Há pouco tempo, neste mesmo espaço, procurei mostrar como os jornais de referência em Portugal e no Reino Unido ajudam a estruturar o debate sobre a eutanásia: quem fala, que argumentos entram em cena e quais ficam de fora. Retomo agora o tema com novos dados de investigação, publicados na Revista Mediterránea de Comunicación, e com a mesma convicção de então: a forma como informamos sobre a eutanásia diz muito sobre a qualidade do nosso espaço público e, em última instância, da nossa democracia. Para quem não leu o texto anterior, o convite fica feito. Este é o capítulo seguinte dessa conversa.
No novo artigo científico, 1731 textos jornalísticos sobre a eutanásia, publicados entre 2016 e 2024 no Expresso, Público, The Guardian e The Telegraph, foram comparados. Em vez de se olhar apenas para os argumentos a favor e contra, deteve-se nas rotinas do próprio jornalismo: quem assina as peças, que formatos dominam, quantas e que fontes são ouvidas, que termos se escolhem, que explicações e que contexto são oferecidos ao leitor. Em resumo, procurou-se perceber o que se diz, como se diz, e o que isso revela sobre as culturas jornalísticas de cada país.
À primeira vista, os resultados parecem confirmar o que a teoria prevê. Os jornais portugueses dependem muito mais de conteúdos provenientes de agências noticiosas e dão um peso maior a temas políticos e a eventos nacionais. A imprensa britânica recorre mais a textos escritos por jornalistas da própria redação e distribui a atenção por um leque mais variado de assuntos. Por outras palavras, em Portugal, lemos mais notícias produzidas “de fora da redação” e coladas ao jogo político. No Reino Unido, há mais iniciativa editorial própria e mais diversidade temática. Nada disto é surpreendente, pois encaixa na ideia de que o nosso sistema mediático é mais frágil, mais politizado e com menos recursos.
A surpresa chega quando deixamos de olhar apenas para a estrutura das redações e passamos a olhar para a qualidade da explicação. A literatura costuma sugerir que o jornalismo dos países de tradição liberal (como o Reino Unido) é, em regra, mais transparente, mais interpretativo e mais preocupado em ajudar o leitor a entender conceitos complexos. No entanto, quando se compara, linha a linha, a cobertura da eutanásia nos quatro jornais analisados, essa superioridade não aparece com a nitidez que esperaríamos. Nem na explicação dos termos técnicos, nem na contextualização legal e social, há diferenças estatisticamente relevantes entre Portugal e Reino Unido. Simplificando: em matéria de clareza e enquadramento, não estamos atrás!
Ainda assim, a simetria não significa igualdade de condições. Em Portugal, o predomínio de notícias de agência e o foco quase obsessivo na política nacional deixam pouco espaço para outras formas de contar a história. O que vemos, com frequência, é a eutanásia tratada como mais um capítulo da crónica parlamentar, filtrada por protagonistas conhecidos e agendas partidárias. No Reino Unido, a maior autonomia das redações permite mais reportagens e recebe mais cartas ao diretor, mais vozes de cidadãos. Contudo, nem sempre isso se traduz em maior escrutínio. Pelo contrário, os dados mostram que, nas notícias britânicas, há uma percentagem mais elevada de fontes não identificadas do que nas portuguesas.
Este é um dos resultados mais contraintuitivos do estudo. Esperar‑se‑ia que um sistema mediático mais consolidado garantisse níveis mais altos de identificação e transparência. A realidade é mais ambígua. Uma possível explicação é que, num tema tão sensível, a proteção da privacidade de doentes, famílias e profissionais de saúde leva a um uso mais frequente do anonimato ou de descrições vagas das fontes. Outra hipótese é que formatos de opinião e testemunho pessoal, muito presentes na imprensa britânica, recorram menos à identificação formal. Em qualquer dos casos, fica o aviso: mais anonimato não pressupõe menos ética, mas exige mais vigilância e sentido crítico por parte de quem lê.
