Esta semana despedimo-nos de um Presidente para consagrar outro. O ritual presidencial da democracia que se tem repetido de dez em dez anos.
O mandato de cada Presidente é reflexo da sua personalidade e é intérprete distinto dos poderes constitucionais atribuídos à Presidência. Além da personalidade, também e a origem politica e a legitimação eleitoral têm determinado o rumo, em face das crises que, inevitavelmente, surgem.
Marcelo Rebelo de Sousa começou discreto, empolgou popularidade e afetos, termina, injustamente, pouco amado. No entanto, durante os seus mandatos, foi confrontado com desafios complexos e novos, onde pandemia e os incêndios de Pedrógão ocuparam um lugar exponencial e a convivência com António Costa se mostrou, no mínimo esdrúxula, na dimensão de duas maiorias absolutas dos governos deste: a de uma geringonça mal cerzida e uma maioria eleitoral mal acabada.
De coabitação sorridente a saída de sendeiro, os oito últimos anos de governação socialista gastaram o que receberam de governo anterior, deram mostras de táticas sucessivas e estratégia inexistente. E na sequência de escândalos socialistas sucessivos e modos de prepotência autoritária, uma última insinuação provocou eleições, mudou o panorama político, inverteu a tendência política do seu mandato até então.
Marcelo, de braço dado com os afetos, manteve os governos de rédea curta, mesmo quando os mesmos transitaram de espectro partidário. Em exercício de proximidade controlou tempos, diplomas e decisões políticas. Deixava avisos, espalhava vetos, condicionava legislação e agentes políticos.
Numa interpretação larga dos poderes constitucionais, pôs em sentido governantes e deputados. E mesmo quando atacado por eventual intervenção indevida, saiu sem mácula no processo, onde estava a ser usado para fins confessadamente políticos.
Registei, durante toda a Presidência, um reflexo do que tem sido a sua vida pública. Inteligente, sagaz, cauteloso sem estar calado. A gestão dos silêncios nunca foi seu apanágio. E a imagem que construiu durante anos de presença pública, deu rede ao exercício de funções.
Foi um Presidente diferente dos seus antecessores. Presente, tão próximo quanto possível e, distante quanto necessário. Na Presidência encontrou o respaldo do seu individualismo. Mas encontramos uma vontade de deixar marca pela qual venha a ser recordado. Por vezes quase rei. De entre os poderes presidenciais que ensinava em direito constitucional Marcelo foi o Presidente “mediador da República” entre instituições, comunidades e interesses na sociedade portuguesa. E isso não é de desprezar.
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