A leitura de dois artigos publicados na VISÃO (“Para uma cultura da confiança na escola” e “A indisciplina nas escolas públicas – ou o sentimento de impunidade dos alunos”) deixou-me estupefacto, ligeiramente irritado e desiludido. Os autores descrevem situações sintomáticas, mas de somenos importância, exemplificativas do disfuncionamento, total, de uma instituição fundamental para a sociedade: a escola.
Geração após geração, esta instituição destrói, de facto, as potencialidades das crianças e dos jovens. Os resultados são maus, a insatisfação é generalizada mas a sociedade, dividida em classes sociais e castas, preocupada em sobreviver, não debate, nem resolve os problemas. Os mentores e os gestores da instituição não são nem questionados, nem responsabilizados pelas crueldades que praticam, com toda a impunidade.
As crianças e os jovens, abandonados no hall de entrada da creche ou no passeio da escola, vítimas de frequentes abusos, desrespeito e violências, por parte dos adultos, confrontados com a indiferença e o desinteresse destes, fazem o que aprendem. A consequência é que, só na escola, são alvo de centenas de milhares de participações disciplinares por ano. No fim do primeiro ciclo, a sua saúde mental é absolutamente confrangedora.
Nenhuma criança nasce a saber comportar-se como um ser humano social e saudável. Ao bebé, à criança e ao jovem não lhes resta senão esperar que os adultos à sua volta sejam suficientemente gentis e cuidadosos para lhes ensinarem a viver. A escola recusa-se a fazê-lo, os pais não o conseguem fazer.
Neste contexto, não parece justo, nem de qualquer utilidade, tentar culpar a criança ou o jovem por não “respeitar a autoridade e as instruções dos professores e do pessoal não docente”. A necessidade que, seguramente, muitos professores sentem de restabelecer a “autoridade do professor” deveria levar a uma reflexão introspetiva dos profissionais de ensino e a uma reavaliação da instituição, a escola, pela sociedade. Nada acontece!
As crianças sentem-se ameaçadas e agredidas quando estão sozinhas ou tem de andar a correr nos supermercados, quando na creche não há carinho e na escola um amiguinho é maltratado.
Quando saem da creche ou quando completam o primeiro ciclo, praticamente todas as crianças passaram mais tempo na escola – uma instituição credenciada para trabalhar com crianças – do que com os seus pais! E, no entanto, muitas destas crianças, 20?, 30%?, apenas com 10 anos idade, foram feridas e/ou traumatizadas, de tal forma que sofrem de uma, ou mais do que uma, perturbação mental. Isto é inaceitável!
O que faz os professores, os pais e os sindicatos dos professores não se revoltarem contra a escola que são obrigados a suportar, em claro prejuízo das crianças e dos jovens? O que os impede de proporem, e porque não, exigirem ou criarem, escolas saudáveis, amigas das crianças e dos jovens?
Porque é que alguém (os professores) se submete, se humilha, “há três décadas”, a trabalhar para um patrão que o obriga, todos os anos, a concorrer a “insanos concursos” para ser enviado para um local qualquer, contra sua vontade, às suas expensas, desempenhar funções, em péssimas condições, numa instituição bacoca?
Durante decénios, dezenas de milhares de famílias de professores foram dilaceradas. Dezenas de milhares de crianças, os filhos dos professores, foram emocionalmente abandonadas, casais separados. Como é possível suportar de um patrão – governos e deputados – esta crueldade e irresponsabilidade? Quem assumiu os custos desta violência? Como é possível prestar serviços de qualidade nestas condições? A viver em quartos, sozinho ou sozinha, a centenas de quilómetros de casa, num local onde não se conhece ninguém, sem amigos ou colegas? Como trabalhar com a vida suspensa, ano após ano, acompanhados pela tristeza e pela solidão? Como é possível que professores, nestas condições, sem ou com muito pouca experiência, sem conhecerem os colegas com quem vão trabalhar, e vice-versa, recebam como missão participarem, durante alguns meses, na formação de crianças de tenra idade e jovens, muitos deles também a viver em condições deploráveis?
As crianças interiorizam a tristeza e a revolta dos adultos
As crianças crescem e ficam fortes quando são tratadas com gentiliza e atenção, encolhem-se e calam-se quando ouvem um berro, sentem um gesto brusco, um comentário maldoso ou veem uma cara zangada, ou triste. Quando entram na creche ou são deixados à porta da escola, estes seres humanos, pequeninos, ávidos de tudo, sorridentes e irrequietos, estão cheios de expectativas. Querem brincar e fazer amigos, estão sedentos de carinho, de atenção e de aventuras. O que lhes dá a escola?
A escola mantém as portas fechadas
Que escola é esta que não tem qualquer ligação, minimamente relevante, com os pais das crianças, que os não deixa entrar na escola – e muito menos na sala de aula, que os não aceita, que não quer falar com eles, que não lhes pede ajuda, embora precise de muita ajuda? Porque se fecha a escola? Porque nunca fala com a imprensa ou com os pais inquietos, à porta da escola, porque recusa, sistematicamente, prestar contas à sociedade, porque só deixa entrar aqueles que pagam? Que escola é esta que culpabiliza as crianças e os pais pela falta de qualidade da instituição, pelos fracassos e pelos recorrentes incidentes e delitos?
A escola é aquilo que nós somos, mas podemos transforma-la no que queremos que ela seja. Basta assumirmos as nossas responsabilidades, falarmos uns com os outros e criarmos escolas que acarinhem e respeitem as crianças e os jovens e os preparem como seres humanos.
Humanizar, socializar e democratizar a escola. Integrar a escola na sociedade
Numa escola decente podemos aprender imensas coisas úteis sobre humanos e as suas sociedades. Podemos aprender a ser justos e prestáveis, a dizer não e a sermos respeitados. Podemos aprender a ouvir e a falar, a refletir e a ser exigente, a pedir ajuda e a ajudar. Podemos aprender a dizer, frequentemente, “obrigado” e “se faz favor.” As vantagens são imensas. Há muito mais para aprender, por exemplo, sobre a maldade, comportamentos maldosos e a ética.
Os pais e os professores precisam de se libertar e emancipar, de falar uns com os outros e de se organizar para defenderem as crianças e ajudarem os jovens.
Quanto às escolas que temos hoje, é claro que não nos servem! O modelo é péssimo e, pior ainda, é controlado por más pessoas. A escola do “Estado” e dos “Particulares” não é uma boa escola, não nos serve e faz-nos mal.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.