A VISÃO acaba de receber um prémio de Património Editorial. A distinção honra o trabalho realizado, mas chega num momento em que o futuro da revista está ameaçado por um processo judicial labiríntico. A contradição é brutal: reconhecemos o valor de uma publicação enquanto assistimos, quase em silêncio, à possibilidade do seu desaparecimento.
Não podemos aceitar que a VISÃO se transforme em património apenas porque deixámos de lhe garantir futuro.
Uma revista não é uma empresa, um processo de insolvência ou uma folha de cálculo. É uma redação. São jornalistas, fotógrafos, editores, revisores, infografistas e colaboradores que investigam, confirmam, perguntam e escrevem. Profissionais que, mesmo sob a ameaça da precariedade e do encerramento, continuam a fazer jornalismo.
E fazem-no num tempo em que a mentira circula mais depressa do que a verdade, a propaganda se disfarça de informação e os algoritmos promovem o ruído. Por isso, perder a VISÃO não seria apenas perder uma publicação. Seria empobrecer a democracia portuguesa. Seria ficarmos cegos.
O jornalismo independente não sobrevive de homenagens tardias nem de discursos solenes. Precisa de leitores, assinantes, condições laborais dignas e decisões responsáveis. Precisa, sobretudo, que o País compreenda que a informação rigorosa tem um custo, mas que a ausência dela tem um preço incomparavelmente maior.
Como cronista da VISÃO, sinto orgulho e honra por colaborar com esta revista. Cada texto que nela publico é acolhido num espaço cuja credibilidade foi conquistada pelo trabalho de muitas mulheres e muitos homens. Essa honra impede-me de permanecer calado.
Não quero que as suas capas, reportagens e crónicas sejam amanhã apresentadas como relíquias de um jornalismo que Portugal não soube defender. Não quero que este prémio se transforme numa homenagem póstuma.
Aos jornalistas e restantes profissionais da VISÃO, deixo a minha admiração e solidariedade. Aos leitores, deixo um apelo: leiam, partilhem e assinem. Defender a VISÃO não é proteger uma marca. É defender a investigação contra o boato, o contraditório contra a propaganda e a liberdade contra o silêncio.
A VISÃO é património nacional. E está viva. Não a deixemos morrer.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.