Nem me digas nada, os estrangeiros são uma dor de cabeça. Eu próprio já fui um em cinco dos seis países onde vivi e, de alguma forma, até no sexto, o meu país natal. Os grupos de estrangeiros tendem a ser barulhentos, mal-educados, desrespeitosos e fazem-nos perder todo o interesse ao observá-los de perto. Onde quer que vivesse, queria ser o único estrangeiro, e isso não é diferente agora que vivo em Portugal. Não há melhor forma de absorver um novo ambiente do que se isolar de outros estrangeiros. Ajuda-nos a aprender a língua do país anfitrião, a apreciar a sua história, cultura, política e peculiaridades locais. Pode-se até tentar compreender os seus novos compatriotas. Isto, claro, se permitirem que se aproxime o suficiente.
Com o seu artigo de opinião “Vende-se”, no jornal Expresso, em maio deste ano, João Vieira Pereira tocou-me no coração. O autor sente dor ao ver como o seu país sofre com a invasão de estrangeiros – 20 milhões de turistas por ano e 1,5 milhões de residentes estrangeiros, e como deixam a sua marca inapagável no País. Lamenta não só a escalada dos preços dos imóveis, mas, em geral, o desaparecimento do velho Portugal e dos seus costumes. Em nenhum outro lugar isso é mais visível do que em Lisboa. A bica, o bitoque e o pastel de nata estão a desaparecer e estão a dar lugar a comidas e bebidas da moda com nomes ingleses muitas vezes sofisticados. Olhando para a minha cidade natal, Amesterdão, hoje em dia, consigo identificar-me com os sentimentos do autor. Assim, com o seu grito de lamento, ele deveria poder contar com o meu apoio e compaixão. E, no entanto, não pode. Porquê?
O artigo divide os imigrantes em dois grupos. O primeiro grupo de estrangeiros é pobre, vem, por exemplo, da Índia, precisa de um emprego e deve adaptar-se completamente ao seu meio. O segundo grupo é ocidental, milionário ou, pelo menos, com muito dinheiro. Este último grupo tende a “sugar a qualidade de vida portuguesa”, “faz as suas próprias regras e com elas vem uma capacidade de destruição muito maior”. E ele dita o menu também.
Bum! O soco veio. Será que foi porque eu, ou o meu grupo de estrangeiros, fomos deixados de fora? Ou será que foi precisamente porque não fui deixado de fora e, como não sou um desfavorecido, mas sim um ocidental, devo ser, por isso, um dos vilões que quer destruir Portugal? Ou será que foi porque o autor, levado pelo seu grito nostálgico, pinta um quadro a preto e branco, sem espaço para nuances ou alguma análise adequada, quanto mais para autoanálise? A este respeito, é muito revelador como ele coloca todos, turistas e residentes, nómadas digitais, expatriados, estudantes e milionários, no mesmo saco, rotulados como “estrangeiros ricos”.
Nada disto teria causado tanto impacto se o autor fosse apenas mais um escritor, ou se o seu texto trouxesse a ressalva habitual de que as opiniões expressas são de caráter pessoal e não refletem a posição oficial da publicação. No entanto, João Vieira Pereira é o diretor do Expresso, um dos jornais e uma das revistas de informação mais respeitados da Europa. Só se pode presumir que ele expresse o sentimento de uma parcela sensata da sociedade.
Onde foi parar a comida?
Atribuir a responsabilidade total pelo declínio da popularidade de algumas iguarias portuguesas aos estrangeiros é um exagero. Os hábitos alimentares mudam, influenciados pelas tendências da saúde e da moda. Não se trata de um problema exclusivamente português. Basta observar os buffets dos pequeno-almoço dos hotéis, que em todo o mundo começam a parecer todos iguais. Esta uniformização é lamentável para quem está habituado à gastronomia portuguesa. Por outro lado, quem vem dos Países Baixos já demonstra maior abertura para experimentar sabores diferentes.
Entretanto, as consequências são profundamente sentidas. Uma semana após o artigo de Vieira Pereira, o Expresso dedicou um artigo à luta pela sobrevivência dos cafés tradicionais, leitarias e confeitarias de Lisboa. Embora me questione por que razão alguém chamaria a um lugar Helsínquia, Namur, Biarritz ou Roma, se pretende destacar a autenticidade lisboeta, o que mais me intriga é outro ponto. Será que a indústria do turismo por aqui não cedeu a desejos e a necessidades que nunca existiram? Parece-me que os turistas têm mais tendência para se gabarem do delicioso bolo de arroz que provaram noutro dia do que para falarem de como devoraram mais um muffin.
