A VISÃO esteve na Feira Insólita, que decorre no Largo da Graça, em Lisboa, organizada pela Junta de Freguesia de São Vicente, para uma conversa sob o tema Democracia e Jornalismo: uma história de amor em tempos tóxicos. Margarida Davim e Filipe Luís, da VISÃO, juntaram-se ao jornalista Pedro Miguel Santos, que esteve ligado a projetos de jornalismo investigativo e independente, como a Divergente ou o Fumaça.
Falou-se do jornalismo narrativo, pensado, com aprofundamento dos temas e dos contextos, e de como esta forma de interpretar a realidade e a “servir” aos leitores anda a “remar contra a maré” na era das redes sociais, dos vídeos de três minutos, do scroll infinito, do algoritmo que define “bolhas” muito limitadas e de tudo o que condiciona a nossa atenção e nos dispersa. O “jornalismo de consumo lento” ainda tem cabimento hoje em dia?
“Estamos num tempo em que toda a verdade é inconveniente. A verdade mistura-se com as fake news e a manipulação e quem faz o escrutínio, quem o lê e reflete nos temas é tido como a elite corrupta, é assim chamado, por oposição a quem está com o povo. Mas quem faz o escrutínio e vê para lá da superfície, dando pistas para que as pessoas tirem as suas próprias conclusões sobre a realidade, continua a ter recetividade. Os leitores continuam a comprar a VISÃO e a revista até aumentou as vendas nos últimos tempos”, afirmou Filipe Luís, subdiretor da VISÃO.

Os leitores tornam-se comunidade, tal como acontece com a Divergente, revista digital já com 10 anos, que se financia sem publicidade e sobrevive do contributo dos seus leitores e de alguns fundos – cada vez menos – de fundações internacionais que apoiam o jornalismo de investigação. “A informação e o jornalismo são um bem público e cada vez mais necessário. Sempre defendemos a criação de uma categoria específica, na lei, de mecenato para órgãos de informação e isso não é nenhum papão em outros países da Europa, acontece por todo o lado. A ideia de que havendo dinheiro público a financiar órgãos de comunicação os vai condicionar é atirar areia para os olhos das pessoas e esquecer que hoje em dia os poderes públicos são menos importantes do que os poderes económicos”, disse Pedro Miguel Santos.
“Defendemos a democracia e temos a convicção inabalável que o que fazemos ajuda a garantir a saúde da democracia”, continuou Filipe Luís. “É um jornalismo independente, mas comprometido com valores”, acrescentou Margarida Davim, realçando que o público valoriza justamente esse aspeto, ao mesmo tempo que se oferecem “conteúdos que não estão disponíveis na Internet nem servem para o formato do online, precisam de tempo para ler”.
Um tempo para investigar, escrutinar e explicar uma realidade altamente complexa que não se entende nem se integra nos breves segundos de um scroll. Em tempos altamente incertos, o jornalismo livre é ainda mais urgente.
A Feira Insólita segue até dia 30 de abril. Anote na agenda as próximas conversas no Largo:
- Conversa Insólita: A política do preço certo, com Rui Tavares e Pedro Mafama, dia 27 às 17h30
- Conversa Insólita: A imagem não é inocente, com Joana Barrios e Paula Cardoso, dia 30 às 17h30