Tenho a alegria de ser da geração que deixava o sapatinho na chaminé, na esperança de, na manhã de Natal, receber um presente. Cresci a associar o Natal a uma espera quase sagrada. Não do objeto em si, mas da surpresa, do mistério, do tempo suspenso entre a noite e a manhã. O presente era importante, claro, mas não era o centro. O foco era o ritual: ir em busca do pinheiro (na época, natural), colher o musgo para construir o presépio, acender as luzes, guardar a melhor abóbora para cozinhar os bilharacos. Havia menos coisas, mas mais tempo, mais presença.
Hoje, o Natal parece começar quando ainda nem sentimos o frio do outono. As superfícies comerciais são exímias na promoção da compra, com ilusórios descontos, atropelando valores e desfazendo o sentido da época. Começa nas montras, nos anúncios insistentes, nos lembretes digitais que nos dizem que estamos atrasados. A lógica da urgência tomou conta de uma época que, paradoxalmente, deveria ensinar-nos a esperar. Atropelamos o Advento, comprimimos semanas de preparação em listas de compras e transformamos a ideia de generosidade numa equação de consumo.
Um dos grandes atropelos desta época é precisamente este: confundirmos dar com comprar, como se o valor do afeto pudesse ser medido pelo preço, pela quantidade ou pela novidade do presente. Esquecemo-nos de que dar implica atenção, entrega, escuta. Comprar é rápido; dar exige tempo. E tempo é, talvez, aquilo que menos estamos dispostos a oferecer.
Outro atropelo frequente é o da agenda cheia. Jantares de Natal sucessivos, compromissos sociais acumulados, encontros que se tornam quase obrigações. Corremos de um lado para o outro em nome da celebração, mas chegamos cansados demais para celebrar seja o que for. Falamos de família, mas mal nos ouvimos. Falamos de união, mas estamos mentalmente ausentes, com o telemóvel na mão, a responder a mensagens que não podem esperar, a contar os likes de cada post, como se tudo fosse mais urgente do que estar ali.
Também atropelamos o silêncio. O Natal, para muitos, é uma época ruidosa, cheia de música de fundo constante, de luzes que encandeiam, de distrações que nos impedem de estar connosco próprios. No entanto, o silêncio sempre foi parte essencial desta celebração: para lembrar quem falta à mesa, para reconhecer fragilidades, para fazer balanços que evitamos durante o resto do ano. Fugimos dele porque nos confronta, mas talvez seja exatamente isso que o Natal pede e nos faz, realmente, falta.
Há ainda o atropelo mais (in)visível: enquanto discutimos excessos à mesa, há quem não tenha mesa. Enquanto reclamamos do trânsito ou das filas, há quem atravesse esta época em solidão profunda. O Natal expõe desigualdades de forma quase cruel, mas fomos aprendendo a olhar para o lado e preferimos a narrativa confortável da “magia” à realidade incómoda de quem vive à margem e sem voz.
Não quero com isto mostrar uma nostalgia ingénua nem idealizar um passado perfeito. Cada geração vive o Natal à sua maneira, e isso é natural. O problema surge quando perdemos completamente o sentido daquilo que celebramos. Quando a forma engole o conteúdo. Quando o brilho das luzes nos impede de ver o essencial.
Talvez o Natal precise menos de ser reinventado e mais de ser resgatado. Resgatado do calendário comercial, da pressa coletiva, da obrigação de felicidade permanente. Talvez precise de menos coisas e de mais gestos simples: uma conversa sem interrupções, um pedido de desculpa adiado, uma presença real. Talvez precise de reaprender a esperar, como quem deixa um sapatinho na chaminé, não por ingenuidade, mas por esperança.
Num tempo em que tudo é imediato, o Natal pode ser um raro exercício de desaceleração. Se tivermos a coragem de não atropelar o tempo, os outros e a nós próprios. Se aceitarmos que o mais valioso desta época não cabe numa caixa nem se embrulha em papel brilhante. Talvez seja isso, afinal, que eu continuo a esperar todas as manhãs de Natal: não um presente concreto, mas a possibilidade de que, por um dia, consigamos ser um pouco mais atentos, menos apressados e mais humanos.
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