Se ainda precisava de provas disso, encontrei-as durante as minhas recentes viagens à Bélgica e à República Checa. Aí, nas confeitarias locais de Namur e de Praga, encontrei os pastéis de nata aparentemente perdidos em Lisboa. E chamavam-se pastéis de nata, e não tartelettes à la crème, krémové koláčky ou custard pie.
“O maior drama é que pouco podemos fazer”
Há uma verdade inconveniente que o autor omite. Até pode ser verdade que mais de um milhão de estrangeiros vieram viver para Portugal na última década, mas, ao mesmo tempo, tem havido um verdadeiro êxodo de jovens portugueses. Dos nascidos em Portugal e que têm hoje entre 15 e 39 anos, quase um terço, 850 mil, vive no estrangeiro.
Eles não deixaram o país por terem sido expulsos por estrangeiros, mas sim por terem sido atraídos por melhores condições de trabalho noutros lugares, e com eles foram parte do bacalhau, dos rissóis e dos queques. É precisamente este grupo etário que determina fortemente a moda, a gastronomia e os hábitos alimentares. Com eles ainda presentes, Lisboa seria hoje diferente.
Qualquer país que deixe escapar o seu futuro tão facilmente não pode simplesmente culpar os outros, mas deve fazer uma reflexão. Afundar-se em lamentos, em generalizações e em preconceitos é prejudicial e absolutamente perigoso.
Eu, por exemplo, podia ter ficado preso às minhas experiências com aqueles poucos portugueses que me tentavam extorquir dinheiro… estrangeiro, por isso rico. Ou, ao criar aqui uma nova empresa, podia ficado a matutar nos meus encontros com as autoridades portuguesas, que se moviam de formas tão misteriosas que deixariam Franz Kafka sem palavras. Podia ter formado o meu juízo de valor ali mesmo, naquele momento, e não teria visto o que este país realmente representa: pessoas prestáveis e tolerantes, com boa educação e domínio da língua (Portugal ocupa consistentemente o sexto lugar em termos de proficiência em inglês entre todos os países não nativos de língua inglesa) e, sim, com uma cozinha refinada que oferece uma grande variedade de pratos, embora ainda demora algum tempo a compreender plenamente o fascínio pelo bacalhau em todas as suas versões.
A imagem do estrangeiro ocidental é dominada e manchada pelas vozes mais estridentes, aquelas que gritam “barato” dos telhados das suas casas recém-compradas, por aqueles poucos nómadas digitais com discursos pomposos sobre unicórnios, criaturas no mundo dos negócios quase tão raras quanto as suas contrapartes mitológicas na realidade.
Tenham a certeza: os estrangeiros que nunca se quiserem integrar serão os primeiros a partir, se surgir um novo paraíso fiscal. Entretanto, os estrangeiros que se adaptam silenciosamente ao seu novo país não são ouvidos e não viram a notícia. Será assim tão difícil para um português acreditar que um estrangeiro, um cidadão comum, talvez um independente, um artista ou um cientista, ame verdadeiramente este país, e não apenas por causa dos impostos e das praias?
Pôr todos os estrangeiros no mesmo saco reforça o preconceito e não ajuda Portugal em nada. Já intimidados pela assertividade ruidosa, os portugueses correm o risco de se tornarem desconfiados de todas as iniciativas estrangeiras.
O fatalismo paira no ar e drena toda a energia da sociedade. “O maior drama é que pouco podemos fazer”, conclui o autor, e está enganado. Há muito que pode ser feito.
Uma viagem longa e turbulenta, mas que vale a pena
O problema de Portugal não é o que existe, mas sim o que falta. O que existe: potencial, turismo, residentes estrangeiros. O que falta: autoconfiança, políticas e regras sólidas, um ambiente empresarial fértil e, acima de tudo, jovens.
Quando a revista The Economist proclamou Portugal a economia número 1 de 2025, fê-lo com base em critérios objetivos, como o crescimento, o emprego e a inflação. O que devia ter sido motivo de orgulho, foi recebido pelo vencedor com reações que variavam entre o escárnio e o ceticismo. Embora seja evidente que Portugal vai reduzir a diferença para os países do Norte da Europa nos próximos anos, a falta de confiança no seu próprio potencial é surpreendente.
Em matéria de economia, muito se resume à perceção e à psicologia. Ainda que a autopromoção seja reconhecidamente uma das pragas dos últimos anos, Portugal podia-se promover muito mais. Voltando à comida, mais uma vez: a paella é um prato mundialmente famoso, o arroz de marisco não, e porque é que as pessoas pensam que o chouriço é uma salsicha espanhola?
