Neste mesmo espaço, procurei mostrar como as rotinas e as escolhas do próprio jornalismo – quem assina as peças, que formatos se usam, que fontes ganham voz e que contexto é oferecido ao leitor – moldam a forma como lemos e discutimos a eutanásia. Mais recentemente, escrevi para partilhar como os jornais de referência em Portugal e no Reino Unido ajudam a estruturar o debate: quem fala, que argumentos entram em cena e quais ficam de fora. Retomo agora o tema com novos dados de investigação, publicados na Discourse & Communication, e com a mesma convicção de então: a forma como informamos sobre a eutanásia diz muito sobre a qualidade do nosso espaço público e, em última instância, da nossa democracia. Para quem não leu o primeiro texto e o texto anterior, o convite fica feito. Este é o capítulo seguinte dessa conversa.
No novo artigo científico, acabámos de dar um passo diferente. Em vez de olharmos para o debate em torno da eutanásia no seu todo, aproximámo-nos ao máximo do corpo que sofre e da forma como ele é descrito nas notícias. Analisámos 72 histórias publicadas entre 2016 e 2024 no Expresso, Público, The Guardian e The Telegraph que falam explicitamente de órgãos que falham, corpos que deixam de responder, e dores que já não cedem à medicação. Em vez de discutirmos apenas se “somos a favor ou contra”, procurámos perceber que imagem do morrer é construída quando o jornalismo entra nos últimos dias e horas de vida: que corpo é este que chega às páginas dos jornais? Um corpo dependente? Vergonhoso? Apenas uma lista de sintomas? Ou também um corpo que aceita, resiste, e encontra significado?
O que encontrámos não foi um retrato único, mas cinco formas recorrentes de contar a mesma realidade. Em muitas histórias, o corpo aparece como dependente: alguém que antes trabalhava, conduzia, viajava, e, de repente, já não consegue lavar-se, vestir-se, e alimentar-se sozinho. A sensação de estar “preso ao corpo” atravessa testemunhos de doentes e familiares em Portugal e no Reino Unido. Noutras narrativas, o foco está na vergonha: o corpo que deixa escapar fluidos, cheiros e gritos. A pessoa que passa a usar fralda, a ser alimentada à colher, e a ver-se reduzida a “sombra de si própria”. Aqui, a pergunta subjacente é dura. Até que ponto é “digno” prolongar uma vida nestas condições?
Há ainda histórias em que o corpo doente surge como um inventário clínico de sintomas. Médicos e enfermeiros descrevem, com grande detalhe, dores refratárias, falta de ar, convulsões, delírios terminais e falhas de órgãos. Falam também da sua própria impotência. Casos em que, apesar de “toda a medicação possível”, a dor não cede, a agonia arrasta-se e a equipa sente que já não está a cuidar, mas apenas a assistir. Noutros textos, o centro da narrativa é o tempo: doenças degenerativas que roubam capacidades aos poucos, ano após ano, até que a pessoa diz “não quero viver quando já não for eu”. A eutanásia aparece aqui como forma de “interromper o relógio” antes da fase final, quando já não há reconhecimento possível entre passado e presente.
A grande novidade deste estudo, contudo, foi a identificação de um quinto modo de contar: o corpo que aceita. São menos histórias, mas importantes. Falam de pessoas que não idealizam o sofrimento, nem o romantizam, mas que escolhem viver o tempo que lhes resta com outra lógica. Insistem em pequenos gestos de normalidade, em relações que se aprofundam e em decisões partilhadas com equipas de cuidados paliativos. Em alguns casos, recusam a sedação profunda ou as intervenções adicionais, não por heroísmo, mas porque querem estar presentes, tão conscientes quanto possível e junto de quem amam. Em outros, alguém que defende o direito à eutanásia para os outros decide, no próprio caso, continuar a lutar para viver. O que estas narrativas têm em comum é simples e revolucionário. Sugerem que nem todo o sofrimento é um erro a corrigir imediatamente pela técnica. Às vezes, é uma experiência difícil que se tenta habitar com o máximo de apoio possível.
