Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso/ É possível, porque tudo é possível, que ele seja/ aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo/ onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém/ de nada haver que não seja simples e natural.” (Jorge de Sena)
Setembro é o mês de regresso à escola. Ao outro mundo em que as crianças e os adolescentes habitam um imenso número de dias e horas por cada ano, onde crescem, aprendem e, sobretudo, se relacionam com tudo o que está para além das suas casas, descobrindo, assim, o que podemos chamar “mundo”.
Não sei que mundo esperar agora em mais um ano letivo que se inicia. Só desejo que seja mais simples do que os dois anteriores, marcados por factos tão difíceis e inesperados para os mais novos, para todos, para a Humanidade: a pandemia Covid-19. Como o poeta, não quero mais do que as dificuldades naturais – e elas já são tantas – de que se revestem o crescimento, a aprendizagem, o relacionamento. Gostava ainda que, este ano, na escola, houvesse, de forma mais presente, “um mundo em que tudo seja permitido/ conforme o vosso gosto/ o vosso anseio/ o vosso prazer/ o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós”, sobretudo daqueles para quem aprender não é tarefa fácil.
Um mundo, uma escola, onde fosse possível manter viva a curiosidade, cuja morte tão precoce num sem-número de crianças e adolescentes me inquieta bastante. E que existisse mais contacto, de novo, face a face, e, com ele, mais e uma melhor relação com os outros (adultos e grupo de pares). Um mundo, uma escola que exaltasse a força genuína da dúvida, aceitando um “não sei” com o louvor de quem honestamente deseja aprender ousando experimentar e, sem medo, errar.
Um mundo, uma escola, conforme “o vosso gosto”, pois qualquer um, felizmente, é singular enquanto pessoa, enquanto aluno, e ainda bem que nem todos gostamos dos mesmos assuntos ou possuímos (desenvolvemos) iguais capacidades para ler, contar, escrever, pintar ou até, simplesmente, correr e brincar. Uma escola em que cada qual pudesse satisfazer o anseio infantil e juvenil de abertura ao desconhecido, ao mundo, quer este seja o nosso ou o do outro. E “anseio de ser”, claro, o prazer de existir, prosseguindo sem grilhetas nestes primeiros e determinantes anos de vida, eliminando pesos que prendam ao passado ou fardos cheios de visões negativas do futuro.
Uma escola de “respeito por vós”, em que falar seja sempre possível, sem medo ou condicionamentos, e, dentro do falar, o ousar perguntar. E “respeito pelo outro”, que também se fomenta e deve ser expresso no difícil ato de ouvir, saber ouvir, colocando-se no lugar alheio. Porque o mundo, a escola, pode tornar fracos os fortes, normalizar e empobrecer os mais inteligentes ou os que estão em lugares mal situados, fora da rigidez de algumas normas, como as que atualmente, por exemplo, menosprezam artes e humanidades em detrimento de ciências e tecnologias.
A escola, esse local onde os nossos filhos passam mais tempo do que em casa, connosco, devia ser (acima de tudo) uma boa preparação para o mundo, que quase nunca faz parte da “matéria” porque, na realidade, ele é uma questão de “espírito”. Diz ainda Jorge de Sena no mesmo poema: “Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém/ vale mais que uma vida ou alegria de tê-la./ É isto o que mais importa – essa alegria.” A vida. Não sei, mas pessoalmente desejava que essa alegria no mundo se tornasse um traço, e que cada traço se tornasse uma inscrição que, como cada risco de tinta num caderno, pudesse permanecer para que, mais tarde recordada, fosse ainda algo de útil ou funcionasse como breve chama ou luz do querer sempre continuar a aprender. Porque, de verdade, como termina o mesmo poema:
“Um dia, sabereis que a Humanidade/ não tem em conta os que pensavam assim/ amaram o seu semelhante no que ele tinha de único.”
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