Quantas vezes recebemos sugestões através de aplicações e emails que parecem ser as mais indicadas para nós naquele momento? É como se um amigo próximo estivesse sempre atento e nos guiasse sempre que precisássemos. Aos poucos, corremos o risco de deixar que essa espécie de magia afetuosa nos determine as escolhas e preferências sobre o que comer, o que ouvir, o que ver, o que ler, e por aí fora.
Estamos cada vez mais rodeados de algoritmos, ou seja, de conjuntos de regras bem definidas que pretendem resolver um problema. Os nossos telefones e computadores, potenciados ainda mais pela Inteligência Artificial (IA), vão aprendendo os nossos padrões, refinando assim as suas respostas às nossas necessidades e anseios. A conveniência é clara: quem nunca terá dito, “hoje não me apetece pensar, escolhe tu”? Em última análise, podemos até libertar-nos de toda a agência e deixar que essas predições nos definam enquanto pessoas. Qual o limite?
Nada disto é novo, mesmo com a IA, pois vai ao mais básico que há na natureza humana. Conceitos como atenção e perceção, emoção e motivação, memória e tomada de decisão são sobejamente conhecidos pela Psicologia e pela Neurociência há muito tempo. O Neuromarketing, por exemplo, é um campo de estudo que surgiu na última década do século passado que pretende compreender como é que a nossa mente e cérebro reagem a estímulos que influenciam decisões de compra. Ao aliar tecnologia médica, como ressonâncias magnéticas e eletroencefalografias, aos conceitos de marketing e desenvolvimento de negócios, é possível testar anúncios, avaliar preferências e definir preços sem precisar de respostas explícitas das pessoas.
Afinal, a larga maioria dos nossos processos mentais são inconscientes, com muitas decisões a surgir mesmo antes de as pensarmos de forma consciente. Talvez tenha sido a cor, a memória associada, um cheiro, um conjunto de palavras – a verdade é que, por muito que tentemos justificar depois através do raciocínio lógico, a origem da escolha foi mais profunda e mais misteriosa do que imaginamos. Há aqui um potencial negativo para manipular e enganar, por exemplo, ao aproveitar estes mecanismos para efeitos de personalização exploratória para explorar as vulnerabilidades e medos de cada um. Por outro lado, surge também a oportunidade para melhor conhecermos a natureza humana para protegê-la e guiá-la, de um modo construtivo e participativo, ao seu máximo potencial.
À medida que a IA e os algoritmos se impõem cada vez mais nas nossas vidas, é necessário responder com mais conhecimento e melhor formação em áreas como a Neurociência. Ao fim e ao cabo, o nosso cérebro é o último reduto da nossa realidade e o mestre que deve estar sempre no comando. Por muito útil que o algoritmo seja, é apenas um emissário. Não podemos permitir que seja um usurpador.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.