Tendas, rendas, bastão, repressão, opressão, muita manipulação… mas o tema é HABITAÇÃO. Foi com esta frase na cabeça que acompanhei o que se passou esta semana no Porto. A crise da habitação asfixia-nos todos os dias, mas quando o povo se organizou para exigir um direito básico, a resposta do Estado foi a força do bastão e a manipulação política.
A acampada na Praça D. João I não nasceu por capricho. Nasceu do desespero de quem não consegue pagar uma renda numa cidade entregue à especulação. Naquela praça construiu-se uma Assembleia Popular (um espaço de democracia, sem agendas partidárias) e abriu-se o microfone às pessoas. Um espaço de partilha onde o sofrimento, as propostas e a revolta de cada um têm voz.
Pedro Duarte, sem ouvir as preocupações das pessoas em protesto, resolveu armar-se em xerife, prometendo ser “absolutamente implacável” contra quem colocasse tendas na praça. Só que o Porto não é o faroeste, nem a praça pública é sua propriedade privada.
É grotesco ver uma postura tão implacável contra quem pede uma casa para viver, vinda de quem é de uma mansidão servil à venda do nosso património aos fundos de investimento abutre, ao AL desenfreado e à transformação da cidade num parque de diversões para fundos imobiliários.
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, teve o cinismo de acusar os manifestantes de egoísmo, como se exigir o cumprimento do direito a uma casa não fosse um direito constitucional.
Uma linguagem que cheira a mofo, moralista e autoritária, que nos lembra a todos a ditadura, ao rotular a insustentabilidade das pessoas de egoísmo e subversão para legitimar o uso da força bruta.
No meio do desabafo e da indignação no microfone aberto, alguém usou a metáfora de “atirar um tijolo” à casa do primeiro-ministro e logo aproveitaram para fabricar uma narrativa de terrorismo urbano e de grande ameaça. É só ridículo.
Pedro Duarte e Montenegro usaram essa desculpa para desviar o foco do essencial e tentar colar o rótulo de violento a um protesto ordeiro e pacífico.
Era bom que todos os cidadãos fossem ver a forma ordeira e cívica com que ali se mantêm e dão vida política à praça e voz ao desespero e indignação da população (em vez de ficarem a absorver a habitual desinformação que o algoritmo lhes proporciona e comentarem nas redes autênticas obscenidades). Há muita gente a sofrer com o inimigo da sinapse.
A violência tão temida, essa, veio da intervenção policial. A polícia avançou de forma brutal, legitimada pelo discurso implacável do presidente da câmara. O povo alombou com os bastões e os pontapés, abriram-se cabeças e partiram-se braços, numa intervenção repressiva que faz lembrar os métodos da ditadura, deixando cerca de 40 feridos na praça.
Montenegro ainda tentou desdizer-se e ser malabarista com as palavras, mas todos percebemos.
É preciso estar profundamente desesperado, e com medo da convulsão social, para responder a tendas já desarmadas com carga policial.
A resposta da população não se fez esperar: milhares de pessoas correram à praça, marcharam até à CMP a pedir a demissão do presidente da câmara. A solidariedade e a indignação cresceram e há manifestações e acampadas a começar por todo o País.
Pedro Duarte veio agora dizer que está disponível para falar e que convidou os manifestantes para dialogar. Não é verdade. Não contactou formalmente o movimento. Mas há aqui uma questão que convém esclarecer: o Movimento pela Habitação – Acampada do Porto é um movimento popular, que toma as suas decisões em Assembleia Popular, onde as propostas são discutidas e votadas.
Pedro Duarte sabe disso. Se quer realmente ouvir as pessoas, que apareça na Praça. A Assembleia Popular realiza-se todos os dias às 19h00; que ouça e perceba o que está a ser reivindicado. Como presidente da câmara, mas também como cidadão, já o devia ter feito. A Assembleia Popular é o povo a decidir a sua vida na praça e isso ele não pode fingir que não vê.
Diálogo de fachada para abrir telejornais não é diálogo. Quer falar? Venha ouvir quem não tem onde morar.
De que tem medo Pedro Duarte? De ouvir o povo? Não há tijolos na praça. Há pessoas que exigem respostas. Ninguém lhe vai bater como ele mandou bater.
As parangonas sensacionalistas para tentar travar a luta pelo direito à habitação são tão mesquinhas quanto pequeninas. Revelam apenas a cobardia de quem se sente ameaçado pelo povo organizado.
Podem tentar denegrir um protesto pacífico, armar-se em xerifes e mandar avançar a polícia. O povo não se intimida e a realidade não desaparece.
O tema, por mais que tentem manipular, continua e continuará a ser HABITAÇÃO.
E o Presidente da República? A forma dúbia como se pronunciou merece reflexão. Reconhecer as preocupações de quem se manifesta e, ao mesmo tempo, insistir no cumprimento da lei não chega quando estamos perante uma intervenção policial que deixou dezenas de feridos. Perante cabeças abertas pela polícia, a tibieza e o silêncio do Presidente da República são uma cumplicidade inaceitável.
Mas o que significa, afinal, “cumprir a lei”? A lei não é um instrumento que só serve para impor deveres a quem protesta. A lei não dá passe livre à polícia para espancar manifestantes, nem serve para proteger governantes cobardes. A obediência é exigida a quem luta por um direito constitucional, enquanto o direito à habitação continua por garantir a milhares de pessoas.
Deixem-se de conversas fiadas sobre “influências estrangeiras”: o povo saiu à rua porque simplesmente já não consegue pagar uma casa e a lei das rendas tem de ser imediatamente revertida. A falta de empatia e de noção demonstrada por ministros, comentadores e responsáveis políticos perante o desespero de quem não consegue pagar uma casa é atroz.
Se um protesto pacífico é reprimido com violência, qual será a reação esperada? Que as pessoas se calem e voltem para casa? O povo saiu à rua porque chegou a um limite. Unido jamais será vencido!
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