Poupar no combustível nem sempre é sinónimo de conseguir o maior desconto no combustível. Parece um pormenor, mas é assim que muitas campanhas ganham relevância. Destacam os cêntimos que nos oferecem e deixam para segundo plano o preço sobre o qual esse benefício é calculado.
Entre cupões de supermercado, aplicações, cartões de fidelização e contratos de energia, podemos efetuar um abastecimento convencidos de que fizemos uma excelente escolha. Mas conseguir um desconto não prova, por si só, que pagámos menos do que pagaríamos no posto ao lado.
Na minha perspetiva, é aqui que devemos começar a conversa. Antes de perguntar quanto nos devolvem, precisamos de perceber quanto nos cobram por litro de combustível.
Imagine-se um posto onde determinado combustível custa 1,90 euros por litro e outro onde o mesmo combustível custa dois euros, mas existe um desconto de oito cêntimos. Apesar da campanha, a segunda opção continua a ser mais cara: fica por 1,92 euros por litro.
Parece evidente quando apresentamos os números desta forma. No entanto, um desconto anunciado chama mais a atenção do que uma comparação de preços. Dá-nos a sensação de que estamos a aproveitar uma oportunidade, mesmo quando a alternativa sem promoção seria mais vantajosa.
O preço base deve, por isso, ser o ponto de partida. O portal de preços dos combustíveis da Direção-Geral de Energia e Geologia e outras ferramentas de comparação permitem consultar os postos existentes nos nossos percursos habituais. Ainda assim, também não faz sentido conduzir vários quilómetros para encontrar um preço ligeiramente inferior. O combustível consumido, o tempo perdido e o desvio realizado podem absorver a
poupança.
Depois do preço base, devemos analisar a natureza do benefício. Um euro de desconto imediato não é necessariamente igual a um euro de saldo para utilizar mais tarde. Na parceria entre Lidl Plus e Repsol, por exemplo, o benefício base de dez cêntimos por litro divide-se, à data deste artigo, em seis cêntimos de desconto imediato e quatro cêntimos em saldo My Repsol, quando as duas aplicações estão associadas. Num abastecimento de 60 litros, esta componente representa 3,60 euros descontados no momento do pagamento e 2,40 euros em saldo para utilizar posteriormente. O benefício potencial é de seis euros, mas apenas 3,60 euros reduzem imediatamente o valor pago. Os restantes 2,40 euros só se transformam numa poupança efetiva quando forem utilizados.
Esta distinção é importante porque podemos acabar por contar como poupado um valor que ainda não utilizámos. Se o saldo expirar, ficar esquecido ou nos levar a regressar a um posto mais caro, o benefício efetivo será inferior ao anunciado.
Na parceria entre a Galp e o Continente, uma compra igual ou superior a 30 euros permite receber um cupão de dez cêntimos por litro, aplicável até 60 litros. Num abastecimento de 50 litros, são cinco euros acumulados em saldo no Cartão Continente. Este benefício pode ainda ser combinado com vantagens da aplicação Mundo Galp. Mas a lógica mantém-se: o saldo só representa uma poupança efetiva quando for utilizado numa despesa já prevista, e o preço base do combustível deve continuar a ser comparado com o dos restantes postos.
O mesmo cuidado deve ser aplicado aos cupões de supermercado. As parcerias entre supermercados e gasolineiras ligam duas despesas frequentes das famílias, mas também procuram criar um circuito de fidelização: fazemos compras numa determinada loja para receber um benefício no combustível e regressamos ao mesmo ecossistema para o utilizar.
No programa Poupa Mais, por exemplo, cada 40 euros em compras no Pingo Doce permitem acumular dois euros de saldo para combustível na bp. Para quem já faria essa despesa, existe um benefício adicional. Para quem acrescenta produtos apenas para atingir o requisito de gasto ou escolhe um supermercado mais caro por causa do saldo, a conta pode ser menos favorável.
Mudar de supermercado para poupar no depósito, sem comparar o preço do carrinho, pode também significar transferir a despesa de um lado para o outro. O objetivo não deve ser pagar menos no abastecimento de forma isolada. Deve ser reduzir a despesa familiar total.
As campanhas foram desenhadas para aproximar o consumidor das marcas, aumentar a frequência das compras e incentivar o regresso. Isso não impede que beneficiemos delas. Exige apenas que os nossos hábitos e o nosso orçamento continuem a ser o ponto de partida.
O cartão utilizado no pagamento pode acrescentar outra camada de poupança. Se pagarmos 100 euros e o cartão atribuir 3% de cashback numa operação elegível, poderemos receber mais três euros, desde que não tenhamos atingido o limite aplicável. Contudo, o cashback deve ser calculado sobre o valor efetivamente pago e é necessário confirmar se os benefícios são acumuláveis. Determinadas formas de pagamento ou
condições de campanha podem impedir a utilização conjunta de várias vantagens.
Nos cartões de crédito, mantém-se um cuidado essencial: liquidar a totalidade do valor utilizado dentro do prazo. Recuperar alguns euros no combustível nunca compensará pagar juros sobre o saldo em dívida do cartão utilizado.
A mesma lógica deve orientar a análise de programas que associam descontos no combustível a contratos de eletricidade, gás ou telecomunicações. Um desconto mais elevado por litro não justifica, por si só, a contratação de um serviço adicional. A poupança no posto deve ser comparada com o custo total do contrato e não analisada como um benefício isolado.
Não existe, por isso, uma gasolineira que seja sempre a melhor escolha para qualquer pessoa. A resposta depende dos preços praticados nos postos acessíveis, das vantagens que cada consumidor já tem e da possibilidade de as utilizar sem aumentar outras despesas ou contratar serviços adicionais.
Pequenas diferenças, quando repetidas, podem produzir resultados relevantes. Se uma família conseguir reduzir o custo efetivo do combustível em 15 cêntimos por litro e abastecer 100 litros por mês, são 15 euros mensais e 180 euros ao fim de um ano.
Não controlamos o preço do petróleo, os impostos ou as decisões comerciais das gasolineiras. Podemos, contudo, comparar preços, escolher os benefícios adequados às nossas rotinas e decidir como pagamos.
No próximo abastecimento, a pergunta não deve ser apenas “quantos cêntimos de desconto vou receber?”. Deve ser: “depois de todos os descontos, saldos e custos, quanto vou realmente pagar por cada litro?”.
O maior desconto é um argumento de venda. O menor custo final a pagar deve ser o objetivo de qualquer consumidor. Confundir os dois pode levar-nos a pagar mais, quando acreditamos que estamos a conseguir uma poupança.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.