Deram-lhe o nome de Maria das Dores.
Com esse nome só podia estar fadada para a tristeza. “Dar um nome é atribuir um destino ao qual não se pode escapar”, dizia a mulher que lia a sorte nas águas. Águas turvas, águas que mentem, águas que ditaram a sorte de Maria e de cada um naquela povoação esquecida do interior.
Desde pequena que Maria ouvia os habitantes dizerem que “a tristeza, quando entra no coração da gente, pode até virar doença”. Maria, de seu nome das Dores, conhecia-a bem. Não a temia. Tratava-a por tu. Nunca tivera medo de a receber em casa como sua ilustre convidada. A tristeza era também uma espécie de linguagem. Talvez não fosse mais do que uma invenção humana. Agora, ouvia-se falar em depressão, essa coisa moderna. A tristeza é mais antiga. É secular. E a maioria das pessoas ia-se entretendo, ou esquecendo, para não deixar a maldita entrar.
A apotecária dizia que não era coisa que se pegasse, e as pessoas acreditavam. Houve tempos em que a chamaram de bruxa. Agora, era a apotecária. Quase doutora, de canudo e tudo. Conhecia as ervas e os venenos. Era ela quem lhes providenciava as poções, as rezas, os unguentos. Os remédios para as dores do corpo e da alma. Estas mais difíceis de curar do que aquelas. Nem sempre o tempo dava uma resposta satisfatória. Havia quem lhe pedisse tintura para a tosse e as úlceras. Outros, para o mau-olhado. Houve mesmo quem lhe perguntasse se conhecia um remédio que acalmasse a saudade. Camomila, valeriana, guaco, espinheira-santa. Cada planta tinha nome de feitiço. Até aliviavam as dores internas, mas nada acalmava a saudade nem espantava a tristeza.
Diziam que havia uma mulher tão insuportável que nem o cão gostava dela. E um homem tão mau que até o Diabo o evitava. Um dia, a mulher insuportável tentou suicidar-se atirando-se da janela abaixo. Mas a história teve um final feliz: o cão sobreviveu e encontrou um novo lar. E afinal, o homem mau só estava muito triste. A tristeza roubara-lhe os traços de menino, substituindo-os por aquela carantonha. Há sempre uma meia-verdade em todas as histórias que se contam. E essas histórias tornaram-se lendas na aldeia. Ali, falava-se e sentia-se tudo com muito fatalismo. Coisa bem portuguesa.
Havia um grande debate entre os aldeões. O que teria levado João Pilecas, primo de Maria das Dores?
– Ele morreu foi de saudade – dizia o sapateiro.
– Há quem morra da vontade de morrer – comentavam as bordadeiras.
– Dizem que ele morreu de tristeza – assegurava um ancião. Há palavras que doem mais do que um grito.
– Ninguém morre de tristeza – disse a Maria das Dores.
– Ai isso é que morre – garantiram os habitantes. Juravam a pé juntos, se preciso, e com a mão bem assente na Bíblia.
João Pilecas era um homem de fraquíssima figura e estatuto. Magrinho como um cão até se ver os ossos. Uma doença misteriosa levara-lhe a filha em tenra idade. E ele, pai e fiel depositário da criança que amava em adoração, enterrou-se vivo no mesmo dia em que ela partiu. Depois, a tristeza, num ato de misericórdia, acabou por levá-lo também. Quem diria que ela até é piedosa.
Os aldeões contavam os dias felizes para sobreviver aos dias maus. As colheitas, as festas, um copo de vinho na tasca, o cheiro do pão da vizinha acabado de fazer. Era este o banquete da felicidade
Ainda bem que a tristeza não era coisa que se pegasse. Era o que faltava. Já não bastava a cada um as misérias que colecionava. Podiam nascer em berços distintos, mas todos eram paridos pela dor. Sangravam as mesmas angústias. Todos conheciam de perto a tristeza e a miséria que a acompanhava. Era das poucas coisas que tinham em comum, além de viverem na mesma aldeia esquecida. Nascidos em berço de ouro ou não, todos, algum dia, seriam tocados pela perda. A desgraça também bate à porta das casas fartas. Ricos, pobres, doutores, iletrados, velhos, novos, todos algum dia iriam conhecer a dor e desejar uma forma qualquer de lhe escapar. E, quando isso não fosse possível, anestesiar. Até os que tinham nascido com o dito cujo virado para a lua, como Zé Esteves. “Ah, esse já nasceu feliz”, diziam em tom de troça. Pessoas demasiado felizes irritavam muita gente, e nem a apotecária tinha uma tintura eficaz para a dor de corno.
