Há cidades cujo nome, só por si, evocam séculos de História, mas também uma aura permanente, que nunca se apaga, mesmo quando os tempos se lhes revelaram adversos. A cidade fundada por Alexandre o Grande, há quase 2500 anos, no lugar onde Oriente e o Ocidente se encontravam, foi também a urbe que permitiu a mistura de três grandes civilizações: a egípcia, a grega e a romana. E foi também a cidade que moldou religiões como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. A história da cidade é agora contada, de forma monumental, por Islam Issa, um dos mais reputados investigadores e divulgadores de História, dos nossos tempos.
Todas as cidades antigas têm mitos associados. Lisboa, por exemplo, terá sido fundada por Ulisses. Até que ponto é possível aos historiadores modernos contar a história de uma cidade sem desmantelar os mitos que foram essenciais para a sua personalidade?
As cidades são como seres vivos – são complicadas e, quando pensamos nas suas histórias, estas também incluem aspetos de História cultural. A espacialidade é muito importante para mim e há tanto a dizer sobre a forma como a cultura, incluindo a mitologia, desempenha um papel na criação de lugares e na forja das sociedades que neles habitam. A cultura continua, depois, a servir de catalisador para a maneira como imaginamos e concetualizamos o lugar.
Assim, em termos de abordagem, houve definitivamente um forte sentido de História cultural. Quis dar aos mitos de fundação e a várias lendas tanta atenção quanto às datas e figuras históricas, de modo a construir um quadro completo, porque Alexandria é realmente um lugar que esbate as fronteiras entre o factual e o mitológico, e onde as visões iniciais de Alexandre, o Grande, e dos seus sucessores permearam constantemente a longa História da cidade.

Alexandria – A Cidade que Mudou o Mundo
Fundada há quase 2500 anos, Alexandria assinalou o advento do urbanismo, influenciou algumas das mais importantes religiões, permitiu a confluência de grandes culturas e assistiu ao apogeu e ao declínio de impérios. A nossa História coletiva não seria a mesma sem muito do que aconteceu em Alexandria, ao longo de séculos. A sua História é fascinante e, neste livro, consegue prender a nossa atenção da primeira à última página.
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Relativamente a mitos e lendas, quão plausível é a história de que Alexandre, o Grande, esboçou pessoalmente o traçado de Alexandria na areia?
Como tantos aspetos de Alexandre, o Grande, estas lendas tendem a ser impossíveis de provar, mas são certamente possíveis. Grande parte do meu planeamento nas fases iniciais foi uma tentativa de entrar na psique de Alexandre e acredito que ele era uma figura excêntrica com uma enorme autoconfiança. Olhando para os seus feitos, ele deve ter tido algumas qualidades visionárias e conduzido-se como um líder, pelo que o seu papel no design inicial de uma cidade estrategicamente localizada, de uma forma ou de outra, não é irrealista.
No livro, além do seu valor simbólico, quis mostrar que, mesmo que estes mitos não possam ser provados como verdadeiros, o facto de serem importantes para Alexandria e para os alexandrinos, e de terem passado a afetar a composição da cidade e do seu povo, é uma verdade acima de qualquer dúvida.
Na lenda, Alexandre era um grande guerreiro e também um pensador profundo. Não era apenas alguém focado no poder. Esta representação é exata? E deve ele ser visto como um modelo para a governação moderna?
É fascinante pensar que Alexandre foi aluno de Aristóteles, que foi ensinado por Platão, cujo mestre foi Sócrates. Alexandre terá recebido uma educação de qualidade, inclusive a nível militar. Não há dúvida de que lhe terá sido ensinado Homero, por exemplo, que, na ausência de escrituras e de História como as conhecemos hoje, era um autor fundamental. Ele manteve a sua relação com Aristóteles e enviou-lhe livros e espécimes de plantas das suas viagens. Durante as suas campanhas, Alexandre levou académicos e topógrafos para recolher informações sobre a terra.
No caso de Alexandria, creio que ele poderia ter helenizado o espaço, mas optou por o harmonizar, convidando diferentes povos para as suas margens. Em vez de esmagar os deuses egípcios, como os persas tinham tentado, os egípcios foram autorizados a continuar as suas tradições, pelo que não o viram como um colonizador, como poderia ter sido o caso. Os judeus também foram convidados a prestar culto livremente.
