A Covid- 19 parece ter aliviado a sua pressão sobre nós. Nos últimos 14 dias registamos 71,9 casos por 100 mil habitantes (ECDC, 25 de março), de longe o melhor resultado ao nível dos países mais ricos da Europa (EU a 15). De forma semelhante, na mortalidade estamos hoje no 4º lugar, com 21,3 óbitos por 100 mil habitantes, valor só superado pela Dinamarca, Finlândia e Suécia. Estes bons resultados não nos devem, todavia, deixar descansados, porque o vírus continua por aí e pode, de novo, rapidamente explodir. Há razões para apreensão.
- O controlo da incidência
Portugal não tem sido particularmente eficaz no controlo do contágio desde o princípio (março de 2020). Foi dos países em que o vírus galopou com mais velocidade, e o panorama que vivemos no passado mês de janeiro demonstrou-o à saciedade. Temos falhado na deteção precoce dos contagiados e no seguimento de contactos, o que acarreta descontrolo na mitigação. Só quando o Estado toma severas medidas de confinamento é que o vírus recua e nos deixa um pouco em paz. Por estas razões, somos, na Europa a 15, o país com a maior incidência acumulada, já com mais de 8% da nossa população infetada, contra 7% em Espanha, na casa dos 6,5% em França ou Reino Unido, 5,7% em Itália ou 3,2% na Alemanha. O comportamento das pessoas, as piores condições de habitação ou dos transportes coletivos, poderão explicar parte deste insucesso. Neste cenário, todos percebemos que o confinamento é a única medida eficaz para combater o vírus e que, quando as medidas abrandam é provável que haja um novo recrudescimento na incidência. Aproxima-se a data crítica de 19 de abril, em que as escolas voltarão a abrir em pleno, as grandes superfícies reabrirão portas e os restaurantes também. Os efeitos deste desconfinamento só começarão a ser visíveis no final do mês de abril, princípios de maio, e esperemos não entrar, então, na 4ª vaga.
- Os problemas da vacinação
O plano de vacinação, com muitas omissões e prioridades confusas, não tem funcionado bem desde o princípio. As falhas dos fornecedores vieram complicar a situação e hoje temos apenas cerca de 500 mil portugueses totalmente vacinados, num contexto de 1,4 milhões de vacinas administradas. A este ritmo demoraríamos cerca de 5 anos para vacinar toda a população. A comissão de coordenação ambiciona acelerar o processo, passando para uma cadência diária de 60 mil vacinas administradas, em abril, e 100 mil em maio e junho, no sentido de podermos ter cerca de 9,2 milhões de doses administradas até ao final do primeiro semestre. Serão perto de 5 milhões de portugueses totalmente vacinados, tendo em conta que a vacina da Jansen é de apenas uma toma.
O plano de vacinação enferma de várias falhas que podem comprometer o combate contra o vírus: apenas temos vacinada 30% da população com mais de 80 anos (a que corre muito mais riscos de morte e de internamento hospitalar); no grupo etário entre os 65 e os 80 anos o número de vacinados é de apenas 2,6%, valor inferior ao verificado entre a população com idade compreendida entre os 25 e os 65 anos, o que deixa transparecer uma inversão grosseira das prioridades face ao risco; a chamada dos utentes para vacinação deixa de fora muitos portugueses inscritos e não inscritos nos centros de saúde, por variadíssimas razões, o que põe em causa a coerência de todos o processo e cria iniquidades intoleráveis.
Parece evidente que com a chegada de mais vacinas, a confirmar-se, será necessário passar-se a um novo modelo de vacinação, massivo, por segmentos etários, com novos espaços públicos de dimensões consideráveis e horários contínuos de 12 ou 14 horas por dia, 7 dias por semana. Os cidadãos comparecerão espontaneamente de acordo com o grupo etário que estiver a ser vacinado, exceto pessoas acamadas, muito idosas ou com fortes dificuldades de locomoção que deverão ser vacinadas em casa.
Só deste modo aceleraremos todo o processo e conseguiremos cumprir o que a equipa de coordenação ambiciona até ao final de junho.
Neste contexto de dificuldades e alguma imprevisibilidade, não devemos baixar a guarda quanto à possibilidade de uma 4ª vaga de Covid antes do início do verão. Todo o esforço de saúde pública, na testagem de grupos de risco, rastreio de contactos e inquéritos de seguimento epidemiológico, será bem-vindo e determinante para mitigarmos a expansão do vírus. Não temos, infelizmente, grande esperança de que as vacinas nos permitam libertarmo-nos do vírus tão depressa. Toda a cautela é pouca!