Uma das muitas questões em torno da Inteligência Artificial tem sido saber quais as profissões que iria substituir. O debate tem-se centrado, na maioria das vezes, na tecnologia. Considero que podemos alargar esse questionamento e pensar no que a Inteligência Artificial nos obriga a voltar a fazer enquanto seres humanos.
Não estão a desvalorizar-se as preocupações legítimas de professores que veem alunos copiar respostas sem as questionar, profissionais que aceitam sugestões automáticas sem as verificar e leitores que trocam o esforço de compreender pela comodidade de uma síntese pronta. Negar esta tendência seria ingénuo, todavia, a forma como se escolhe usar estas ferramentas é que pode tornar-se decisiva.
Vários profissionais de diferentes áreas que usam regularmente a Inteligência Artificial partilham aquela que tem sido a minha própria experiência. Uma parte significativa procura, sobretudo, ampliar conhecimentos e questionar melhor o que a tecnologia pode entregar-lhe. Na verdade, desde que utilizo Inteligência Artificial, leio e escrevo muito mais. Cada conversa abre novas referências, desperta perguntas inesperadas e obriga-me a regressar às obras originais para confirmar e aprofundar. A Inteligência Artificial não substituiu a leitura; tornou-a, assim, mais exigente.
Quanto mais facilmente encontramos informação, maior é a necessidade de distinguir fontes credíveis de opiniões, mesmo que sustentadas com argumentos e exemplos. A tecnologia aproxima-nos dos textos, continuando a ser a leitura a aproximar-nos das ideias. Este é um dos maiores paradoxos do nosso tempo. Quanto mais competente se torna a Inteligência Artificial na produção de respostas, mesmo que aparentemente muito boas, maior é o desafio de formular as perguntas. A diferença é decisiva para desenvolvermos pensamento crítico, daí as Humanidades recuperarem uma centralidade inesperada. Algumas das empresas que lideram o desenvolvimento da Inteligência Artificial procuram integrar filósofos, linguistas, antropólogos e investigadores das ciências humanas nas suas equipas, sinal de que as grandes questões deixaram de ser apenas tecnológicas e passaram a ser questões sobre linguagem, ética, justiça, decisão e condição humana.
Não é por acaso que esta reflexão ultrapassou o domínio académico e tecnológico. Recorde-se o recente debate promovido pela Igreja Católica sobre Inteligência Artificial, que colocou a dignidade da pessoa humana e a responsabilidade ética no centro da reflexão. Independentemente das convicções religiosas de cada um, a Inteligência Artificial ultrapassa as ciências exatas e as tecnologias, e é também disso que dependerá, adiante, a forma como as sociedades democráticas decidem o que vale a pena conhecer e transmitir.
Na educação, este desafio torna-se particularmente evidente. Ensinar os alunos a utilizar ferramentas de Inteligência Artificial não é suficiente; é necessário formar professores capazes de compreender o impacto destas tecnologias, de redesenhar práticas pedagógicas e de devolver ao pensamento, à criatividade, à argumentação e ao espírito crítico um lugar central na aprendizagem. Sendo certo que uma máquina responde em segundos, a escola terá de ensinar aquilo que nenhuma resposta automática substitui, isto é, formular perguntas relevantes, interpretar, relacionar saberes, dialogar, criar e construir sentido. Sendo assim, precisaremos sempre de profissionais que desenvolvam tecnologia e, tanto ou mais, de educadores capazes de formar cidadãos intelectualmente autónomos.
O mesmo desafio, ainda mais concreto, coloca-se na saúde. A Inteligência Artificial pode apoiar diagnósticos, analisar milhões de dados clínicos ou identificar padrões invisíveis ao olhar humano. É fundamental, por isso, reunir profissionais de saúde e empresas de tecnologia num diálogo direto sobre onde a Inteligência Artificial pode ajudar e onde a decisão clínica tem de permanecer humana. Foi nesse espírito que nasceu a II Tertúlia Inteligência Artificial e Saúde, realizada recentemente no Palácio dos Silveiras, em Viseu, que contou entre os convidados com uma empresa de tecnologia dedicada à saúde no âmbito da radiologia. Ficou clara a mensagem de que a leitura da imagem e a decisão diagnóstica continuam a exigir o olhar do radiologista, apoiado pela tecnologia sem nunca ser substituído por ela. A escuta, a empatia, o discernimento clínico e a responsabilidade perante o outro permanecem, ali, insubstituíveis. Reforçou-se, assim, que a discussão sobre Inteligência Artificial não é apenas tecnológica.
Curiosamente, a Inteligência Artificial obriga-nos a regressar a perguntas muito antigas (o que significa compreender, o que significa criar, o que significa decidir, o que significa pensar). Ao longo da História, cada grande transformação tecnológica obrigou a Humanidade a redefinir-se, e hoje acontece o mesmo. A Inteligência Artificial torna a filosofia cada vez mais imprescindível. Do mesmo modo, não diminui a importância da literatura para que possamos conhecer e vivenciar narrativas, interpretar metáforas, reconhecer ironias ou aceitar a ambiguidade da linguagem, que continuam a ser experiências humanas.
Também a comunicação adquire um novo significado. Vivemos rodeados de ferramentas capazes de produzir texto em segundos. Comunicar, no entanto, nunca foi apenas produzir palavras. É construir relações, interpretar contextos, reconhecer silêncios, assumir responsabilidades e encontrar uma linguagem capaz de dar sentido ao que vivemos. Um dos maiores desafios do nosso tempo é, portanto, aprender a pensar melhor com a Inteligência Artificial, em vez de tentar competir com ela. Isso exige mais cultura, mais leitura, mais capacidade crítica, mais imaginação e mais diálogo entre ciência, tecnologia, filosofia, artes e educação.
Para além do que falta descobrir, a Inteligência Artificial pode acelerar a produção de conhecimento; o ser humano, no entanto, é quem decide o que vale a pena conhecer, preservar e transmitir, de acordo com os princípios e valores que as sociedades democráticas defendem. A verdadeira transformação do nosso tempo não é, pois, tecnológica, torna-se a oportunidade de redescobrirmos aquilo que nenhuma máquina pode viver por nós (pensar, sentir, compreender, interpretar, criar e atribuir sentido ao mundo).