Tim Curry morreu aos 80 anos, mas há atores cuja morte chega inesperada ao ponto de recusarmo-nos a acreditar que desapareceram. Curry era um deles. Fazia parte dos nossos sonhos e insónias de adolescente. Talvez porque nunca pareceu exatamente ser um ser deste mundo. Talvez porque, desde 1975, ficou condenado — felizmente para nós, talvez nem tanto para ele — a entrar eternamente num ecrã de uma sala de cinema de saltos altos, ligas, espartilho, pérolas e maquilhagem suficiente para assustar a moral pública de várias gerações.
Foi como Dr. Frank-N-Furter em The Rocky Horror Picture Show (1975), de Jim Sharman, que Tim Curry deixou de ser apenas um ator para passar a ser uma categoria cultural. O filme nasceu do musical The Rocky Horror Show, de Richard O’Brien, começou praticamente ignorado, sobreviveu graças às sessões da meia-noite e acabou por inventar uma coisa que Hollywood ainda hoje tenta, mas é muito difícil, fabricar em laboratório: um verdadeiro filme de culto. Público mascarado, arroz atirado para o ecrã, falas gritadas em coro, sexualidade sem pruridos e a deliciosa sensação de que o espetáculo não acabava quando começavam os créditos finais.
Curry estava no centro daquela pequena revolução. Não era apenas camp, nem apenas provocação sexual, nem apenas uma paródia dos filmes de terror e ficção científica de série B. Era uma combinação de David Bowie, Marc Bolan, cabaret, glam-rock, proto-punk e uma bofetada de lantejoulas na respeitabilidade dos anos 70. Frank-N-Furter fez da ambiguidade uma grande festança antes de a cultura popular aprender a falar de fluidez e transformou a transgressão numa entrada musical. Meio século depois, continua mais moderno do que muita gente que passa a vida a proclamar-se moderna.
O problema de criar uma personagem assim tão forte é passar o resto da carreira a tentar fugir dela. Curry tentou, e muitas vezes conseguiu. Foi Rooster em Annie (1982), o extraordinário Senhor das Trevas de A Lenda da Floresta (1985), de Ridley Scott, um Wadsworth em permanente curto-circuito em Os Sete Suspeitos (1985), o aterrador Pennywise da minissérie It (1990), o concierge viscosamente perfeito de Sozinho em Casa 2: Perdido em Nova Iorque (1992) e um Long John Silver capaz de disputar o protagonismo com bonecos em Os Muppets na Ilha do Tesouro (1996).
E havia ainda o teatro. Hair, Amadeus, My Favorite Year, Monty Python’s Spamalot, três nomeações para os Tony e uma voz que parecia ter sido afinada com whisky, veludo e dinamite. Curry podia fazer Shakespeare, Brecht ou um palhaço assassino e levava para todos a mesma coisa: aquele prazer ligeiramente perverso de parecer saber alguma coisa que nós ainda não tínhamos percebido muito bem.
Um AVC grave em 2012 deixou-o numa cadeira de rodas e afastou-o progressivamente dos palcos, mas não lhe retirou o humor nem aquela presença imediatamente reconhecível. Continuou a trabalhar, sobretudo com a voz a fazer dobragens, e ainda regressou ao cinema em Stream (2024).
Tim Curry morreu em Los Angeles. Frank-N-Furter, esse, não vai morrer tão cedo. Continuará a aparecer à meia-noite sempre que uma sala escura para reunir meia dúzia de inadaptados felizes, alguém calçar umas meias de rede e outra pessoa descobrir que o cinema também pode ser o lugar onde entramos para deixar, durante duas horas, esquecermos aquilo que somos. Tim Curry não deixou só filmes, deixou uma porta aberta. E, felizmente, nunca mais ninguém até agora conseguiu fechá-la.