O Brasil foi, para mim e para muitos portugueses da minha geração, uma espécie de segunda pátria. Não apenas pela proximidade linguística e cultural, mas pela experiência de uma sociedade que, apesar das suas enormes desigualdades, parecia possuir uma extraordinária capacidade de reinvenção, de convivência com a diferença e de construção democrática. É por isso que acompanho estas eleições com uma inquietação que ultrapassa a curiosidade de quem observa um país estrangeiro. O resultado do primeiro turno obriga-me a olhar para o Brasil, mas também para algumas das certezas com que temos pensado a educação e a democracia.
A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, separados por uma diferença relativamente pequena no primeiro turno, revela uma sociedade profundamente dividida. Mas os dados disponíveis não autorizam explicações simples. Na sondagem Datafolha realizada entre 29 de setembro e 1 de outubro, Lula e Flávio Bolsonaro apareciam tecnicamente empatados entre os eleitores com ensino médio e também entre os que tinham ensino superior. A diferença era mais nítida entre os eleitores com apenas o ensino fundamental, onde Lula tinha vantagem, e nas faixas de rendimento mais elevadas, onde Flávio se destacava. O nordeste permanecia claramente favorável a Lula, enquanto o sul se inclinava para Flávio; entre católicos e evangélicos encontrava-se também uma das divisões mais marcadas do eleitorado.
É precisamente esta complexidade que torna a questão interessante. Se queremos compreender o que está a acontecer no Brasil, não basta perguntar quem ganhou ou perdeu, nem sequer identificar as características sociológicas dos eleitores. É preciso perguntar por que razão, numa sociedade que conheceu uma extraordinária expansão da escolarização, o conhecimento não parece ter produzido, por si só, maior capacidade de resistência à polarização, ao ressentimento e às narrativas políticas que transformam o adversário em inimigo.
Talvez tenhamos acreditado demais numa relação que nunca foi automática: mais escolarização significaria mais conhecimento; mais conhecimento produziria pensamento crítico; e o pensamento crítico conduziria naturalmente a uma cultura democrática. A História mostra que não é assim. Uma pessoa pode possuir formação universitária elevada e continuar a interpretar a sociedade por meio de categorias profundamente hierárquicas; pode dominar conhecimentos especializados e ter uma compreensão limitada da História e das estruturas sociais que condicionam a sua própria vida. A escolarização é uma condição indispensável da democracia moderna, mas não é, por si só, educação democrática.
Recordar Paulo Freire
É neste ponto que Paulo Freire volta a ser uma referência incontornável. A sua ideia de conscientização foi muitas vezes reduzida a uma espécie de pedagogia política destinada a despertar os oprimidos. Era muito mais exigente. Conscientizar significava aprender a ler criticamente a realidade, relacionando a experiência vivida com as estruturas históricas e sociais que a produzem. Não bastava saber ler a palavra; era necessário aprender a ler o mundo. E essa leitura não poderia ser substituída pela simples acumulação de informação.
Talvez esteja aqui uma das questões centrais da educação contemporânea. Podemos ter sociedades mais escolarizadas sem termos necessariamente sociedades mais capazes de compreender o mundo em que vivem. Podemos transmitir informação sem produzir conhecimento; desenvolver competências sem produzir consciência histórica; formar profissionais altamente qualificados sem formar cidadãos capazes de reconhecer a complexidade dos problemas coletivos.
A obra de Jessé de Souza oferece, neste ponto, uma pista particularmente interessante. A sua interpretação da sociedade brasileira chama a atenção para a persistência de estruturas de desigualdade, distinção e reconhecimento que não desaparecem com a modernização económica ou com a expansão da escola. No seu trabalho sobre a adesão de sectores populares à direita (O Pobre de Direita. A Vingança dos Bastardos, Civilização Editora, 2024), Jessé coloca o ressentimento e a experiência da humilhação no centro da análise. A questão não é apenas saber quais são os interesses materiais de uma pessoa, mas compreender a sua necessidade de reconhecimento, a sua experiência de pertença ou exclusão e o modo como interpreta as mudanças sociais que afetam o seu lugar no mundo.