Naquela aldeia, havia muito mais velhos do que jovens. E não era porque os jovens tivessem ido para as grandes cidades ganhar dinheiro e ser alguém na vida. Os jovens morriam mais rapidamente, mesmo com as poções da apotecária. Os velhos eram mais resilientes. Sabiam que, tal como a felicidade, a tristeza era passageira, mera visita. Cabia-lhes dizer-lhe quando era hora de se ir embora. Não valia a pena ter grandes maneiras com a Dona Tristeza. Os velhos eram espertos e sabiam das coisas. “Menina, arranja um velho para conselheiro, se quiseres ter sucesso”, ouvia Maria das Dores desde pequena. Os aldeões contavam os dias felizes para sobreviver aos dias maus. As colheitas, as festas, um copo de vinho na tasca, o cheiro do pão da vizinha acabado de fazer. Era este o banquete da felicidade. Tendencialmente, há mais dias maus do que dias felizes. São as contas que Deus fez.
– Hoje, a Lua sangra – disse o serralheiro.
– Já sabia. Vi nas águas – confirmou a mulher que, por dois tostões, lia a sorte no seu cântaro de água.
– É bom que vossemecê tome ciência. Quando a Lua sangra, é um presságio ruim – garantiam.
Havia uma tristeza que vinha quando a Lua ficava escura. Quando a Lua escurece, revelam-se segredos adormecidos, suspeitas esquecidas, mágoas reprimidas. O misticismo era mais sedutor do que a lógica de um fenómeno de luz. A lógica era fria e simples. E os homens não gostam de coisas simples, de ótica e alinhamento orbital. O ser humano tem uma queda para adicionar camadas filosóficas ao que é simples e puro.
A Terra intromete-se entre a Lua e o Sol e projeta a sua sombra sobre a superfície lunar. Um eclipse lunar. A Lua não desaparece, adquire um tom avermelhado como o sangue. A luz do sol atravessa a atmosfera da Terra antes de chegar à Lua e, nesse caminho, os tons azulados dispersam-se enquanto as frequências avermelhadas continuam e iluminam a Lua. Para os habitantes da aldeia, não era ciência. Era uma breve explicação da tristeza.
– Tolices. Os astros não querem saber de nós. São fornalhas incandescentes, pó e massa. Alienados e indiferentes à nossa dor e aos nossos destinos. Quem acha que a sorte está escrita nas estrelas é porque tem medo de olhar para os próprios pés – disse Maria das Dores.
– Cuidado, das Dores. As palavras têm poder – aconselhou a apotecária.
– Estou farta de tanto medo e tanta superstição – retorquiu Maria das Dores.
– Só os tolos acreditam na sorte. Lamento muitíssimo ser um grandessíssimo trolha – disse o ajudante do capelão, que não fugia da reputação de gostar tanto de uma pregação como de uma boa pinga.
Não havia uma explicação concreta para a tristeza crónica que se vivia na aldeia. Apenas histórias, lendas e alinhamento cósmico, e a sorte que se lia nas águas por apenas dois tostões. A tristeza faz dos humanos patéticos. Domina-os. Escraviza-os. São como fantoches nas suas mãos. Fá-los pensar que não há mais saída. E assim aparecem a Dona Tristeza e o seu cortejo patético de mágoas e dores, e coisas que tais. Estão todos em lista de espera para a procrastinação lúgubre.
Maria das Dores tinha-se encolhido. Era cada vez mais pequena para caber em algum lugar. Tinha escolhido não dar lugar à tristeza. Quando se escolhe, todas as possibilidades deixam de ser infinitas. Em breve, poderia desaparecer. Eclipsar-se.
Talvez a tristeza fosse mesmo fatal.
Inventário do Eclipse é uma associação entre a VISÃO e o Clube das Mulheres Escritoras
