Nunca tivemos tanto acesso a informação sobre saúde mental e relacionamentos amorosos. Falamos de narcisismo, vinculação evitante, manipulação emocional, relações tóxicas e sinais de alerta com uma familiaridade que, há poucos anos, seria impensável. Mas pergunto-me se este crescente conhecimento psicológico nos está realmente a ajudar a construir melhores relações ou se, paradoxalmente, se está a transformar numa nova forma de nos defendermos da vulnerabilidade que o amor inevitavelmente exige.
Na minha prática clínica, enquanto psicóloga dedicada aos relacionamentos amorosos, tenho observado uma tendência que me preocupa: a facilidade com que utilizamos conceitos da Psicologia para explicar as nossas frustrações amorosas e classificar as pessoas com quem nos relacionamos.
Alguém que foi egoísta, imaturo ou desleal é rapidamente identificado como narcisista. Uma pessoa que não demonstra interesse suficiente ou não deseja comprometer-se passa a ter uma vinculação evitante. Uma relação que não correspondeu às nossas expectativas transforma-se numa relação tóxica.
Parece que estamos a desenvolver uma enorme capacidade para identificar problemas psicológicos nos outros, mas nem sempre a mesma disponibilidade para compreender quem são, avaliar a nossa compatibilidade ou questionar a forma como nós próprios nos relacionamos.
O psicólogo Nick Haslam descreveu um fenómeno designado concept creep, que se refere ao alargamento progressivo do significado de conceitos associados ao sofrimento e à psicopatologia. Quando estes conceitos passam a abranger experiências cada vez mais comuns, corremos o risco de patologizar comportamentos que, embora possam ser desagradáveis ou prejudiciais, não representam necessariamente uma perturbação psicológica.
A teoria da vinculação, por exemplo, constitui um contributo fundamental para compreendermos a forma como estabelecemos relações de intimidade. Mas ter um padrão de vinculação evitante não é sinónimo de falta de interesse amoroso, tal como manifestar egoísmo ou insensibilidade não significa ter uma perturbação de personalidade narcísica.
Nem todas as pessoas que nos magoam têm uma psicopatologia. E nem todas as relações que falham precisam de um diagnóstico para explicar o seu insucesso.
Naturalmente, existem comportamentos abusivos, manipuladores e padrões relacionais profundamente prejudiciais que devemos saber reconhecer. Mas reconhecer comportamentos não é o mesmo que diagnosticar pessoas. E não precisamos de atribuir uma perturbação psicológica a alguém para decidir que determinada relação não nos faz bem.
O que me parece particularmente preocupante é que esta tendência para diagnosticar o outro pode criar uma falsa sensação de proteção emocional.
Depois de uma experiência amorosa dolorosa, é compreensível que procuremos explicações e queiramos evitar repetir o sofrimento. Mas quando entramos numa nova relação excessivamente preocupados em identificar sinais de perigo, a nossa atenção deixa de estar orientada para a descoberta e passa a concentrar-se na vigilância.
Em vez de procurarmos conhecer a pessoa que temos à nossa frente, procuramos confirmar se corresponde a algum dos perfis psicológicos sobre os quais lemos ou ouvimos falar.
Uma resposta tardia transforma-se num sinal de evitamento emocional. Uma necessidade de espaço pode ser interpretada como incapacidade de intimidade. Uma diferença de expectativas torna-se evidência de indisponibilidade afetiva.
E, quando estamos permanentemente à procura de sinais de ameaça, torna-se mais difícil reconhecer qualidades, compreender diferenças e desenvolver a confiança necessária à construção de uma ligação emocional.
A nossa atenção é seletiva. Quando esperamos encontrar determinados problemas, tendemos a valorizar mais a informação que confirma as nossas suspeitas. Este mecanismo, conhecido como viés de confirmação, pode contribuir para interpretações rígidas e precipitadas dos comportamentos dos outros.
Assim, aquilo que começou como uma tentativa de autoproteção pode transformar-se num processo de autossabotagem relacional.
Estamos tão preocupados em identificar quem nos pode magoar que, por vezes, deixamos de estar emocionalmente disponíveis para descobrir quem nos pode fazer bem.
Há ainda outra consequência importante: a possibilidade de estes diagnósticos precipitados nos afastarem da responsabilidade que temos na construção das nossas próprias relações.
Quando atribuímos sistematicamente os nossos insucessos amorosos às características psicológicas dos outros, podemos deixar de questionar as nossas escolhas, expectativas e padrões relacionais.
Porque insistimos em pessoas que não demonstram reciprocidade? Porque investimos emocionalmente antes de conhecermos verdadeiramente o outro? Porque ignoramos incompatibilidades importantes? Porque temos dificuldade em comunicar necessidades ou estabelecer limites?
Estas perguntas são desconfortáveis, mas essenciais.
Responsabilizarmo-nos pela forma como nos relacionamos não significa assumirmos a culpa pelos comportamentos desrespeitosos ou abusivos dos outros. Significa reconhecermos que, embora não possamos controlar o comportamento de quem escolhemos, podemos desenvolver maior consciência sobre a forma como escolhemos, nos envolvemos e reagimos.
E, sem esta reflexão, corremos o risco de repetir os mesmos padrões, com pessoas diferentes, esperando resultados distintos.
Talvez precisemos também de recuperar uma verdade simples: nem todas as pessoas são compatíveis connosco. Alguém pode ser emocionalmente saudável, responsável e genuíno e, ainda assim, não desejar a mesma relação que nós.
A ausência de reciprocidade pode ser dolorosa, mas não constitui, por si só, uma disfunção psicológica.
Construir uma relação exige tempo para conhecer, compreender e avaliar a compatibilidade. Exige disponibilidade para comunicar expectativas, observar comportamentos e perceber se existem valores e objetivos partilhados. Não significa ignorar sinais de alerta nem investir indiscriminadamente em quem não corresponde às nossas necessidades. Significa permitir que o conhecimento do outro anteceda conclusões precipitadas e um envolvimento emocional desproporcionado.
Ninguém pode revelar-se a pessoa certa para nós sem ter oportunidade de compreender quem somos e aquilo que desejamos. E dificilmente conseguiremos reconhecer essa possibilidade se estivermos permanentemente preparados para encontrar uma ameaça.
A Psicologia deve ajudar-nos a compreender melhor o comportamento humano, não a reduzir a complexidade das pessoas a rótulos. Deve promover o autoconhecimento, a empatia e a responsabilidade, não alimentar a ideia de que o sucesso amoroso depende apenas de aprendermos a identificar os defeitos dos outros.
Talvez o verdadeiro desafio não seja tornarmo-nos especialistas em reconhecer narcisistas, evitantes ou pessoas emocionalmente indisponíveis, mas desenvolvermos a maturidade necessária para conhecer, escolher e relacionarmo-nos de forma mais consciente.
Porque aprender a proteger-nos de relações que nos fazem mal é fundamental. Mas, se essa proteção nos impedir de confiar, de conhecer e de nos envolvermos, poderemos acabar por nos proteger também das relações que nos poderiam fazer bem.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.