Racionalidade e memória
Esta perspetiva ajuda a compreender algo que frequentemente escapa às análises eleitorais: as pessoas não votam apenas com base numa avaliação racional de políticas públicas. Votam também com a memória, com a experiência, os medos e a perceção da própria dignidade. Uma narrativa política torna-se particularmente poderosa quando consegue transformar sentimentos dispersos numa explicação coerente da realidade. A direita radical contemporânea tem demonstrado capacidade para fazer isso: oferece a quem experimenta insegurança ou perda uma explicação simples, identifica responsáveis e devolve um sentimento de pertença.
Não é necessário que essa explicação seja verdadeira para que seja politicamente eficaz. Basta que consiga conferir sentido a experiências reais. O trabalhador que perdeu estatuto, a classe média que sente que deixou de progredir, o cidadão que desconfia das instituições, a pessoa que vê transformações culturais que não compreende ou que sente que já não reconhece o país em que cresceu podem encontrar nessa narrativa uma resposta para a sua inquietação. O ressentimento não nasce necessariamente da ignorância. Pode nascer da distância entre aquilo que alguém acredita merecer e aquilo que sente ter recebido da sociedade.

É aqui que a questão da educação se torna mais difícil. Não basta dizer que precisamos de “mais educação”. Precisamos de perguntar que educação, para quê e com que relação com o conhecimento.
Uma parte importante da educação contemporânea foi construída em torno da ideia de que o conhecimento deveria ser aplicado, convertido em competências e colocado ao serviço da empregabilidade e da adaptação a um mundo em transformação. Tudo isso é importante. Mas a educação possui uma responsabilidade que não pode ser reduzida à preparação dos indivíduos para o mercado de trabalho. Tem também de lhes permitir compreender a sociedade, reconhecer a sua historicidade e participar na construção das decisões que afetam a vida coletiva.
Democracia do conhecimento
É aqui que a ideia de democracia do conhecimento adquire importância. Durante muito tempo, associámos a democratização do conhecimento sobretudo ao acesso: mais crianças na escola, mais jovens na universidade, mais diplomas, mais oportunidades. Essa democratização continua a ser indispensável. Mas existe outra dimensão que se tornou hoje incontornável: quem produz conhecimento, quem decide aquilo que conta como conhecimento válido, quem tem autoridade para falar sobre a realidade e como os diferentes conhecimentos entram no espaço público.
A crise contemporânea da democracia é também, em grande medida, uma crise dessa autoridade cognitiva. O problema não reside apenas na circulação de notícias falsas. É mais profundo: tornou-se mais difícil estabelecer um terreno comum de factos e conhecimentos a partir do qual possamos discutir democraticamente. A ciência perdeu parte da sua autoridade pública; as instituições são frequentemente vistas com desconfiança; os meios de comunicação vivem uma crise de credibilidade; as redes sociais fragmentam o espaço público em comunidades que partilham não apenas opiniões diferentes, mas realidades informativas diferentes.
Uma democracia pode sobreviver à divergência. Ao que dificilmente sobrevive é à impossibilidade de reconhecer um mundo comum sobre o qual essa divergência possa exercer-se.
Partilhar conhecimento
É aqui que encontro uma ligação entre Freire, Jessé de Souza e a minha reflexão sobre os comuns globais da Humanidade. Freire lembra-nos de que a consciência crítica nasce da capacidade de relacionar experiência e estrutura. Jessé mostra-nos que essa experiência é atravessada por desigualdades de reconhecimento, poder e dignidade. A democracia do conhecimento acrescenta uma terceira dimensão: nenhuma sociedade pode deliberar sobre o seu futuro se não dispuser de formas públicas e democráticas de produzir e partilhar conhecimento sobre a realidade.
