A democracia é um modo de organização social diferente dos outros, uma vez que, à primeira vista, tudo nela parece poder definir-se pela estrutura democrática através da qual tendemos a reconhecer a liberdade: eleições, parlamentos, tribunais, governos e constituições. Porém, para que uma realidade democrática realmente aconteça importa perguntar se a liberdade não reside noutra coisa, anterior a todo esse aparelho institucional que apenas organiza e torna visível a democracia.
Neste sentido, precisamente, em Madrid, o Papa Leão XIV, num discurso em que abordou, entre outros temas, os conflitos armados, a urgente crise migratória, a emergência climática, a pobreza persistente e, ainda, a crescente fragmentação das sociedades contemporâneas, destacou uma “profunda crise espiritual e cultural”.
Com esta afirmação, quererá o Papa dizer que as sociedades contemporâneas se tornaram menos religiosas? Que a frequência dos templos diminuiu? Que mulheres e homens esqueceram as possibilidades do impossível que apenas a fé oferece?
Repare-se que, apesar de tudo, os vários fenómenos enumerados pelo Papa como sintomas de mal-estar moderno não parecem decorrer de uma crise religiosa. A verdadeira crise que tem tornado a realidade uma bomba-relógio imprevisível, pelo contrário, parece resultar de uma dificuldade crescente em encontrarmos, entre todos, pontos comuns num destino partilhado além dos limites estreitos do interesse individual. De outro modo: a crise que o Papa Leão XIV denunciou em Madrid não é apenas sobre a rutura da eventual relação com Deus mas, verdadeiramente, sobre a inevitável relação com nós mesmos.
Ora, a crise ctual da democracia, que, de acordo com o mais recente relatório do Varieties of Democracy Institute, tem vindo a traduzir-se numa deterioração continuada dos padrões democráticos à escala global e num aumento do número de pessoas a viver sob regimes autocratizantes, acentua-se, precisamente, quando se torna mais difícil conjugar vínculos culturais, morais e cívicos que permitem aos cidadãos reconhecer-se como parte de uma comunidade política.
Na verdade, aquilo que ameaça, profundamente, as democracias contemporâneas não parece já residir apenas na erosão das suas instituições, mas, sobretudo, na erosão das disposições humanas que as ergueram enquanto formas de convivência pública orientadas para a construção de um mundo partilhado.
Sobre esta base de práxis puramente humana, que fundamenta e alimenta a democracia, Alexis de Tocqueville, no ano de 1835, advertia que aquilo que permite a um povo permanecer livre não são apenas as leis que aprova, nem as instituições que constrói, mas, isso sim, os seus costumes, que dão alma às formas exteriores da liberdade e tornam possível a existência de um mundo verdadeiramente partilhado. Isto é, os hábitos de participação, os vínculos de confiança, o sentido de responsabilidade cívica e a disposição para reconhecer no outro não um inimigo a derrotar, mas um concidadão com quem se partilha uma realidade comum e a tarefa permanente da sua construção.
Veja-se, assim, como é exatamente a erosão destes costumes democráticos que nos tem conduzido, cada vez mais, à crise identificada pelo Papa Leão XIV em Madrid e que, para além de nos dar uma sociedade do cansaço, dá-nos, também, uma sociedade que desperdiça muito a sua mais própria e alta possibilidade de futuro.
Isto porque uma sociedade incapaz de reconhecer no outro um parceiro de construção do mundo comum acaba, inevitavelmente, por desperdiçar tempo, progresso e, mais grave ainda, a possibilidade de converter conquistas imediatas e pessoais em bem-estar coletivo duradouro, que é chão único dos grandes voos humanos que o imediatismo, ocupado apenas com o instante seguinte, nunca chega a avistar.
É por tudo isto que a mais perigosa das crises democráticas já não é aquela que vai destruindo parlamentos, suspendendo eleições ou, até, rasgando constituições. A mais profunda crise democrática é a que dispensa, até, que tudo isso aconteça. Aquela que deixa intacto o corpo apaziguadoramente visível da democracia enquanto, em silêncio, com a distraída anuência de todos, lhe esvazia a alma.
Nesta nova forma de crise, os parlamentos continuam a fazer leis, as leis continuam a ditar normas, as normas vêm de governos eleitos, as eleições são livres, mas, com efeito, pouca coisa já se consegue oferecer a cidadãos ocupados e distantes da cidadania que deixaram esquecida num qualquer autocarro que não apareceu e cuja culpa é, obviamente, do condutor distraído, lento, desatento, tacanho, oco, irritante e até idiota. Afinal, numa democracia sem alma, todos reclamam um caminho, mas cada vez menos assumem a rara oportunidade de o construir.
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