A liderança chinesa está com pressa de resolver a questão de Taiwan e “reunificar a China”? Pequim irá aproveitar a “distração dos EUA” com outras guerras para invadir a ilha e anexar um território que vive há várias gerações fora do seu controlo? O que aconteceu na capital chinesa este mês parece desmentir aquelas profecias: “A China não apressou a causa da reunificação”, sintetizou um comentador chinês acerca do encontro entre os líderes do Partido Comunista Chinês (PCC), Xi Jinping, e da principal força da oposição de Taiwan, o Partido Nacionalista (KMT), Cheng Li-wun. Falou-se de “reunificação da nação chinesa” e do “rejuvenescimento nacional”, mas “como um horizonte futuro, sem um calendário definido (…) Uma visão, não um prazo”, escreveu Zichen Wang no site Pekingnology.
Tecnicamente, a longa guerra civil chinesa ainda não acabou. Em 1949, os comunistas tomaram o poder no continente, fundando uma “nova China”, denominada República Popular. O que restava da república governada pelo KMT refugiou-se na ilha de Taiwan e em três pequenos arquipélagos adjacentes. O encontro de 10 de abril, no Grande Palácio do Povo, em Pequim, foi o primeiro do género no espaço de uma década. Há cinco anos, a capa da revista The Economist descrevia o estreito de Taiwan como “o sítio mais perigoso do mundo”, suscetível de provocar um confronto militar entre os EUA e a China.
Ao contrário do atual governo de Taiwan, que considera “a China uma força estrangeira hostil” e tem uma agenda separatista, Xi Jinping e Cheng Li-wun declararam pertencer à “mesma família”, comprometendo-se a “salvaguardar a paz e a segurança da casa comum, fazer avançar o desenvolvimento pacifico das relações entre os dois lados e permitir às próximas gerações partilhar um futuro melhor”. O adversário, para ambos, é o Partido Democrático Progressista (DPP), no poder desde 2016, e cujo presidente, Lai Ching-te, é um assumido adepto da independência de Taiwan. O líder do DPP criticou o encontro de Cheng com Xi, acusando a presidente do KMT de “pactuar com um regime autocrático” e “sacrificar a soberania e a democracia”. Nas últimas eleições presidenciais, realizadas há dois anos, o DPP caiu 17 pontos, obtendo apenas 40% dos votos, contra 33,4% do KMT e 26,4% do terceiro candidato. Além disso, perdeu a maioria no Parlamento. Se o candidato do KMT ganhar em 2028, convidará o Presidente chinês a visitar Taiwan, anunciou Cheng Li-wun.
Em 2013, meses depois de ter assumido a chefia do PCC, Xi Jinping disse a um emissário de Taiwan que “as divergências políticas entre os dois lados do estreito deviam ser ultrapassadas passo a passo, e não podiam passar de geração em geração”. Na Europa e nos EUA, alguns comentadores interpretaram essa frase como uma “manifestação de urgência”, atribuindo ao Presidente chinês a disposição de alcançar a reunificação “nesta geração”. Pequim defende a “reunificação pacífica”, admitindo apenas “usar a força” se a ilha declarar a independência. Embora sem data marcada, trata-se de um processo que considera “imparável”.
“As diferenças no sistema social não são motivo para separatismo”, disse Xi Jinping à presidente do KMT. São diferenças “com raízes históricas profundas, que não podem ser resolvidas do dia para a noite”, comentou Cheng Li-wun. “É necessário abordá-las com paciência e perseverança”, acrescentou, evocando a conhecida fábula chinesa de Yu Gong, um ancião que mobilizou a sua família para mover duas montanhas que lhe barravam o caminho para a aldeia mais próxima.
Por coincidência, foi também num dia 10 de abril, há 47 anos, que os EUA promulgaram o Taiwan Relations Act, uma lei federal que compromete Washington a “assegurar a defesa” da ilha e ao abrigo da qual as indústrias de armamento norte-americanas têm ganhado muito dinheiro. O último pacote, aprovado no final do ano passado, está orçado em cerca de 11 mil milhões de dólares.
Taiwan viveu sob lei marcial até 1987. Os seus líderes, hoje, são escolhidos por sufrágio direto, em eleições pluripartidárias. Xi Jinping “reconheceu e respeitou o modo de vida e o sistema de Taiwan” – disse Cheng Li-wun – e a ilha “respeitará o desenvolvimento do continente”. Sondagens feitas por uma universidade local indicam que quase 90% da população defende o statu quo: nem independência, nem unificação. A economia de Taiwan é uma das mais prósperas da Ásia − com um PIB per capita (37 000 dólares) superior ao de Xangai (30 000 dólares) − e parte dessa prosperidade deve-se ao comércio com o vasto continente chinês.
Cheng Li-wun definiu a sua visita a Pequim como “uma viagem de paz”. No estado atual das relações internacionais, não é pouca coisa. E a linguagem do anfitrião − salientou também Zichen Wang − “é a da paciência” e “não a de um tempo político comprimido”.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.