Há dias, descobri que os fãs do humorista George Carlin tinham ressuscitado nas redes sociais uma das suas performances de stand-up comedy, em 1996. Dizia ele: “Vamos usar a pena de morte da mesma forma que usamos o desporto e a televisão neste país: para distrair as pessoas e fazê-las esquecer o quanto estão a ser f*didas pelo 1% mais rico.” E continuava: “Acredito sinceramente que, se tornarem a pena de morte um pouco mais divertida e aprenderem a promovê-la como deve ser, talvez até consigam angariar dinheiro suficiente para equilibrar a porra do orçamento!”
Graças aos 1%, já há algum tempo que a nossa realidade se tornou matéria digna de figurar nos melhores filmes de horror, ou talvez seja apropriado dizer, os piores filmes de ficção científica.
Saltamos para 2026, ano em que Pete Hegseth, secretário de Defesa dos EUA, anuncia que o Pentágono vai fazer um livestreaming da execução de Nidal Hasan por um pelotão de fuzilamento, condenado à pena capital pela morte de 13 pessoas em Fort Hood, em 2009. Uma execução transmitida em direto, numa altura em que os americanos enfrentam um aumento de custo de vida e inflação. As palavras de Carlin acabaram por ser proféticas.
Para esta discussão, vem mesmo a propósito a leitura da obra Ficção Científica Capitalista, de Michel Nieva (Limoeiro Real). Como ex-editora, leitora e fã de ficção científica, custou-me ver o bom nome desse género literário arrastado pela lama pelos multimilionários que hoje lançam de forma intrépida a nossa civilização para o abismo. Nomes como Elon Musk, Zuckerberg e Jeff Bezos admitem ter sido influenciados pela leitura dos autores da Golden Age da ficção científica, como Arthur C. Clarke e Robert Heinlein, pondo em marcha empreendimentos megalómanos de conquista e colonização do espaço. Sonham ser o macho alfa branco, rodeado de parafernália tecnológica, e que irá salvar-nos a todos.
Ao chegarmos ao fim da leitura, compreendemos como os multimilionários alienados estão empenhados em condenar os restantes 99% à miséria, depois de terem extraído do planeta Terra todos os recursos necessários, tornando cada vez mais impossível a vida humana devido ao colapso total do planeta. Irão eles depois tomar de assalto a Lua ou Marte, sem regulação, tornando-se fundadores de colónias que irão tentar tornar habitáveis e lucrativas, onde não faltará a sua prole interminável, sem esquecer que eles irão tentar manter-se vivos durante dezenas e dezenas de anos com recurso a reprogramação epigenética ou senolíticos.
Sinto que estou a escrever prosa delirante nesta crónica, mas basta observar à nossa volta para verificar como esta visão niilista já está a ser posta em prática. Os 1% estão ativamente a lutar pelo derrubar de democracias no mundo, a limitar as nossas liberdades, e a incentivar planos irresponsáveis extrativistas, contribuindo para a ruína ambiental e ecológica. O próximo passo será abandonar este planeta e avançar com a exploração espacial e a colonização à Hernán Cortés, tendo aceitado a inevitabilidade da extinção humana.
Mas nem tudo está perdido. Por mais absurdo que possa parecer, também descobri através desta obra que há uma corrente do trotskismo que nasceu na América Latina que associa a ufologia à salvação do planeta.
A Quarta Internacional Posadista (criada pelo argentino J. Posadas) acredita que, um dia, seres extraterrestres de elevada inteligência possam ficar horrorizados ao descobrirem que 1% da Humanidade condenou os restantes 99% a uma morte lenta no seu planeta de origem, e poderão ser os ETs a impulsionar uma revolução e a ajudar-nos a fundar o socialismo interplanetário. Serão estas crenças menos credíveis do que as de Bezos, Zuckerberg ou Musk? A diferença é que enquanto uns têm apenas convicções extravagantes, os outros possuem fortunas obscenas capazes de concretizar os desejos mais loucos.
Quanto a nós, aguardemos tranquilos pelos camaradas galácticos. Quando estivermos na iminência de uma extinção em massa, serão eles a salvar-nos da demência de Silicon Valley. Se tudo correr bem, ajudam-nos a preservar uma centelha do melhor da Humanidade e, de passagem, ainda dão um valente coice em criaturas desprovidas de humanidade e inteligência.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.