Do lado português, o quadro também não é linear. É verdade que há menos fontes anónimas e que muitas são identificadas com detalhe: Presidentes, deputados, líderes de partido, responsáveis de ordens profissionais, entre outros. Isso não sinónimo de maior pluralismo. Pode significar apenas que continuamos presos a um círculo relativamente estreito de fontes institucionais, enquanto cidadãos, doentes, cuidadores e profissionais de base aparecem menos e com menor poder de definição da agenda. Em termos de debate público, é uma diferença importante. Ou seja, saber quem fala é só metade da pergunta. A outra metade passa por compreender quem quase nunca é chamado a falar.
Se juntarmos estes resultados aos do outro artigo do primeiro estudo do projeto Aversion2agony, que analisou a construção dos argumentos nesses mesmo textos jornalísticos, a imagem emergente é preocupante. Mostrou‑se então que, tanto em Portugal como no Reino Unido, a esmagadora maioria dos argumentos surge como opinião direta de uma fonte, raramente confrontada, interrogada ou posta em diálogo com visões alternativas na mesma peça. Agora vemos que, a montante, as rotinas de produção (tipo de fontes escolhidas, formato dos textos, recurso a agências, grau de anonimato, entre outas) ajudam a consolidar esse padrão. Falamos muito de eutanásia, mas continuamos a fazê‑lo, demasiadas vezes, em monólogos paralelos.
Nesse sentido, a reflexão deixa de interessar apenas a académicos e passa a dizer respeito a qualquer leitor. Quando abrimos o jornal, não estamos apenas a ser informados sobre o que se passa nos parlamentos, nos tribunais ou nos hospitais. Estamos a ver, em tempo real, que vidas contam como fonte legítima, que experiências são entendidas como relevantes e que visões do mundo ganham mais espaço simbólico. Em Portugal, o predomínio de vozes institucionais e a ênfase no risco e na ameaça podem empurrar o debate para uma lógica de medo e prudência permanente. No Reino Unido, a maior visibilidade de histórias pessoais e de reivindicações de autonomia pode aproximar mais o debate da experiência concreta de quem sofre, mas corre o risco de simplificar conflitos morais complexos em narrativas de escolha individual.
Tal como escrevi no texto anterior, não se trata de pedir ao jornalismo que resolva o dilema da eutanásia em nosso nome. Trata‑se de exigir que não fuja à sua responsabilidade mais básica, a de criar condições para que o debate seja informado, rigoroso e plural. Isso passa por ir além da transcrição de declarações, por cruzar dados com testemunhos, por pôr em contacto argumentos que raramente aparecem lado a lado. Passa também por reconhecer que, num tema que mexe com o fim da vida, não basta ouvir os protagonistas habituais. Torna-se premente dar lugar a quem, muitas vezes em silêncio, carrega o peso das decisões.
Ao leitor, talvez caiba um exercício simples, mas decisivo, quando se deparar com mais um texto jornalístico sobre a eutanásia em Portugal, no Reino Unido ou noutro país qualquer. Em vez de se limitar a perguntar “sou a favor ou contra?”, pode começar por perguntar: “quem fala aqui, quem não fala, que termos se usam, que contexto se oferece?”. E, se tiver curiosidade, pode regressar ao primeiro texto publicado na VISÃO e acompanhar, ao longo desta série de textos, como a investigação vai acrescentando camadas a um debate que está longe de encerrado.
As leis sobre a eutanásia em Portugal e no Reino Unido continuarão a ser disputadas em parlamentos, tribunais e eleições. No entanto, uma parte silenciosa dessas decisões joga‑se todos os dias nas redações e nas páginas dos jornais. Aí define-se quem tem direito a ser ouvido quando se fala de dor, de medo, de dignidade e de liberdade. Se o jornalismo aceitar olhar para si próprio com a mesma exigência com que olha para o poder político, talvez consigamos, coletivamente, discutir a morte com a seriedade que a vida merece.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.