Em Portugal, o diploma da morte medicamente assistida terá de voltar à Assembleia da República após o Tribunal Constitucional apontar três inconstitucionalidades em abril de 2025. No Reino Unido, o parlamento continua a debater e a elaborar uma proposta que permitirá aos doentes terminais pôr fim à própria vida. Ao longo dos últimos anos, a eutanásia deixou de ser apenas um tema de bastidores parlamentares para se tornar um objeto central do debate público. Enquanto discutimos diplomas, prazos, vetos presidenciais e inconstitucionalidades, há uma questão que raramente colocamos: o que sabemos sobre a forma como os jornais de referência destes dois países apresentam este tema? Os argumentos são os mesmos? Os cidadãos têm a mesma voz? O que nos aproxima e distancia neste debate?
A recente investigação que o projeto Aversion2agony conduziu sobre a cobertura jornalística da eutanásia em Portugal e no Reino Unido analisou 1731 textos jornalísticos publicados entre 2016 e 2024 no Expresso, Público, The Guardian e The Telegraph. Foram identificadas 7464 estruturas argumentativas. O objetivo era simples de enunciar, mas ambicioso na prática: perceber como a imprensa de referência, em dois países com histórias, sistemas de saúde e tradições políticas diferentes, constrói os argumentos a favor e contra esta prática. Os resultados mostram que não discutimos o tema da mesma forma em Portugal e no Reino Unido. E isso diz muito sobre o tipo de debate que estamos (ou não) a conseguir ter.
A primeira grande diferença está na direção do enquadramento. Nos jornais portugueses, prevalecem posições e argumentos contra a eutanásia, mais concentrados e repetidos em torno de alguns eixos: a defesa da vida, a fragilidade da rede de cuidados e a desconfiança em relação ao processo político. Esta estrutura gera um enquadramento mais defensivo, que reforça a ideia de risco, ameaça e prudência. Já no Reino Unido, os jornais analisados dão mais espaço a argumentos favoráveis, organizados em torno da autonomia, da dignidade e da necessidade de um enquadramento legal claro. Em vez de um medo difuso do futuro, o foco tende a ser a responsabilização do Estado para regular melhor aquilo que muitos cidadãos já encaram como um direito.
Isto não significa que a discussão britânica seja simples ou unânime, nem que a portuguesa seja meramente conservadora. O estudo mostra, por exemplo, que os argumentos contra a eutanásia em Portugal são mais densos e articulados, frequentemente mobilizados por atores institucionais, políticos e religiosos. Já no Reino Unido, são os argumentos favoráveis que surgem de forma mais coesa e alinhada, enquanto os argumentos contra aparecem mais fragmentados e dispersos. Em suma: num país, a resistência está mais organizada e, no outro, o impulso reformista é que se apresenta com maior coerência.
Talvez o dado mais inquietante deste trabalho não esteja na divisão entre “a favor” e “contra”, e sim na forma como o debate é estruturado. Em ambos os países, a esmagadora maioria dos argumentos é apresentada na forma de opinião direta de uma fonte – política, especialista, líder religioso, cidadão, entre outros – sem que essa posição seja verdadeiramente interrogada, contrariada ou avaliada por outras vozes no mesmo texto noticioso. Em mais de 96% dos casos, o argumento surge e fica tal como é dito. Não é confrontado. Não é testado. Não é posto em diálogo. Em Portugal, apenas 4,5% dos argumentos foram validados ou contestados. No Reino Unido, esse valor desce para 1,8 por cento.
Esta lógica cria aquilo que alguns especialistas apelidam de “polilogo assimétrico”: muitas vozes coexistem, mas falam lado a lado, sem se ouvirem. Em vez de um debate informado, temos monólogos sucessivos. O leitor passa a ser um espectador de posições isoladas, e não um cidadão convidado a acompanhar um confronto de razões. Num tema em que estão em causa direitos fundamentais, sofrimento extremo e decisões irreversíveis, esta ausência de verdadeira argumentação pública é um problema democrático.