Um dos recursos que Portugal podia utilizar para aumentar a sua visibilidade é a língua. A escritora Ana Bárbara Pedrosa fez recentemente um apelo a uma marca linguística da Lusofonia. De facto, não há razão para que a Lusofonia não esteja ao mesmo nível, ao lado da Anglofonia, da Francofonia e da Hispanofonia.
O momento escolhido por ela não poderia ter sido o melhor. Num mundo cada vez mais multipolar, a importância do inglês vai diminuir. O português está bem posicionado para conquistar a sua quota-parte no panorama mundial. Afinal, a língua estende-se por quatro continentes e conta com centenas de milhões de falantes nativos. Desta forma, pode servir para aumentar o apelo económico e cultural de Portugal. A língua portuguesa deve ser promovida como o melhor ponto de partida para a aprendizagem das línguas românicas, sendo, provavelmente, a mais difícil e completa delas. Aprender português pode tornar-se algo fascinante. A língua é apenas um exemplo, mas demonstra de imediato como Portugal podia explorar o seu potencial. Mais importante ainda, demonstra que o País deve começar a acreditar em si próprio.
Os estrangeiros ocidentais criam as suas próprias regras, segundo o artigo “Vende-se”; com a sua grande capacidade inata para a destruição, visaram, em primeiro lugar, o mercado imobiliário. Ora, é evidente que o mercado imobiliário português é motivo de grande preocupação. Recentemente, Lisboa foi considerada a cidade com o mercado de arrendamento menos acessível da Europa, com as rendas a representarem, em média, mais de 99% dos salários líquidos. Em nenhum outro país da UE as despesas com a habitação consomem uma parte tão grande do rendimento como em Portugal. Mas tudo isto por causa do estrangeiro rico, a sério? Se ele pode de facto ditar as suas próprias regras, é porque opera num vazio, sem regras, porque a política de habitação do País não respeitou a mais importante de todas as regras de mercado: o equilíbrio entre a oferta e a procura.
Numa análise minuciosa ao jornal económico ECO, o economista Óscar Afonso aponta para o défice de construção que se arrasta há décadas como a principal causa para a atual crise habitacional. Esta situação é ainda agravada por um mercado de arrendamento muito reduzido, por investimentos insuficientes na habitação social, por utilização ineficiente do parque habitacional disponível e por uma distribuição desigual pelo País. Constrói-se muito pouco, e esse pouco é muitas vezes construído no sítio errado.
Em última análise, a crise da habitação faz-se sentir tão profundamente em Portugal, não por causa dos preços dos imóveis – que não diferem de qualquer outro lugar na Europa –, mas porque está enraizada numa economia com pouca atividade de elevado valor acrescentado, muita concentração em Lisboa, no Porto e em algumas partes do litoral, e salários muito baixos. No ano passado, numa carta aberta ao Governo, a Associação Business Roundtable Portugal, juntamente com mais de uma centena de líderes empresariais, afirmou que, em dez anos, Portugal podia estar entre os cinco países mais ricos da Europa. Ilusão? Não, se considerarmos o nível de educação do País, o seu povo talentoso, a sua localização e posição de liderança na transição energética.
Mas a burocracia é um grande obstáculo. Já devia ter ocorrido uma reestruturação financeira e administrativa há muito tempo e, consequentemente, aumentado os salários líquidos em 50 por cento. Há, contudo, uma ressalva: salários mais altos vêm acompanhados de maiores responsabilidades. Os funcionários não podem fugir à responsabilidade e à iniciativa sob o pretexto do respeito pela hierarquia.
O que Portugal precisa é de ambição e de autoconfiança. O que definitivamente não precisa é da atitude de fracasso iminente, do fatalismo desenfreado, de apontar o dedo aos estrangeiros como a origem de todos os seus problemas.
Não há como negar que alcançar tudo isto é uma tarefa árdua. A boa notícia é que, assim que os primeiros sinais de progresso se tornarem visíveis, “a sangria de talento” para o exterior vai parar. Os jovens emigrantes portugueses vão começar a regressar ao seu país de origem. Isto, por sua vez, vai acelerar ainda mais o crescimento. O caminho que se avizinha vai ser longo e acidentado, mas a viagem vale a pena. É o bilhete para um futuro melhor. E quem sabe, alguns estrangeiros irão dar uma mãozinha ao longo do caminho.
Traduzido por Bárbara Azevedo
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