Isto é idealismo? Bem, não creio que ele o fizesse apenas pela bondade do seu coração, mas sim porque era o caminho para o seu objetivo final de domínio mundial. Se a isso somarmos a extensão da propaganda que existiu durante e após o seu tempo, e a disputa pelo poder que ocorreu após a sua morte devido ao seu domínio absoluto, encontramos várias coisas que não gostaríamos de ver hoje. Mas, em termos de visão estratégica, bem como de alguma tentativa de respeitar outras culturas, poderá haver algo a aprender.
Até que ponto foi Alexandria a cidade que mudou o mundo, como afirma o título do seu livro?
É uma afirmação audaciosa, aceito, Mas Alexandria influenciou o mundo de imensas formas até aos dias de hoje. Os princípios fundadores sobre a harmonização das pessoas como forma de criar poder económico, e a recolha e a disseminação do conhecimento como uma forma fundamental de soft power, foram ambas ideias radicais.
Depois, foram os primeiros académicos da Grande Biblioteca que provaram que a Terra não é plana. Sem eles não haveria máquinas a vapor, moinhos de vento, máquinas de venda automática, teclados musicais, anos bissextos, geometria nem pontuação. A escola médica inicial também operou enormes transformações a partir dos métodos hipocráticos desatualizados, alguns dos quais são usados hoje.
No que toca à religião, as três fés abraâmicas mudaram para sempre. A Bíblia hebraica foi traduzida para o grego alexandrino e esta Septuaginta tornar-se-ia uma das traduções mais influentes da História, em grande parte porque foi logo usada na composição do Novo Testamento e adotada pela Igreja. Influenciada pela filosofia egípcia e grega, a ideia de que a escritura deve ser interpretada alegoricamente ganhou asas em Alexandria. E a arquitetura islâmica, por exemplo, foi influenciada por edifícios e artesãos alexandrinos, como a Cúpula da Rocha, em Jerusalém. Portanto, sim, Alexandria mudou as geografias, filosofias, tecnologias, políticas e teologias do mundo.
Foi Alexandria verdadeiramente a primeira grande cidade planeada? Deveríamos olhá-la como a origem do planeamento urbano tal como o conhecemos hoje?
Alexandria ostenta a influência de Aristóteles, que escreveu sobre cidades ideais, e do eminente arquiteto Dinócrates, ambos influenciados pelo pai do planeamento urbano, Hipódamo. Eles defendiam que as cidades deveriam parecer grelhas: ruas grandes e direitas que se cruzam em ângulos retos. Assim, as estradas foram anguladas de modo a tirar proveito da brisa marítima e a proteger os cidadãos dos ventos fortes, o que ainda acontece hoje.
Houve também a irrigação pelo engenheiro hidráulico Crates de Olinto, que estabeleceu o seu sistema de esgotos. Um novo canal era utilizado para reabastecer cisternas subterrâneas para lavagem e limpeza. Estas câmaras eram enchidas anualmente por volta do final do verão, quando a inundação do Nilo se aproximava de Alexandria, transformando algo historicamente problemático em algo benéfico. Alexandria depressa ficou conhecida como “a cidade das mil cisternas”.
Existiram, claro, cidades planeadas antes de Alexandria, mas poderíamos argumentar que Alexandria foi a primeira cidade planeada de forma moderna, como demonstra a influência que teve no desenho de grandes cidades nos séculos seguintes. Além disso, neste momento, Alexandria possui o jardim sobrevivente mais antigo do mundo e a rua planeada mais antiga ainda em uso.
Pode descrever o impacto imediato que a sua localização geográfica teve no sucesso comercial da cidade?
Alexandria está na intersecção de três continentes e tinha também um lago significativo a sul e antigos canais egípcios nas proximidades. Unicamente, a cidade ligava-se a África através do Nilo, ao Levante e à Europa através do Mediterrâneo e à Arábia e à Índia através do Mar Vermelho. Tornou-se o único elo entre a Europa, África e a Ásia, permitindo o comércio, o movimento de pessoas e o intercâmbio cultural. Nos seus primórdios, Alexandria teve a primeira política económica mercantil consciente, construída em torno da maximização das exportações, da minimização das importações e do aumento das tarifas. Era um centro de comércio mundial, com ligações de transporte em todas as direções através do mar, do rio, do lago e dos canais.
Alexandria era mais uma cidade grega no Egito ou uma cidade egípcia sob administração grega?
Quando foi fundada, chamava-se “Alexandria junto ao Egito”, e não “Alexandria no Egito”. É importante notar que a ilha onde foi fundada, Faros, já fazia parte da consciência grega através da poesia de Homero. Da mesma forma, o Egito já era uma civilização incrível há muito tempo. Pense nisto: Alexandre chegou a Alexandria na metade do tempo que há entre nós e a construção das Grandes Pirâmides, o que é um indicador surpreendente da antiguidade do Egito.
