Quando dei por mim a abraçar a Dona Constança (imaginemos que se chamava assim), fiquei sem saber exatamente o que pensar. A Dona Constança já tinha uma certa idade, tinha o filho emigrado na Escócia e tinha problemas de saúde que precisavam de ser resolvidos com urgência.
Em Portugal, o tempo de espera para ser vista por um médico era demasiado longo e, se fosse operada, quem cuidaria dela se o seu filho, única família que tinha, estava emigrado? Confessou-me que tinha apanhado o avião sob o pretexto de ir visitar o filho mas com o verdadeiro intuito de ser atendida pelo serviço de saúde escocês. Como o filho não podia ou não queria tirar o dia para ir com a mãe ao hospital, fui chamado como intérprete para a ajudar.
Ela olhava para mim assustada, rodeada de gente que falava uma língua que ela não entendia, semi-despida em frente a estranhos, enquanto lhe espetavam uma agulha na coluna. Chorou e agarrou-se a mim como se fosse neto dela, e disse: “Ai o meu rico Portugal…”
O Senhor António (faz de conta) vivia há muitos anos na Escócia. Espancava a mulher com frequência, passava as noites a gastar o pouco dinheiro que tinha em bebida e assediava as enfermeiras quando ia ao hospital tratar da sua diabetes. O Senhor António não confiava nos médicos porque eles diziam querer salvar-lhe o pé e ele sabia do caso de um homem que perdeu um pé e teve direito a subsídios do Estado.
Não contava alguma vez voltar para Portugal porque tinha ali tudo o que queria: uma casa e dinheiro para o hábito. Os filhos já há muito o tinham abandonado.
A Dona Alice (que também não se chamava Alice), por outro lado, tinha uma vida bem diferente. Vivia numa pequena aldeia remota na Escócia com os seus dois filhos de nove e seis anos. Deixava-os todos os dias a dormir e saía para trabalhar às 4:30 da manhã. Tinha de apanhar o autocarro que demorava uma hora desde a aldeia onde conseguia pagar um apartamento até à fábrica onde trabalhava.
Os filhos não gostavam da escola, era coisa que já levavam de Portugal. Ali, naquela aldeia, num sítio que lhes era completamente estranho e onde eles eram os únicos estrangeiros, era ainda pior. Faltavam frequentemente à escola e o mais velho já começava a ter encontros com o álcool.
Traduzi as ameaças da diretora da escola sobre chamar os serviços sociais enquanto a Dona Alice me segredava: “E o que é que eu faço? Despeço-me para os obrigar a ir à escola?”
Talvez por conhecermos bem o que é ser forasteiro, causa espanto a facilidade com que esquecemos essa experiência quando o estrangeiro é o outro que chega cá.
Parece haver um processo dissociativo quando os portugueses falam de emigrantes. Serão poucos os que, mesmo não tendo experiência direta de um processo migratório, não têm na sua família ou no seu círculo de amigos quem não tenha essa experiência.
Quando achámos que estávamos a conseguir deixar de ser “um país de emigrantes” e até já tínhamos elevado a desporto nacional o “tiro ao ça va”, lá nos calhou na rifa, e à boleia dos anos da troika, o grande azar de nos tornarmos de novo num país de emigrantes.
Ora, num país onde os trabalhos qualificados escasseiam e são mal pagos, a consequência lógica é tornarmo-nos num país de emigrantes e, simultaneamente, num país de imigrantes. Normalizar a emigração e diabolizar a imigração é uma ginástica que não está ao alcance de todos. Mas como é que essas Nadias Comaneci da política o fazem?
Primeiro, lançam um ataque preventivo, do género daqueles que estão na moda. Antes de dizerem as maiores alarvidades já se estão a queixar de que vão ser apelidados de racistas e fascistas. É uma estratégia que tem vindo a alterar, com muito sucesso, o perímetro do que é considerado “normal” e “aceitável”. Ao mesmo tempo que passa a ser normal um discurso que não o era, passa a ser inaceitável atacar esse discurso. É uma estratégia que mata a discussão à partida, porque uma discussão que não existe é uma discussão que não se pode perder.
Em Portugal, o discurso xenófobo passa pelos pingos da chuva com alusões vagas a aspetos específicos dos “outros”. O cheiro, por exemplo, ocupa aqui um lugar central que merecia ser estudado pela Psicologia. Não tenho idade para ter combatido na guerra colonial, mas tenho idade para ter assistido com naturalidade a conversas em que se falava do “cheiro deles que, atenção, eu não sou nada racista, mas é um cheiro muito particular!”
Nas redes sociais correm textos fantasiosos de portugueses de gema que, coitados, já não podem sair de casa sem levar com “aquele cheiro”, sendo que se referem apenas a cheiros de ingredientes aos quais não estão habituados. O cheiro é simbólico de uma invasão de gentes que não respeitam a cultura de quem os acolhe, mas essa sensação de invasão só poderia ser evitada através da completa invisibilidade de todos os que exibem diferenças em relação ao que entendemos como padrão.
Foi e é assim também com homossexuais, por exemplo, que têm sido sempre acusados de serem demasiado espampanantes a não ser que sejam totalmente invisíveis.
Ao mesmo tempo, há a ideia de que os portugueses não são assim, os portugueses respeitam. Lembro-me de, num período em que tive de trabalhar num call-center no estrangeiro, ter tido uma conversa com uma pessoa que dizia já ter encontrado um português e que ele era conhecido por levar almoço de peixe todos os dias, empestando o escritório. Somos um bocado como aquele membro da família que acha que só cheira mal quando são os outros que vão à casa de banho.
O contorcionismo resulta na medida em que vende os portugueses como essencialmente bons e respeitadores e os outros como essencial e irremediavelmente diferentes. Cada exemplo de português “bem sucedido” é erguido como prova da nossa natureza boa e cada exemplo de estrangeiro transgressor como simbólico de um perigo que nos espera.
Esta ideia pode ser vendida à boleia do jargão mais conservador, dizendo que as pessoas precisam de ser integradas e se escolhermos os que são mais parecidos connosco (sem nunca explicitar quem é esse “nós”) até estamos a fazer um favor aos que são mais diferentes, porque não se iriam sentir bem aqui.
Mas é uma ideia que também se vende bem utilizando uma terminologia mais condizente com o novo espírito do tempo capitalista e empreendedor, explicando que, no fundo, se trata de deixar de fora aqueles que precisariam de mais recursos dos contribuintes para poderem ser verdadeiramente produtivos.
Em alternativa, também pode ser vendida à bruta dizendo de forma mais ou menos encapotada que eles são todos criminosos, querem é vir para aqui viver às nossas custas e impor-nos o seu modo de vida.
Cada qual vai-se deixando seduzir pelo discurso com que se sente mais confortável e que lhe permite manter de si uma imagem de pessoa empática, racional ou patriótica. Mas, de uma ou de outra forma, a mensagem é rigorosamente a mesma e assenta numa ideia de um nós essencialmente bom e um eles essencialmente indesejável.
Quanto a mim, como dizia o José Mário Branco, não foi por vontade nem por gosto que deixei a minha terra, vi demasiada gente entalada entre a uva e o mosto para conseguir olhar para o mundo assim.
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