Lula da Silva acrescentou um novo marco à sua trajetória política. Obteve 45,16% dos votos válidos na primeira volta e conquistou a Presidência na segunda, com 51,79%, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Mais de 64,2 milhões de brasileiros votaram no Presidente reeleito, num resultado que confirma a dimensão nacional da vitória.
A importância do resultado não está apenas nos números. Desde o regresso às eleições presidenciais diretas, em 1989, nenhum candidato que tivesse terminado a primeira volta em segundo lugar conseguira inverter a posição e vencer a segunda. Lula fê-lo aos 80 anos, numa campanha extremamente disputada, depois de três mandatos presidenciais e de um regresso ao poder que marcou o seu percurso.
A vitória encerra também uma questão que ultrapassava a candidatura de Flávio Bolsonaro. A tentativa de prolongar no Planalto o projeto político construído por Jair Bolsonaro através do filho encontrou nas urnas um limite democrático. O nome Bolsonaro mobilizou uma parcela expressiva do eleitorado, levou Flávio à segunda volta com uma ligeira vantagem sobre Lula e demonstrou a permanência da força do bolsonarismo. Mas não foi suficiente para garantir a sucessão.
Flávio chegou à segunda volta com uma base eleitoral consolidada, mas com um percurso desenvolvido sobretudo no Parlamento, sem experiência à frente de um Executivo federal ou estadual. A campanha ficou também marcada por controvérsias.
No caso das chamadas “rachadinhas”, foi denunciado por suspeita de apropriação de parte dos salários de assessores. Em 2022, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro rejeitou a denúncia, depois de o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal terem invalidado provas e de o próprio Ministério Público ter pedido a extinção do processo.
A decisão foi por falta de justa causa, sem apreciação do mérito das acusações, e não equivale, por isso, a uma absolvição.
O seu percurso parlamentar foi também questionado pelas homenagens que prestou, em 2003 e 2005, a um ex-capitão do Bope apontado pelo Ministério Público como dirigente de uma organização criminosa ligada às milícias do Rio de Janeiro e pela contratação, para o seu gabinete, da mulher e da mãe desse homem.
Em 2026, passou ainda a ser investigado no âmbito do financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. A Polícia Federal pediu a prorrogação do inquérito por 90 dias. A investigação está em curso, sem que exista, até à data, uma decisão judicial sobre o mérito das suspeitas.
A eleição, contudo, não foi decidida apenas pela avaliação do adversário. Foi Lula quem teve de conquistar os votos necessários para vencer, e conseguiu-o: transformou uma desvantagem inicial numa vantagem superior a 4,4 milhões de votos. Isso exigiu mobilização política, capacidade de diálogo e a recuperação da confiança de milhões de eleitores que, na primeira volta, tinham escolhido outro candidato ou não tinham comparecido às urnas.
A abstenção caiu de 21,08% para 19,22%, com quase três milhões de eleitores adicionais a votarem. Os números não permitem determinar motivações individuais, mas confirmam uma participação maior num momento decisivo, numa das eleições mais polarizadas da história recente do país.
Esse dado ganha importância no contexto latino-americano. A vitória de Lula não elimina o fenómeno nem retira força ao bolsonarismo. Mas, num contexto de crescimento eleitoral de forças conservadoras em vários países da região, contrariou a ideia de que essa tendência seria irreversível. E mostrou que uma força política pode chegar à segunda volta na frente e, ainda assim, perder a Presidência.
A questão interessa também à Europa. O resultado brasileiro não faz do Brasil um aliado automático nem transforma Lula num contraponto a todas as forças de direita europeias. A consequência é mais concreta: num momento em que a extrema-direita procura ampliar influência nas democracias europeias e a competição geopolítica se intensifica, o maior país da América Latina reafirma nas urnas uma escolha diferente.
Para Bruxelas, o Brasil continuará a ser um interlocutor indispensável. O acordo entre a União Europeia e o Mercosul, a cooperação económica, a transição energética e o comércio tornam a relação particularmente relevante. A continuidade política em Brasília facilita a negociação, mas não a substitui: a concretização do acordo dependerá de interesses e calendários, não de afinidades.
Para Portugal, o significado é ainda maior. A proximidade histórica, linguística e económica cria uma vantagem que Lisboa poderá transformar em influência dentro da União Europeia, desde que a converta em iniciativa diplomática, investimento e negócios concretos.
Quanto aos Estados Unidos e à China, o Brasil continuará a negociar a partir dos seus próprios interesses. Essa autonomia é uma das marcas da política externa de Lula e ganha agora novo peso, ao afastar a perspetiva de um Governo brasileiro alinhado com a família Bolsonaro.
O teste decisivo, porém, continua a ser brasileiro. Lula recebeu um mandato forte, mas não um país unificado. A sociedade permanece dividida e o Congresso conserva uma presença significativa das forças conservadoras. Segurança, emprego, rendimento, custo de vida e serviços públicos serão determinantes para transformar a vitória eleitoral em confiança duradoura. A defesa das instituições é indispensável, mas uma democracia também se fortalece quando consegue responder às necessidades concretas dos cidadãos.
A dimensão histórica desta vitória não reside apenas no quarto mandato ou na inversão inédita do resultado entre as duas voltas. Está na capacidade dos eleitores de decidirem o rumo do país e de travarem, nas urnas, o regresso da extrema-direita ao poder. O Brasil não resolveu as suas contradições, mas demonstrou que nenhuma força política pode reivindicar para si o futuro de uma nação. Essa decisão pertence aos cidadãos.
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