Alexandria foi a primeira cidade planeada de forma moderna, como demonstra a influência que teve no desenho de grandes cidades nos séculos seguintes. Além disso, ainda possui o jardim mais antigo do mundo
Os primeiros governantes, os ptolomeus, criaram o protetor divino de Alexandria, Sérapis, como uma amálgama de dois deuses egípcios fundamentais, Osíris e Ápis, tornando-o simultaneamente humano na aparência, como o deus grego Zeus. Este deus unificador era importante, pois era adorado tanto por egípcios como por gregos.
Quanto à cidadania, Alexandria permitia-a a homens e mulheres, e o princípio geral era de que tanto a mãe como o pai tinham de ser cidadãos alexandrinos, o que significa que a população de cidadãos aumentou gradualmente ao longo do tempo. Levou algumas décadas para que a população se tornasse maioritariamente grega. A cidadania para egípcios e judeus nem sempre era concedida, dependia do governante. No entanto, os ptolomeus queriam manter-se populares e evitavam sobrecarregar os egípcios com impostos ou atropelar os seus hábitos e crenças culturais. Assim, permaneceu uma pequena mas importante elite de sacerdotes egípcios. Os egípcios trabalhavam predominantemente na agricultura e na construção.
Alexandria era um lugar burocrático e os cargos mais importantes na função pública eram ocupados por gregos, mas os egípcios tinham posições que supervisionavam a produção agrícola, as finanças e a administração de terras e propriedades. Mas há outras coisas a notar também: a Grande Biblioteca pode ter sido uma instituição de língua grega, mas também encomendou, recolheu e traduziu textos egípcios. Além disso, Alexandria não desenvolveu um vasto sistema de escravatura e o exército era multiétnico, o que era invulgar, na época.
Como é que a Grande Biblioteca de Alexandria mudou o próprio conceito de “conhecimento universal”?
O papiro mais antigo que menciona a biblioteca mostra que o seu objetivo era “recolher todos os livros do mundo”. Esse é um conceito novo: uma tentativa de coligir e tratar todo o conhecimento do mundo num único lugar. Ou seja, uma forma de possuir o conhecimento absoluto. Isto significa que houve uma busca global de livros e que o acervo da Grande Biblioteca era surpreendentemente diverso.
Embora contivesse toda a obra literária grega, os livros também eram oriundos de todas as culturas e línguas conhecidas. E o Egito já era um país que valorizava a palavra escrita. De facto, em egípcio, a palavra para escrita significava “palavras de deus”. Os governantes ordenaram aos sacerdotes egípcios que escrevessem e depositassem as suas obras na Biblioteca, pelo que os livros gregos e egípcios eram abundantes. Estes eram acompanhados por escritos politeístas, budistas, hindus, judeus e zoroastristas. O conteúdo variado da Biblioteca tornou-se um exemplo precoce de Alexandria a beneficiar da sua cultura híbrida na intersecção do Oriente com o Ocidente. As suas coleções estavam a internacionalizar e a universalizar o conhecimento.
De que forma a fusão de textos egípcios e gregos dentro da Biblioteca deu origem a novas escolas de filosofia?
Os académicos tinham relativa liberdade académica e seguiam a escola que desejassem. Vinham de toda a região, e esta fusão significou que trouxeram ideias diferentes uns aos outros e foram capazes de desafiar aspetos da filosofia e da ciência tanto gregas como egípcias, confirmando a singularidade e o poder de Alexandria.
Amónio e o seu aluno Plotino transformaram o platonismo em neoplatonismo, que se tornou a escola de pensamento dominante na Europa. Influenciou teólogos judeus, filósofos muçulmanos e pensadores do Renascimento
Em Atenas, podia-se ser exilado por impiedade, mas não havia um processo democrático semelhante em Alexandria, onde a Biblioteca e o seu centro de investigação eram patrocinados pelo Estado. E isso era, na verdade, libertador para os académicos, que ficavam surpreendentemente livres para especular, experimentar e desafiar crenças e rituais de longa data. Por exemplo, no século III a.C. em Alexandria, Amónio e o seu aluno Plotino transformaram o platonismo em neoplatonismo, que se tornou a escola de pensamento dominante na Europa durante o milénio seguinte. Influenciou teólogos judeus, filósofos muçulmanos e pensadores do Renascimento europeu.
