A minha filha escreveu-me depois de ler o meu artigo na VISÃO sobre as manifestações e a força policial. Contou-me que tem estado quase todos os dias no protesto, embora não fique a acampar, e que as minhas palavras lhe deram forças para continuar a lutar por um direito essencial a todos. Um pai recebe uma mensagem destas e tem razões para se comover: a filha lê o que ele escreve, reconhece-se nas suas palavras e leva-as consigo para a rua. É uma bela recompensa para quem escreve. Até perceber que a rua tem polícia de intervenção.
Respondi-lhe: “Olá, filha. Já imaginava que lá estarias, mas evita as bastonadas.”
Eis o meu contributo para a história do pensamento político: defender a transformação da sociedade, desde que a minha filha se mantenha fora do alcance do bastão. Anos de educação para a liberdade, para a justiça e para a responsabilidade cívica desembocaram naquela recomendação, cuja utilidade prática merece estudo. Evitar uma bastonada não depende apenas da pessoa a quem ela se destina. Ainda assim, escrevi aquilo com a convicção aflita com que os pais mandam levar um casaco, como se fosse possível proteger os filhos de tudo através de uma última instrução à saída.
Ela respondeu: “Sim, por sorte, não tenho apanhado.”
Por sorte. Fiquei preso àquelas duas palavras. Gostaria de poder ler “por estar protegida”, “por me manifestar pacificamente”, “por viver numa democracia que sabe ouvir”. A minha filha escreveu “por sorte”, e um pai percebe que há ocasiões em que todo o vocabulário das instituições parece oferecer menos garantias do que um amuleto.
Ainda insisti: “Resguarda-te, pf.”
Quando um pai começa a abreviar “por favor”, não significa que lhe falte sentimento. Significa que está a tentar meter a aflição num espaço suficientemente pequeno para não sufocar a filha. Do outro lado veio a resposta habitual, essa obra-prima de tranquilização filial: “Sim! Não te preocupes :)”. A humanidade inventou o sorriso tipográfico e passou a utilizá-lo para resolver problemas que nem os melhores tratados de filosofia conseguiram esclarecer. Um pai preocupado recebe dois sinais de pontuação e fica exatamente como estava, embora agradecido pela atenção.
A educação sai à rua
Vi um cartoon de El Roto com a frase: “O humor é complicado numa época que não é séria.” Lembrei-me dela ao reler aquela conversa com a minha filha. Há humor na minha tentativa de conciliar o cidadão que escreve com o pai que teme. O assunto que nos obrigou a conversar assim, porém, é profundamente sério.
As intervenções policiais nos protestos pela habitação no Porto, incluindo a desocupação da Praça D. João I na madrugada de 25 de outubro, provocaram feridos e detenções. As justificações das autoridades e as denúncias dos manifestantes divergem; a realidade dos corpos feridos exige esclarecimento e responsabilidade.
Entretanto, dentro dos telemóveis, há conversas como esta. Conversas em que alguém pergunta se o outro está bem, pede notícias, recomenda cuidado. A palavra “manifestantes”, tão útil para organizar uma notícia, contém filhos, mães, amigos, pessoas que alguém espera ver chegar a casa. E contém também quem luta para ter uma casa aonde chegar.
É curioso o trabalho educativo que fazemos. Pedimos aos jovens que sejam participativos, que não vivam agarrados aos ecrãs, que se interessem pelo mundo. Depois, quando largam o telemóvel e aparecem numa praça, descobrimos que a participação tem inconvenientes logísticos. Ocupa espaço, faz barulho, perturba a circulação. A cidadania fica muito bem num projeto escolar; fora da cartolina, começa a dar trabalho.
Reconheço em mim uma versão doméstica dessa contradição. Quero que a minha filha seja livre e tenha coragem, mas agradecia que a História colaborasse, proporcionando-lhe condições de segurança. Uma revolução com hora de chegada, contacto de emergência e mensagem ao entrar em casa seria bastante mais compatível com o meu sistema nervoso. Infelizmente, nunca encontrei esse campo nos formulários da democracia.
O futuro precisa de uma morada
Por detrás da minha inquietação está uma pergunta que já não consigo adiar para uma conversa abstrata sobre “as novas gerações”: que presente estamos a oferecer aos nossos filhos?
Falamos-lhes muito do futuro. Fazemo-lo com a generosidade de quem oferece um bem cuja entrega ficará a cargo de outros. O futuro terá oportunidades, soluções, crescimento; entretanto, pede-se que aguardem, adquiram competências e sejam resilientes. A resiliência tornou-se uma espécie de fiador universal: quando a sociedade falha, exige-se ao indivíduo que apresente mais alguma.
Só que uma vida precisa de começar enquanto está a acontecer. Precisa de um quarto onde caibam os livros, de uma mesa, da possibilidade de fazer planos sem que cada desejo tenha de passar primeiro pela aprovação do senhorio. Não há nada de extravagante nesta ambição. O escândalo está em termos chegado a um ponto em que ela parece excessiva.
Preocupa-me que a minha filha apanhe uma bastonada. Preocupa-me também o que pode acontecer se aprender que, para estar segura, deve deixar de pedir o que considera justo. Entre o corpo protegido pelo silêncio e a consciência exposta na praça, nenhum pai deveria ter de escolher a forma de tranquilidade que prefere.
Também não quero fazer da coragem dela um adorno da minha escrita. É fácil elogiar a resistência quando são os outros que ficam até tarde. Se as minhas palavras lhe deram forças, tenho de aceitar a responsabilidade de as ter escrito e a autonomia de quem as leu. Não posso defender a participação dos jovens e acrescentar, em letra pequena, uma exceção para a minha família.
Posso pedir-lhe cuidado. Posso ouvi-la, procurar compreender o que vive, estar disponível quando precisar de mim. E posso exigir a quem exerce o poder que leve a sério a segurança de quem protesta. Essa exigência não enfraquece a democracia; faz parte do trabalho de a manter habitável.
Volto ao desenho de El Roto e à dificuldade do humor numa época que não é séria. Rir da minha aflição ajuda-me a reconhecê-la sem a transformar numa ordem para que a minha filha fique em casa. Há ternura e algum ridículo neste pai que escreve sobre a liberdade e logo a seguir procura uma maneira de a embrulhar em material de proteção. Aceito ambos. O que me custa aceitar é que o medo dos pais se torne um auxiliar silencioso de quem preferia as praças vazias.
A minha filha disse-me que a crónica lhe deu forças. A mensagem dela obriga-me a estar à altura das minhas próprias palavras. Continuarei a pedir-lhe que se resguarde, porque o amor também tem esta insistência pouco original. Mas gostaria que chegasse o dia em que, ao saber que ela estava numa praça a defender o direito a uma casa, a minha preocupação mais urgente fosse perguntar-lhe se tinha jantado.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.