Ontem, no Intercidades — esse comboio admirável que não só nos leva ao destino, como também a outro tempo — entrou uma senhora sem bilhete. O episódio foi mínimo, como são quase sempre as revelações. — “Então não sabe que aqui é preciso reserva de lugar?”, perguntou o revisor. A senhora explicou-se. Vinha de Vizela, de um tratamento termal; tinham-lhe dito não ser necessária a reserva, desde que saísse no Porto; insistia e tudo soava mal. Toda a gente na carruagem percebeu o problema. Mas, por uma dessas branduras que ainda resistem, o revisor resolveu ser benigno. Caso contrário, teria de lhe exigir, ali mesmo, 125 euros. A notícia abateu-se sobre a senhora como um tecto. Ficou consternada. E então o revisor, sorridente, rematou: teve sorte em não ter apanhado o Sr. Gouveia.
A senhora lá saiu em Campanhã. Nós continuámos para Santa Apolónia. A viagem prosseguiu, mas o Sr. Gouveia ficou.
O Sr. Gouveia não era apenas um revisor mais severo. Não era só um funcionário mais exacto, mais fiel ao regulamento. Chamá-lo zelota seria, no fundo, absolver-lhe a mesquinhez. No zelota há uma fé absoluta. E a fé, quanto mais desvairada, mais magnífica. O Sr. Gouveia pertence à estirpe dos que precisam de ver a regra cair sobre alguém, retirando daí um prazer obscuro. É, no fundo, um pequeno Robespierre, apaixonado mais pelo mecanismo da guilhotina do que pela justiça. A regra, quando não fere, parece-lhe incompleta.
Fiquei a pensar no Sr. Gouveia. Quer dizer, não no homem propriamente dito. Não o conheço (e talvez seja, quem sabe, um excelente pai de família, bom vizinho, benfiquista, cumpridor). Foi antes no impulso que o seu nome baptizou. É que há espíritos assim. E, pior, há uma escrita assim.
Chamo-lhe uma escrita de Sr. Gouveia.
É um tipo de escrita que não quer compreender, nem discernir, nem sequer chegar a uma conclusão. Procura detectar a falta alheia, puxá-la para a luz e retirar daí a sua gratificação. Participa, por isso, do mecanismo pornográfico da exposição: tudo tem de ser posto à vista, tudo tem de comparecer. Em certo sentido, nem chega a ser escrita. Seja feita por uma pessoa, seja produzida por uma máquina, é artificial em ambas as hipóteses. Parece movida pelo desejo de melhorar o mundo, mas aquilo que a anima é o instante em que alguém é posto em sentido diante dos outros: em vez de pensar, sopra no apito.
E prospera. Sobretudo entre os que se imaginam lúcidos. Fala-se de justiça, dignidade, consciência, reparação. Contudo, bastam duas ou três linhas para que o leitor medianamente desperto sinta o cheiro a azedo. O adversário não entra como adversário. Entra já reduzido a caricatura. Não lhe são concedidas razões, mas sintomas. Não se procura entendê-lo. A argumentação cede lugar ao retrato-robô. E o leitor é convidado a entrar para uma claque.
Eis um dos traços mais fatigantes de certa prosa contemporânea: está toda ela armada para produzir aplauso entre os convertidos. (Disse prosa, mas podia ter dito teatro, cinema, música, seja o que for.) Falta-lhe curiosidade pelo mundo. Falta-lhe vagar diante da ambiguidade. Falta-lhe aquele módico de caridade sem o qual até a crítica mais justa se degrada em brutalidade. Dêem-lhe o nome que quiserem — vigilância, consciência cívica, pedagogia social —, e ainda assim a coisa não muda de natureza. É a velha pulsão policial do homem, a inclinação imemorial para vigiar o próximo e achar nisso uma forma de elevação pessoal.
O Sr. Gouveia anda pelas carruagens do mundo à espera de quem se esqueceu da reserva. Está convencido de que é isso que os outros esperam dele; e há sempre centenas: de carruagens, de pessoas que se esquecem de coisas, de Senhores Gouveias. Reduzir uma pessoa inteira à escala da sua falta é fácil. Basta quase nada. Muito mais fácil do que arriscar entrar nesse território perigoso, contraditório e fascinante que é a natureza humana. E ter, por exemplo, de ouvir histórias de mal-entendidos e tratamentos termais.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome
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