Qual é o mito mais significativo sobre a destruição da Biblioteca que o seu livro procura desmistificar?
Não procurei desmistificar nada no livro. Percebo que a Grande Biblioteca fascina as pessoas há muito tempo porque reuniu tanto conhecimento e depois parece ter desaparecido. A imagem mais famosa da destruição é provavelmente a do incêndio de Júlio César, que pode ter danificado a Biblioteca, ou podem ter sido as bibliotecas irmãs ou os depósitos de livros perto do porto que arderam. E imperadores romanos como Caracala, Aureliano e Diocleciano também podem ter tido um papel no declínio da Biblioteca.
Mas depois temos referências à Biblioteca mais tarde, como no século V, quando o historiador romano Orósio fica perplexo com as suas prateleiras vazias, o que confirma que ela existiu muito depois destes imperadores. Suponho que se há algo que destaquei sobre a sua destruição, é que não foi apenas um evento devastador único, mas sim um declínio contínuo.
Como é que a construção da nova Bibliotheca Alexandrina honra o legado da antiga?
A Grande Biblioteca é insubstituível, mas a nova tenta honrá-la. A nova biblioteca situa-se não muito longe de onde a antiga poderá ter estado. O seu design arquitetónico, como um relógio de sol, alude à sabedoria do passado. As paredes estão inscritas com caracteres de mais de 120 escritas diferentes, simbolizando a universalização, e é também uma biblioteca trilíngue. Também tenta reunir todo o conhecimento, não em rolos, nem mesmo nos seus 1,5 milhões de livros, mas através do seu Internet Archive, que regista todas as páginas web existentes desde que a internet se tornou pública.
Como se sente ao saber que uma grande parte da Alexandria antiga está agora submersa, debaixo de água?
Sim, grande parte da Alexandria antiga está debaixo de água e também debaixo da terra. Isto pode tornar a cidade antiga um pouco ausente, fisicamente. Mas saber que a cidade antiga está em tal proximidade preenche o espaço com um ar de mística e de História. E embora signifique que muito se perdeu no tempo, por outro lado, também significa que ainda há muito por descobrir.
Como é que Alexandria se tornou o epicentro das primeiras grandes disputas teológicas dentro do cristianismo?
Fazia sentido que uma cidade tão liberalmente inclinada e filosófica atraísse tanto pioneiros como desajustados. A Escola Catequética de Alexandria foi a primeira instituição de Ensino Superior cristão. Os estudiosos foram enormemente influenciados por egípcios, gregos e judeus. Isto significava ênfase em coisas como a alegoria, bem como uma tendência para o debate, como faziam os judeus e filósofos. É por isso que vemos ideias gnósticas, estoicas e até homéricas a informar o cristianismo, e também por que a natureza de Cristo é discutida extensivamente. Uma das disputas mais significativas ocorreu no século IV, quando o arianismo se desenvolveu em Alexandria, defendendo que a Trindade tinha uma hierarquia clara. Isto foi tão popular que os seus ensinamentos eram cantados nos mercados e foi visto como uma ameaça populista ao ponto de os bispos cristãos responderem criando o Credo de Niceia.
O que causou o longo período de “obscuridade” de Alexandria entre a Idade Média e o século XIX?
Alexandria foi a capital do império ptolemaico do século IV a.C. até ao século I a.C., quando se tornou a capital do Egito romano. Quando os árabes chegaram, mudaram a capital do Egito porque Alexandria precisava de força naval e era muito diversa. Perder o estatuto de capital após cerca de um milénio significou que outras cidades começaram a ser priorizadas em relação a ela.
Eventualmente, com a descoberta da Rota do Cabo por Vasco da Gama, na viragem do século XV, a reivindicação única de Alexandria de ligar o Oriente ao Ocidente começou a diminuir. Os europeus puderam finalmente evitar o Mediterrâneo e a península Arábica, pondo fim às rotas comerciais controladas pelos otomanos desde a captura de Constantinopla. O Egito perdeu rapidamente o seu monopólio no comércio de especiarias e a importância de Alexandria como cidade portuária de ligação começou imediatamente a encolher.
Por que razão Alexandria atraiu historicamente tantos escritores e poetas?
Bem, se voltarmos à lenda da sua fundação, de que Alexandre teve uma visão de Homero a dizer-lhe para ir para aquele pedaço de terra, então esta é uma cidade criada pelo poder da poesia. Alexandre também se promoveu como filho de Zeus, tornando as musas poéticas irmãs do fundador. Depois, a Grande Biblioteca confirmou a sua relação especial com a palavra escrita.