Mas existe ainda uma quarta dimensão. O mundo que habitamos tornou-se irreversivelmente interdependente. As alterações climáticas, as pandemias, as migrações, a Inteligência Artificial, a guerra, a energia e a circulação mundial do conhecimento não podem ser compreendidas dentro das fronteiras de um Estado nacional. A Humanidade tornou-se um mundo comum antes de ter aprendido a pensar-se como tal.
É neste ponto que a crise brasileira adquire uma dimensão universal. A resposta da direita radical à insegurança contemporânea consiste frequentemente em reconstruir comunidades fechadas: recuperar a nação, proteger a identidade, restabelecer fronteiras, distinguir os que pertencem dos que ameaçam. A força dessa resposta não pode ser explicada apenas pela manipulação ou pela desinformação. Ela responde também a uma necessidade real de pertença e reconhecimento.
A democracia não depende apenas da existência de eleições livres. Depende também da capacidade de uma sociedade construir algum conhecimento partilhado sobre o mundo que habita
A alternativa democrática não pode consistir em negar essa necessidade. Tem de oferecer uma outra forma de pertença: uma comunidade suficientemente ampla para incluir a diferença sem precisar de fabricar um inimigo. O comum não significa que todos pensem da mesma maneira. Significa reconhecer que existem bens, direitos, instituições, conhecimentos e responsabilidades que só podem existir se forem cuidados coletivamente.
Talvez esta seja uma das grandes tarefas da educação no nosso tempo. Não apenas transmitir conhecimentos, nem apenas desenvolver competências, mas ajudar cada geração a compreender o mundo que recebeu e a reconhecer a responsabilidade de o transformar. Isso exige conhecimento substantivo, História, ciência, filosofia, literatura e capacidade de argumentação; exige também diálogo, reconhecimento das diferenças e participação na vida coletiva. Pensamento crítico sem conhecimento pode transformar-se facilmente em mera opinião. Conhecimento sem consciência democrática pode transformar-se em instrumento de distinção e poder.
Foi talvez esta dimensão que esquecemos quando imaginámos que a expansão da escolarização produziria automaticamente sociedades mais democráticas. A escola não vacina contra o autoritarismo. A universidade não vacina contra o ressentimento. O diploma não produz, por si só, consciência histórica.
O Brasil não é uma exceção a esta regra. É, antes, um dos lugares onde ela se tornou particularmente visível.
Por isso, a pergunta que hoje devemos fazer não é apenas: Quo vadis, Brasil? É também: Que educação é necessária para uma sociedade que se tornou demasiado complexa para viver sem conhecimento e demasiado fragmentada para confiar no conhecimento?
Mundo comum
A resposta passa, creio, por reconstruir aquilo que podemos chamar de um mundo comum. Um mundo em que possamos discordar profundamente sem deixar de reconhecer os mesmos factos fundamentais; em que diferentes experiências sociais possam ser escutadas sem que todas as opiniões sejam consideradas equivalentes; em que o conhecimento científico mantenha a sua exigência de prova, sem se transformar numa autoridade desligada da sociedade; em que a escola e a universidade sejam lugares de conhecimento e, simultaneamente, de formação da cidadania.
O Brasil que conheci continua a ser, para mim, uma sociedade de extraordinária vitalidade e capacidade de criação. O resultado destas eleições não permite saber que caminho político seguirá o país. Permite, contudo, reconhecer uma questão que ultrapassa largamente o seu destino eleitoral.
A democracia não depende apenas da existência de eleições livres. Depende também da capacidade de uma sociedade construir algum conhecimento partilhado sobre o mundo que habita e de reconhecer no outro, mesmo quando discorda radicalmente dele, um participante legítimo desse mesmo mundo.
Talvez a tarefa maior da educação, no Brasil e fora dele, seja precisamente esta: transformar conhecimento em compreensão, compreensão em consciência e consciência em responsabilidade por um mundo que já é comum, embora ainda não saibamos suficientemente habitá-lo como tal.
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