Outra descoberta relevante tem que ver com quem fala. Nos perfis argumentativos identificados, os discursos contra a eutanásia tendem a estar mais associados a atores políticos, funcionários públicos e fontes não identificadas. Os argumentos favoráveis aparecem com maior frequência relacionados a cidadãos e fontes não identificadas. Em termos simples: o “não” soa muitas vezes com voz institucional e o “sim” surge mais frequentemente com voz social. Isto levanta uma questão incómoda. Quando abrimos o jornal, estamos a ler sobretudo o lado de quem tem poder institucional ou o lado de quem vive o problema na pele?
Portugal acrescenta ainda um outro elemento à equação. Num contexto em que a Igreja Católica mantém influência pública e em que a rede de cuidados paliativos continua insuficiente, os argumentos contra a eutanásia recorrem com frequência à ideia de proteção do doente, da sociedade, e da própria medicina. A pergunta subjacente parece ser: e se abrirmos uma porta que já não conseguimos fechar? No Reino Unido, onde o sistema de cuidados de fim de vida está mais desenvolvido e a cultura política é mais secularizada, o eixo dominante é diferente: como garantimos que a lei acompanha a realidade e protege melhor quem sofre?
Este contraste não serve para dizer que um país é mais civilizado do que o outro, nem para transformar a discussão num ranking moral. Serve, isso sim, para lembrar que os enquadramentos mediáticos nunca são neutros: selecionam temas, amplificam certas vozes, silenciam outras, definem o que é visto como problema e o que é apresentado como solução. Quando a imprensa portuguesa insiste sobretudo em argumentos de prudência e ameaça, e raramente põe em diálogo argumentos opostos na mesma peça, contribui para um clima em que o risco de abuso ocupa mais espaço simbólico do que o sofrimento concreto de quem pede ajuda para morrer.
Há, no entanto, uma boa notícia. Se o jornalismo ajuda a estruturar o debate, também pode ajudar a reequilibrá-lo. Isso não pressupõe tomar partido a favor ou contra a eutanásia. Significa fazer algo mais exigente: garantir que os argumentos que circulam no espaço público são expostos de forma clara, confrontados com evidência e colocados em diálogo com posições alternativas. Implica não se limitar a citar declarações, mas pedir contas às premissas em que essas declarações assentam. Denota, por fim, tratar o leitor como um cidadão capaz de pensar, e não apenas como um consumidor de indignações rápidas.
Para quem lê jornais, talvez a pergunta mais importante a partir deste estudo não seja “és a favor ou contra?”, mas “que vozes estão a faltar aqui?”. Estão presentes os doentes? Os cuidadores? Os profissionais de saúde que trabalham no limite dos recursos? Os especialistas em ética? Os cidadãos que pensam de forma diferente da maioria? E, sobretudo, estão presentes ao mesmo tempo, na mesma página, na mesma peça, em verdadeiro diálogo?
Não podemos exigir ao jornalismo que resolva por nós o dilema da eutanásia. Contudo, podemos e devemos exigir-lhe que não simplifique aquilo que é complexo, que não reduza aquilo que é trágico a meras guerras de posição, e que não confunda pluralidade de vozes com justaposição de monólogos. Quando estão em causa decisões de vida ou de morte, o mínimo que se pede a um espaço público saudável é que trate os argumentos com a mesma seriedade com que trata os números.
O futuro da eutanásia em Portugal e no Reino Unido dependerá das leis que forem aprovadas, mas também da qualidade do debate que fizermos até lá. A forma como os jornais – e obviamente os restantes meios de comunicação social – enquadram esta discussão é um dos lugares onde, silenciosamente, se decide quem tem direito a ser ouvido e, em última instância, quem tem direito a escolher como quer viver os seus últimos dias.
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