Em Espanha, o Papa Leão XIV elogiou a defesa do multilateralismo, do direito internacional, da cooperação entre Estados e da relevância da ação externa europeia num mundo sem bússolas. Fê-lo com referências concretas ao local onde era recebido, à política externa corajosa daquele país, e não acrescentou nenhum “mas” para (des)equilibrar o que seja.
Não se apressou a denunciar uma alegada captura ideológica da sociedade espanhola, limitando-se a reconhecer factos concretos. Perante isto e a ausência dos tão em voga “processos de intenções”, surge uma dúvida legítima que certamente atravessa hoje a direita portuguesa. Depois de Francisco, será este Papa mais um esquerdista perigoso? “Credo.”
A pergunta é obviamente irónica, mas serve para expor um problema real. Em Portugal, tornou-se frequente etiquetar como “de esquerda” posições que, durante décadas, fizeram parte de um certo consenso político e até civilizacional do Ocidente democrático.
Defender o direito internacional passou a ser uma coisa exclusiva de esquerda. Defender instituições multilaterais é de esquerda. Pelo menos até ao momento em que convém enaltecer que foi durante um governo da AD que Portugal conquistou um lugar não permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Defender uma Europa relevante e independente dos EUA na Defesa passou, afinal, a ser um objetivo ao lado para o titular da pasta em Portugal. Defender mecanismos de proteção social também é coisa de esquerda de hoje.
O problema, que não nasceu hoje, mas se tem acentuado, é que se tudo isto é de esquerda, então uma parte considerável da tradição democrata-cristã europeia também é. E uma parte significativa do pensamento social da Igreja Católica idem, aspas.
Já na encíclica Magnifica Humanitas, este Papa demonstrara compreender algo politicamente que muitos esqueceram: a realidade é mais complexa do que as guerras culturais. Sobretudo, as que são importadas das redes sociais. Espanha tem problemas, tensões graves e contradições, como qualquer democracia liberal. Só que isso não impede que existam aspetos da sua atuação internacional e social que mereçam reconhecimento.
A maturidade política consiste em distinguir umas coisas das outras.
De seguida, a divergência torna-se ainda mais interessante quando se observa a visão da Europa. O Papa tem insistido na ideia de uma União Europeia consciente da sua realidade histórica e do seu papel no mundo. Uma Europa capaz de defender o tal direito internacional, com menos hipocrisia, e que preserve um modelo de desenvolvimento aberto, sem abandonar a dignidade humana à lógica da força, do ressentimento e da fragmentação política que hoje ganha terreno. Uma visão que colide de frente com o discurso dominante de setores da direita portuguesa, como o passismo, que olham para estas preocupações com manifesta e prolongada desconfiança. Para não dizer outra coisa.
O multilateralismo surge como ingenuidade e a integração europeia quase como limitação. A dimensão social das políticas, um tremendo e desadequado excesso.
Só que o mundo contemporâneo parece pedir exatamente o contrário. Nenhum Estado europeu conseguirá responder sozinho à competição geopolítica global, às guerras nas fronteiras do continente, aos desafios tecnológicos ou às pressões migratórias. Quanto mais trumpismo, maiores os desafios e mais evidente se torna a necessidade de cooperação e de instituições comuns. Talvez seja por isso que o Papa não sentiu necessidade de acrescentar um “mas” aos seus elogios. A política séria começa onde termina a caricatura.
Também por aí, a verdadeira questão não é saber se o Papa é um perigoso esquerdista. A questão real é perceber como chegámos ao ponto de uma parte crescente da direita considerar esquerdismo tudo aquilo que não cabe dentro da gramática política do trumpismo. Nesse caso, o problema já não é deste ou de nenhum Papa da Igreja Católica. É a bússola.