A ameaça do regresso das tarifas como instrumento central da política económica internacional, mais do que um déjà-vu histórico, é um sinal claro de que o mundo entrou numa fase mais dura, mais transacional e menos previsível. As tarifas deixaram de ser um detalhe técnico do comércio internacional para se tornarem uma arma geopolítica explícita.
A tentação de as encarar como uma ferramenta eficaz de proteção económica é grande, sobretudo em contextos eleitorais. Mas essa narrativa ignora uma distinção essencial. Nem todas as tarifas têm o mesmo efeito.
Tarifas aplicadas ao produto final podem, em teoria, beneficiar produtores nacionais, desde que exista capacidade instalada, escala e competitividade para substituir rapidamente as importações. Sem essa capacidade de resposta, o efeito imediato é simplesmente inflação para o consumidor.
Mais problemáticas ainda são as tarifas sobre bens intermédios, que hoje representam uma parte substancial do comércio internacional. Numa economia organizada em cadeias de valor globais, taxar componentes, matérias-primas ou outros inputs industriais significa aumentar diretamente o custo de produção das próprias empresas nacionais. Um resultado que é paradoxal, pois medidas anunciadas como forma de defesa da indústria acabam por diminuir a sua competitividade no produto final, quer no mercado interno, quer nas exportações.
A ideia de que tarifas “protegem” a economia nacional parte de um modelo ultrapassado, onde as cadeias de valor eram curtas e essencialmente domésticas. Hoje, qualquer barreira comercial propaga-se pela inflação, pelo custo do capital, pela quebra do investimento e pela desorganização produtiva. O impacto é mais profundo, mais persistente e muitas vezes autoinfligido.
É neste contexto que a Europa enfrenta um dilema incómodo. Depende fortemente do mercado norte-americano, mas não controla o rumo político de Washington. Uma retaliação tarifária clássica pode satisfazer o instinto político, mas dificilmente serve os interesses económicos europeus. Copiar o erro não o corrige.
A resposta europeia tem de ser mais sofisticada, menos emocional e mais estratégica. Em vez de uma guerra de tarifas, a União Europeia deve explorar instrumentos que reflitam o mundo real em que vivemos: políticas industriais inteligentes, uso criterioso de instrumentos financeiros, diversificação séria de parceiros comerciais e uma abordagem mais assertiva à sua autonomia económica. Isto exige coordenação, coragem política e uma visão que vá além do ciclo eleitoral.
Mas há um ponto ainda mais relevante neste debate. O mundo já não é apenas um tabuleiro dominado por duas superpotências. Entre os EUA e a China, existe um conjunto alargado de países e blocos económicos, as chamadas middle powers, que partilham interesses, valores e vulnerabilidades. A Europa é o exemplo mais óbvio, mas não está sozinha.
A ideia de que estes países podem e devem cooperar mais estreitamente não é idealismo. É realismo estratégico. Ao reforçar alianças económicas, cadeias de valor partilhadas e normas comuns, estas economias intermédias podem reduzir dependências excessivas e ganhar margem de manobra num mundo cada vez mais fragmentado.
O erro seria pensar que isto significa recuar na globalização. Pelo contrário. Trata-se de a tornar mais resiliente, menos ingénua e menos dependente de decisões unilaterais tomadas a milhares de quilómetros de distância.
As tarifas são um sintoma, mas não a solução. Revelam insegurança, não força. A Europa tem agora uma escolha clara: ou reage taticamente a cada ameaça ou assume, finalmente, uma estratégia económica à altura do seu peso político e económico. O custo de não escolher pode ser bem maior do que qualquer tarifa.
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