Acredito que Gaza, mais do que visibilidade, precisa de respostas. As notícias sobre o conflito surgem diariamente. Quem se interessa, informa-se; quem não quer saber, continuará indiferente. O simples facto de o nome “Gaza” aparecer nas manchetes não torna as pessoas mais alerta. O que precisamos é de mobilizar os conscientes — dar-lhes informação credível, meios concretos de agir e oportunidades para fazer a diferença. É apelar a quem se importa, a quem acredita que a solidariedade não se mede por palavras, mas por gestos.
Porque quem vive em Gaza está demasiado ocupado a tentar sobreviver — com fome, doença e medo — para pedir o fim da guerra. Eles não pedem debates políticos, pedem socorro.
Fala-se muito em visibilidade, mas pouco se apela à ação: apoiar ONGs e associações humanitárias que, todos os dias, procuram brechas no bloqueio para fazer chegar alimentos, medicamentos e esperança.
O foco deve estar sempre nas pessoas. Não falo apenas da população palestiniana. Falo também dos cidadãos israelitas que sofrem e morrem. Em qualquer guerra, a humanidade é sempre a primeira vítima. Por isso, devemos lutar pelas pessoas, não pelos discursos. Dar respostas reais a quem quer ajudar — e não usar o sofrimento humano como palco político.
Claro que devemos continuar a lutar por uma ação diplomática mais firme. Mas é essencial reconhecer o quão complexas são as relações e negociações internacionais — algo que poucos compreendem verdadeiramente. É fácil exigir soluções imediatas; difícil é compreender os limites reais da diplomacia e do Direito Internacional.
A verdade é que os tribunais internacionais continuam limitados pela falta de reconhecimento e de submissão efetiva dos Estados. Estes tribunais representam o esforço mais visível do Direito Internacional em impor responsabilidade, mas a sua força é ainda frágil — e a sua atuação depende da vontade política dos Estados. Mesmo assim, são fundamentais. Cada decisão, ainda que simbólica, recorda ao mundo que a impunidade não pode ser regra e que a justiça, mesmo quando tardia, é necessária.
O Direito Internacional evoluiu muito, mas só evoluirá plenamente com a presença de líderes e cidadãos que sejam sensatos, éticos e honestos, pessoas capazes de agir pelo que é justo, e não pelo que é conveniente. Infelizmente, vivemos numa era em que o poder é muitas vezes usado como escudo, e não como responsabilidade. Em que se confunde protagonismo com coragem e visibilidade com impacto.
O progresso do Direito Internacional depende de consciência coletiva e da humildade institucional. De pouco serve criar normas se os próprios criadores não se dispuserem a respeitá-las. O verdadeiro avanço será quando a lei não depender da força, mas a força depender da lei. Acredito que a mudança começa em cada um de nós. Que a justiça global não nasce de gestos dramáticos, mas de trabalho silencioso, informado e ético. E que fazer a diferença não é falar mais alto, mas agir melhor.
Também a União Europeia enfrenta um dos maiores desafios da sua política externa ao lidar com o conflito israelo-palestiniano.
Historicamente, sabe-se que um antigo estado-membro — o Reino Unido — teve um papel determinante na origem deste conflito. Com o Mandato Britânico da Palestina, a Inglaterra, então marcada por intensos fluxos migratórios de comunidades judaicas, decidiu promover o seu assentamento num território declarado palestiniano. Assim, para que uma população encontrasse um lar, outra acabou por perder o seu.
Compreender o presente exige, portanto, revisitar a História — e reconhecer a complexidade dos líderes e das forças em ambos os lados. A Palestina continua, em grande parte, vinculada ao Hamas, uma milícia armada e terrorista que exerce poder político e militar no território. Surge então o dilema: como reconhecer o Estado da Palestina se o seu governo efetivo está ligado a uma força armada que não respeita o Direito Internacional Humanitário? Mas, ao mesmo tempo, como não reconhecer um território que, historicamente, sempre lhe pertenceu?
Esta contradição revela a dificuldade da comunidade internacional — e da própria União Europeia — em agir de forma coerente e eficaz. A UE encontra-se perante um impasse: por um lado, defende a autodeterminação dos povos e o respeito pelo Direito Internacional; por outro, não pode ignorar o controlo do Hamas sobre parte do território e a ameaça constante à segurança de civis, israelitas e palestinianos.
Para além disso, surge outra questão inevitável: e o povo israelita? Aquele que, ao longo da história, foi perseguido, exilado e rejeitado, caminhando de um lado para o outro do mundo porque poucos o quiseram acolher. Onde fica o seu direito a existir em segurança? Também ele carrega séculos de dor, medo e desconfiança.
O desafio, portanto, não é escolher um lado, mas compreender ambos. É reconhecer que, entre a luta por território e a busca por segurança, estão vidas humanas que pagam o preço das decisões políticas e das falhas diplomáticas.
Acredito que o Direito tem ainda muito para desenvolver, crescer, e que hoje em dia é mais necessário do que nunca para impor regras, criar limites e ser capaz de vincular consequências.
Contudo, quanto mais se estuda, mais se percebe o quão difícil, confuso e delicado é fazê-lo. Pergunta-se muitas vezes o que se quer mudar e o que se pode mudar — e isso é fácil de responder. O que raramente se pergunta é como se vai mudar dentro da lei,da responsabilidade e da boa-fé.
As guerras também mudaram, tornaram-se narrativas mediáticas: manchetes, versões, julgamentos apressados. As pessoas posicionam-se e mudam de posição conforme o que ouvem ou leem. A quantidade absurda de informação, muitas vezes contraditória, impede a formação de uma opinião sólida e informada. E no meio desse ruído, esquecem-se as pessoas.
E o que se pode fazer?
Na prática, pouco. Ninguém sabe a solução. Se alguém soubesse, já a teria aplicado. O sistema jurídico internacional está cheio de brechas, e muitos Estados aprenderam a contorná-las. Ainda assim, é precisamente essa fragilidade que torna o esforço pela paz tão urgente.
A procura pela paz será sempre um trabalho ingrato— mas enquanto houver quem acredite, quem tente e quem lute por ela, o Direito continuará a ser o lembrete de que o mundo ainda tem salvação.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.