A desvalorização sistémica da saúde da mulher é uma epidemia silenciosa que a medicina contemporânea ainda não conseguiu curar. Durante décadas, o corpo feminino tem sido tratado, alternadamente, como um mistério clínico ou uma inconveniência, sujeito a abordagens padronizadas e a uma frequente negligência.
Mesmo numa era de avanços biomédicos sem precedentes, alerta-se que a discrepância na abordagem à saúde reprodutiva feminina, da primeira menstruação à menopausa, permanece uma falha flagrante tanto nos cuidados de saúde como na atribuição de financiamento para investigação.
Tomemos como exemplo a pílula contracetiva hormonal. Prescrita como uma verdadeira “cura de todos os males” para diversas situações, desde a contraceção ao acne e às dores menstruais, é rotineiramente imposta a jovens sem a devida ponderação ou explicação clínica.
Em vez de se procurarem as verdadeiras causas das dores menstruais ou dos desequilíbrios hormonais subjacentes, a resposta-padrão nos centros de saúde passa por mascarar os sintomas com hormonas sintéticas. A pílula é prescrita a adolescentes sem que se discuta de forma exaustiva a sua vasta lista de efeitos secundários, que vão desde o aumento do risco cardiovascular a impactos comprovados na saúde mental. De facto, estudos de larga escala, como uma extensa investigação levada a cabo na Dinamarca, já demonstraram uma associação direta entre a toma de contraceção hormonal e o uso posterior de antidepressivos, sendo este risco particularmente elevado na adolescência. Torna-se imperativo testar e desenvolver terapias alternativas, abandonando a dependência de uma fórmula química como resposta por defeito à biologia feminina.
Esta relutância em investigar a origem da dor da mulher é gritante em casos como o da endometriose. A evidência mostra que uma doente demora, em média, sete a dez anos a obter um diagnóstico definitivo para esta doença sistémica e debilitante. A evidente falta de financiamento direcionado para compreender como a doença se desenvolve prova de que forma a dor natural da mulher foi social e clinicamente normalizada.
Paradoxalmente, enquanto a investigação sobre o impacto direto na doente continua subfinanciada, alocam-se recursos académicos para estudar a forma como a endometriose afeta a saúde mental dos parceiros masculinos. Já foram publicados trabalhos que se debruçaram especificamente sobre este impacto, documentando o desgaste emocional, a ansiedade e a frustração dos homens. Embora a saúde mental dos companheiros seja uma preocupação válida, é um reflexo perturbador das prioridades científicas que as próprias doentes continuem a ver os seus sintomas frequentemente minimizados pelos profissionais de saúde.
A banalização da experiência feminina prolonga-se de forma contínua para a perimenopausa e a menopausa. Nos cuidados de saúde primários, estas transições críticas são frequentemente mal geridas. As mulheres apresentam quadros de ansiedade, episódios depressivos, falhas de memória transitórias e fadiga. Contudo, a avaliação médica falha muitas vezes na associação destes sintomas às flutuações hormonais normais desta fase. Observações clínicas apontam que, em vez de beneficiarem de uma avaliação rigorosa, estas doentes recebem, de forma alarmante, prescrições de antidepressivos para tratar supostas depressões, ignorando-se as terapias adequadas à origem hormonal do problema. O organismo atravessa uma alteração fisiológica natural, mas a intervenção de primeira linha trata a transição como um distúrbio psiquiátrico isolado.
Posteriormente, à medida que estas mulheres atingem a faixa dos 50 anos, a narrativa sofre uma inflexão abrupta. Após anos de subvalorização clínica, deparam-se frequentemente com uma ausência de aconselhamento estruturado e informado sobre o início da terapêutica hormonal de substituição (THS). Impulsionada por um défice crítico de regulamentação específica e de diretrizes claras fundamentadas na ciência, a gestão clínica revela-se marcadamente errática.
A conclusão é inegável: a saúde da mulher continua a ser secundarizada. São necessárias regras rigorosas que obriguem à realização de ensaios clínicos mais abrangentes, garantindo intervenções seguras e baseadas na melhor evidência científica disponível.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.