Diz-se que Aristóteles comentou que a poesia é mais filosófica e universal do que a História, e até os cientistas usavam a poesia nas suas investigações. O facto de ser uma cidade liberal também significou que novos tipos de versos foram inventados e havia muita poesia satírica. À medida que os séculos avançavam, isto continuou a ser verdade; os sufis criaram um centro na cidade e o resultado incluiu o poema islâmico mais famoso de todos os tempos, o Burda. Esse liberalismo estende-se a poetas como C. P. Cavafy, que puderam escrever sobre homossexualidade precisamente por estarem em Alexandria.
Menciona que um dos princípios fundadores de Alexandria era criar uma cidade onde pessoas de diferentes partes do mundo pudessem viver juntas em paz relativa. O que sustentou esta harmonia entre povos diversos?
Políticas iniciais como a liberdade de culto e deuses amalgamados foram essenciais. No início, ter bairros separados para culto e rituais, mas misturarem-se para o comércio em toda a cidade pareceu funcionar. Havia uma enorme vantagem económica em ter tantas pessoas diferentes a trabalhar na cidade e a chegar ao seu porto. Com o passar do tempo, os casamentos mistos tornaram-se mais comuns e continuaram até ao século XX.
Que lições pode a Alexandria antiga ensinar às cidades multiculturais de hoje?
O que mais nos ensina é, na verdade, o momento em que tudo corre mal. Por exemplo, quando os romanos espalharam rumores sobre os judeus que levaram à sua perseguição, uma espécie de tática de “dividir para reinar”. Ou quando os egípcios viram deuses cristãos serem-lhes impostos, dizendo-nos que impor uma hierarquia cultural não é bom. Ou quando os omíadas do século VIII proibiram os casamentos mistos, que eram um tecido da sociedade alexandrina. Portanto, este género de “lições morais” diz respeito ao tipo de decisões e ações que afetam a harmonia.
Por que razão, apesar do seu passado glorioso, Alexandria não detém o mesmo nível de notoriedade moderna que Roma, Atenas ou Istambul?
Penso que tem muito a ver com a cidade física. Como mencionámos, a Alexandria antiga está em grande parte debaixo de água e debaixo da terra. O Farol de Faros, que era uma das sete maravilhas do mundo antigo, apenas tem lá os seus restos, e perdemos a Biblioteca e os túmulos de Alexandre e de Cleópatra. Infelizmente, nem um único edifício ptolemaico permanece de pé, apenas túmulos. Há mais arquitetura alexandrina antiga em Jerusalém ou em Roma. Dito isto, os fragmentos restantes dos edifícios mostram combinações fascinantes de estilos egípcios, gregos e romanos. Continua a haver muito para ver em Alexandria – e muita História para respirar.
Qual foi o facto mais surpreendente que descobriu durante a sua investigação para este livro?
Apenas um? Fiquei surpreendido com a forma como a História se repete constantemente, embora de maneiras ligeiramente diferentes. Outra surpresa foi como algumas coisas simplesmente desapareceram, como o mausoléu de Alexandre, o Grande, que os imperadores romanos faziam questão de visitar um após outro, e depois, subitamente, uma nota da viragem do século V diz-nos que “o seu túmulo nem o seu próprio povo conhece”. Quanto a surpresas específicas, houve alguns achados de arquivo que me marcaram. Uma é uma carta durante uma fome no século XI que revela canibalismo. Outra é um poema sobre Alexandre, o Grande, pelos primeiros muçulmanos da cidade; a minha preferida é a primeira tradução do poema e fala da importância do fundador através das várias eras.
Depois de terminar este livro, qual sente ser o maior equívoco que as pessoas ainda têm sobre Alexandria?
Não sei se lhes chamaria equívocos, mas um par de coisas parece ter surpreendido os meus leitores. A primeira é que Alexandria não era um lugar puramente helenístico, ou egípcio ou, mais tarde, apenas árabe. Foi sempre uma amálgama de tantas identidades e ainda hoje as pessoas se orgulham das suas ascendências variadas. A segunda coisa é a ideia de que é uma espécie de relíquia antiga do passado que parou subitamente de evoluir após a Antiguidade ou a anexação árabe. Isso não é verdade, porque é uma cidade que teve tantos eventos e figuras significativas depois disso, de Saladino a Napoleão e a Maomé Ali Paxá. No século XX, esteve envolvida em revoluções, movimentos sufragistas e nas guerras mundiais. Alexandria nunca parou de se reinventar.