidente conservador que se tornou um dos seus mais importantes aliados e cúmplices políticos, representam experiências e sensibilidades diferentes, mas demonstram que a política brasileira não se esgota na divisão entre lulistas e bolsonaristas. Aos 81 anos, a força pessoal de Lula constitui também uma fragilidade para o campo progressista: nenhuma democracia deveria depender indefinidamente de um único homem.
Aprendi a gostar do Brasil muito antes de aprender a distinguir os seus muitos partidos políticos, continuo a encontrar naquele país uma das experiências humanas e culturais mais fascinantes do mundo. Um lugar onde a tragédia e a comédia convivem com uma intimidade desconcertante, onde a genialidade artística contrasta com a brutalidade social, onde a alegria não elimina a miséria e onde a democracia precisa, demasiadas vezes, de defender a própria existência.
Lula, com todas as críticas que se lhe possam fazer, pertence a essa história brasileira de improbabilidades. Um operário pernambucano que enfrentou uma ditadura, liderou greves, fundou um partido, perdeu eleições, conheceu a prisão, regressou à Presidência e, na véspera de completar 81 anos, protagonizou uma reviravolta eleitoral que ficará nos livros de História.
Quando apagar as velas, terá motivos para sorrir. A prenda chegou antecipadamente, embrulhada em mais de 64 milhões de votos. Mas o presente vem acompanhado de uma responsabilidade enorme: governar também para os quase 60 milhões de pessoas que escolheram o adversário, sem permitir que a derrota eleitoral seja transformada numa suspeita permanente sobre as instituições.
A democracia brasileira acaba de demonstrar a sua capacidade de resistência. O que está por demonstrar é se o novo mandato conseguirá transformar essa vitória numa sociedade menos desigual e numa convivência política mais civilizada.
Quanto aos que continuam a tratar o Brasil como uma propriedade negociável, convém recordar uma coisa: aquele país é demasiado grande para caber no bolso de um banqueiro, na herança de uma família ou na agenda de um Presidente americano.
Muito menos num boné de campanha.
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