Em conjunto, estes cinco modos de contar o corpo doente dizem muito sobre a nossa aversão social à agonia. A esmagadora maioria das histórias que analisámos concentra-se na fase de agonia propriamente dita: os últimos dias ou horas, quando o corpo entra em colapso, a respiração muda, a dor aumenta e a consciência oscila. As descrições são, muitas vezes, gráficas. Em Portugal e no Reino Unido, as leitoras e os leitores são confrontados com imagens de pessoas que “agonizam como um animal”, de doentes que “imploram para morrer” e de familiares que assistem a um lento sufocar. O resultado é poderoso! Cria-se, deste modo, uma paisagem mental em que morrer se confunde quase sempre com sofrer o pior possível durante o máximo de tempo.
Isto não significa que o jornalismo esteja a mentir. Estas situações existem, são reais, e seria indecente varrê‑las para debaixo do tapete. O problema é outro. Quando o foco recai quase sempre nos cenários mais extremos, corremos o risco de naturalizar a ideia de que o fim da vida é inevitavelmente um túnel de horror do qual só há duas saídas: ou a tecnologia que prolonga tudo, mesmo quando já não há nada a fazer, ou a eutanásia que vem “pôr fim a isto de uma vez por todas”. Ficam menos visíveis outras possibilidades, nomeadamente os cuidados paliativos feitos com tempo e recursos, acompanhamento domiciliário digno e formas de apoio emocional e espiritual que não eliminam a dor, mas a tornam menos solitária.
Tal como acontecia nos artigos anteriores do projeto Aversion2agony, também aqui a questão central não é “ser a favor” ou “ser contra” a eutanásia, mas perceber como é que o jornalismo ajuda a imaginar o morrer. No estudo anterior, vimos que muitos argumentos surgem na imprensa como opiniões diretas de uma fonte, pouco questionadas ou cruzadas com visões alternativas. Agora percebemos que, a montante, a própria maneira como o corpo é descrito já traz embutida uma certa resposta. Se a história insistir apenas na dependência, na perda de dignidade ou na dor intratável, é mais provável que o leitor conclua que a única solução “humana” é antecipar a morte. Se, pelo contrário, a história mostrar também momentos de aceitação, de presença e de cuidado partilhado talvez surjam outras perguntas: o que precisava de estar diferente nas famílias, nos serviços de saúde e nas leis para que essa experiência fosse menos violenta?
Isto coloca uma responsabilidade acrescida sobre quem escreve, edita e ilustra notícias sobre a eutanásia. Não se trata de “adoçar” a realidade, nem de esconder o sofrimento extremo quando ele existe. Trata-se de evitar que a agonia seja explorada como choque fácil ou argumento automático a favor de qualquer posição. Trata-se de dar tempo às vozes que vivem estes processos por dentro – doentes, cuidadores e profissionais – e de não reduzir a sua experiência a um único quadro mental: o do corpo inútil, vergonhoso e insuportável. E trata-se, também, de reconhecer quando uma história de aceitação não é um conto edificante, mas uma tentativa muito humana de fazer o melhor possível num contexto limite.
Ao leitor, talvez caiba agora um novo exercício, complementando aquele que propus nos textos anteriores desta série. Quando se deparar com mais uma notícia, reportagem ou crónica sobre a eutanásia, além de perguntar “quem fala aqui, quem não fala e que contexto se oferece?”, pode acrescentar outras perguntas: que corpo está a ser mostrado? Apenas o corpo que falha, cheira mal e envergonha? Ou também o corpo que ainda sente, decide e abraça? Este texto só me convida a fugir da dor? Ou também a pensar no que seria preciso para não a tornar desumana? A forma como respondemos, individual e coletivamente, ajudará a definir que tipo de morte consideramos aceitável e que tipo de vida continua a ser possível mesmo perto do fim.
As leis sobre a eutanásia em Portugal e no Reino Unido continuarão a ser discutidas em parlamentos, tribunais e partidos. No entanto, silenciosamente, uma parte destas decisões continua a ser moldada todos os dias nas redações e nas páginas dos jornais. Aí se decide se o corpo que morre é mostrado apenas como escândalo e ruína, ou também como lugar de relação, de escolha e, às vezes, de aceitação. Se o jornalismo estiver à altura dessa responsabilidade, talvez consigamos discutir a morte com menos medo da agonia e mais cuidado com os vivos que a atravessam.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.