Quando pensamos num acordo para resolver um conflito, imaginamos muitas vezes uma divisão ao meio. Uma pessoa pede mil euros, a outra não quer pagar nada e acabam por combinar o pagamento de quinhentos. Cada uma cede um pouco. Nenhuma fica inteiramente satisfeita, mas o assunto fica arrumado.
Há acordos assim. Mas chegar a acordo pode ser muito mais do que encontrar um ponto intermédio entre duas exigências. A propósito do Dia Mundial da Resolução de Conflitos, que se assinalou na última quinta-feira, 15, vale a pena pensar nas possibilidades que perdemos quando começamos logo por discutir quanto é que cada um está disposto a ceder.
Imaginemos dois irmãos que herdaram uma casa dos pais. Um quer vendê-la. O outro recusa. A conversa repete-se há meses e está cada vez mais difícil: “A casa também é minha.”; “Não podes decidir sozinho.”. Cada um procura argumentos para demonstrar que tem razão. Entretanto, deixam de almoçar juntos.
Se olharmos apenas para aquilo que pedem, as posições parecem incompatíveis. Ou se vende a casa ou não se vende. Poderíamos tentar encontrar um compromisso: vender mais tarde, por exemplo. Mas, antes de procurar soluções, há perguntas que ainda não foram feitas. Porque é que um quer vender? Porque é que o outro quer manter a casa?
Imaginemos que o primeiro precisa de dinheiro para fazer obras na sua habitação. Não tem uma vontade especial de vender a casa dos pais. Tem uma despesa que não consegue suportar. O segundo quer preservar um lugar onde a família se possa reunir e onde os seus filhos possam passar férias, como ele passou em criança.
Saber isto não resolve automaticamente o problema. Mas muda a conversa. Talvez seja possível arrendar a casa durante parte do ano, reservando algumas semanas para a família. Talvez um possa comprar a parte do outro, com um pagamento faseado. Talvez encontrem outra solução em que ainda não tinham pensado. Ou talvez concluam que nenhuma destas hipóteses é viável. O importante é que passaram a discutir o problema com mais informação e com outras possibilidades em cima da mesa.
É esta a lógica da mediação baseada nos interesses. O mediador, um terceiro imparcial, ajuda as pessoas a perceberem o que está em causa para cada uma. Por trás de um pedido de dinheiro pode estar uma necessidade financeira, mas também uma preocupação com a reputação ou a vontade de ver reconhecido um erro. Por trás de uma recusa pode estar um receio que nunca chegou a ser explicado.
Essa exploração exige método. Quando estamos envolvidos num conflito, nem sempre conseguimos identificar com clareza aquilo de que precisamos. Muito menos conseguimos ouvir o que a outra pessoa está a tentar dizer. O mediador ajuda a criar condições para essa conversa e, depois, para a construção e avaliação de soluções.
Também por isso, a mediação não consiste em pedir às pessoas que sejam razoáveis e façam as pazes. Não cabe ao mediador decidir qual delas tem razão ou convencê-las a aceitar uma proposta. São as pessoas que decidem se querem participar e se a solução encontrada é adequada.
Claro que nem todos os interesses são compatíveis. Há casos em que os recursos são insuficientes, em que uma das partes não está disponível para negociar ou em que não é possível alcançar um acordo aceitável. A mediação não é uma solução mágica. Se não resultar, os tribunais continuam a ter o seu papel essencial.
Mas, quando há espaço para construir uma solução, vale a pena aproveitá-lo. Num conflito entre empresas, pode ser possível alterar um contrato e manter uma parceria. Num condomínio, pode ser possível combinar uma forma de pagamento que permita resolver a dívida. Numa família, pode ser possível tratar do património sem perder todas as relações pelo caminho.
Estamos habituados a perguntar: “Quanto estás disposto a ceder?”. Talvez devêssemos começar um pouco antes: “O que precisas de resolver?”.
A resposta pode mostrar que chegar a acordo exige cedências. Mas pode também mostrar que estávamos a dividir ao meio um problema para o qual existia uma solução melhor.
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