O que hoje define a Europa não está apenas nos seus planos: está numa fila. Mais de 2.500 gigawatts de projetos energéticos aguardam ligação às redes elétricas em todo o mundo, segundo a Agência Internacional de Energia, num momento em que Bruxelas promete liderar a Inteligência Artificial, reindustrializar-se, eletrificar a economia e reforçar a defesa.
O continente que se prepara para decidir o futuro digital ainda não resolveu um problema muito mais concreto: como fazer chegar electricidade em quantidade e velocidade compatíveis com as necessidades de quem dela depende.
Esta não é uma questão de atraso técnico, mas de poder. Uma economia pode depender do exterior sem perder capacidade de decisão. A vulnerabilidade começa quando o fornecimento está concentrado, não existe substituto disponível a curto prazo e o recurso em causa é indispensável ao funcionamento de sectores inteiros. Nesse ponto, o preço deixa de ser a única variável relevante. Passam a importar a disponibilidade, a velocidade de substituição e, sobretudo, quem controla o acesso.
A Inteligência Artificial tornou este mecanismo particularmente visível. Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, alertou para o risco de a Europa ficar excessivamente dependente de sistemas de IA desenvolvidos fora do continente e defendeu o reforço da capacidade europeia de computação e infraestrutura.
O problema, porém, vai muito além do algoritmo. Está nos chips avançados, nos centros de dados, na eletricidade necessária para os alimentar, nas redes que transportam essa energia e nas matérias-primas que sustentam toda a cadeia. É aí que a promessa digital encontra a realidade física.
A Agência Internacional de Energia estima que a procura de eletricidade da União Europeia deverá crescer cerca de 300 terawatts-hora até 2030, impulsionada pela indústria, pelos veículos elétricos, pela eletrificação dos edifícios e pela expansão dos centros de dados. O problema não é apenas produzir essa energia. É conseguir transportá-la. As redes tornaram-se um dos principais estrangulamentos da nova economia elétrica: expandir uma linha ou construir uma infraestrutura de transmissão pode demorar muito mais do que instalar um centro de dados ou desenvolver um novo projeto industrial.
O resultado é uma contradição difícil de ignorar. Um país pode ter capital, terreno, tecnologia e energia renovável disponível e, ainda assim, não conseguir concretizar um investimento estratégico porque a rede não tem capacidade para o receber. A economia digital tornou-se dependente de ativos que não são digitais, e essa dependência altera a própria natureza da competição económica.
Bruxelas sabe disto. A Comissão Europeia coloca energia acessível e redução de dependências externas no centro da sua agenda de competitividade, mas persegue-as ao mesmo tempo que avança com descarbonização, digitalização, reindustrialização e reforço da defesa — quatro transformações que disputam os mesmos recursos escassos: eletricidade, redes, matérias-primas e capital.
O impasse é particularmente evidente no mercado elétrico europeu: sem maior integração, a fragmentação energética e os custos da eletricidade podem limitar a capacidade do continente de transformar investimento tecnológico em escala. A questão deixa de ser quanto a Europa investe em tecnologia. É se consegue criar as condições materiais para que esse investimento produza escala.
O relatório de Mario Draghi, antigo presidente do Banco Central Europeu, já identificara a dependência tecnológica e energética como vulnerabilidades estruturais da economia europeia. O problema não é que a Europa importe demasiado — nenhuma grande economia moderna produz internamente tudo aquilo de que necessita. O problema surge quando uma dependência essencial não pode ser substituída em tempo útil.
O verdadeiro problema europeu não está nas dependências, mas na falta de capacidade para as substituir em tempo útil. Essa diferença separa abertura de vulnerabilidade.
Importar semicondutores, minerais críticos ou serviços de computação não elimina a autonomia económica. Mas depender de um pequeno número de fornecedores para recursos indispensáveis, sem alternativas credíveis, reduz a margem de escolha precisamente quando ela é mais necessária.
É por isso que a política industrial ganhou uma dimensão geopolítica: decidir de onde vêm os chips, quem fornece as matérias-primas, onde se instalam os centros de dados ou quem controla as redes deixou de ser apenas uma questão de eficiência empresarial para se tornar uma questão de resiliência e, em sectores críticos, de segurança estratégica.
Portugal ilustra este dilema em escala menor, e Sines, no litoral alentejano, tornou-se o seu exemplo mais visível. A expansão do centro de dados da Start Campus, com chips da Nvidia e parcerias envolvendo Microsoft e Nscale, alimentada por energia renovável produzida em território nacional, coloca o país dentro de uma cadeia tecnológica de enorme dimensão. Mas a presença física de uma infraestrutura não equivale a deter poder sobre ela.
O verdadeiro ativo não é o edifício, nem sequer a eletricidade que o alimenta. É a posição que Portugal ocupa dentro da cadeia de valor que essa infraestrutura sustenta. Um centro de dados pode erguer-se em solo português, consumir energia produzida em Portugal e, ainda assim, deixar grande parte do valor económico — capital, tecnologia, operação e serviços de maior valor acrescentado — nas mãos de decisores estrangeiros.
A pergunta que Lisboa deveria fazer a cada novo projeto não é apenas quanto investimento chega. É que fatia dessa cadeia o País efetivamente ocupa: que empresas nacionais entram no fornecimento, que conhecimento fica retido, que competências são criadas e que capacidade de decisão permanece em território português. É aqui que a oportunidade portuguesa encontra o seu verdadeiro teste: atrair infraestrutura é importante, mas transformá-la em capacidade própria é outra coisa.
A Europa enfrenta exatamente o mesmo desafio, em escala continental. Produto interno bruto, exportações e produtividade continuam indicadores fundamentais, mas já não contam toda a história do poder económico. Capacidade de computação, energia disponível, redes, semicondutores e matérias-primas críticas passaram a ter peso próprio na equação — não porque substituam os indicadores tradicionais, mas porque condicionam a capacidade de uma sociedade os sustentar no tempo.
A verdadeira competição já não se limita às empresas. Estende-se aos sistemas capazes de garantir os recursos essenciais ao seu funcionamento. Não é necessário controlar tudo aquilo que importa para a atividade económica, mas assegurar que nada de que não se pode prescindir fica inteiramente fora do alcance. É essa margem de escolha — e não a ausência de ligações ao exterior — que determinará quanto do futuro continuará nas mãos dos europeus.
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