Depois de, em dez anos, ter feito crescer o Livre de nona força política, sem representação parlamentar, e atrás do PCTP/MRPP, para quinta força, com um grupo parlamentar de seis deputados, Rui Tavares, o rosto histórico do partido, e seu principal fundador, uma das figuras parlamentares mais conhecidas dos portugueses, abandona a liderança – o cargo é o de “porta-voz” – que, até ao próximo fim de semana, quando se realiza o congresso, ainda partilha formalmente, com a deputada e líder parlamentar Isabel Mendes Lopes. Depois do erro de casting de 2019, com a escolha da cabeça de lista por Lisboa, decidida em primárias, a ter recaído no nome de Joacine Katar Moreira, e depois de ter começado tudo de novo em 2022, o Livre foi o único partido da esquerda a não encolher e, o mais importante, a crescer significativamente, nas últimas eleições legislativas, em 2025. Com trabalho árduo e uma paciente afirmação pessoal junto dos média e dos eleitores, Rui Tavares, sem que tenha sido confrontado por qualquer percalço político, imita os exemplos de Cotrim de Figueiredo e Rui Rocha (curiosamente, ocorridos num partido de direita, a IL) e sai pelo seu próprio pé. Por cima. Porquê?
Rui Tavares fornece algumas explicações (ver caixa com entrevista), mas a tendência dos tempos parece seguir a regra de que o capital político se faz fora do palco principal – ou ao lado dele: recorrendo, de novo, a um exemplo da IL, é fácil verificar que, tendo saído da liderança com o prestígio intacto, Cotrim de Figueiredo cresceu mais, eleitoralmente, do que o seu próprio partido, como comprovaram os resultados em europeias e, sobretudo, nas últimas presidenciais. Sair em alta é um seguro de vida para quem conserve ambições políticas. E mesmo que não se saia muito em alta – caso de Pedro Nuno Santos depois de se ter demitido de ministro –, uma boa travessia do deserto, com acesso aos meios de comunicação, pode criar expectativas. Passos Coelho é agora influente porque está de fora, Mário Centeno idem. E Rui Tavares, garante uma fonte do Livre que lhe é próxima, pode vir a apostar num espaço de comentário político “a sério”, se a oportunidade se proporcionar. Mas haverá outras razões: o Livre foi, demasiado tempo, o partido de um homem só. E o protagonismo e a simpatia angariada, malgrado os resultados eleitorais, de Jorge Pinto, candidato presidencial que se revelou, até à (na prática) desistência a favor de António José Seguro, a melhor surpresa da campanha presidencial, foram exemplo de como o Livre pode vir a apresentar-se como um partido de quadros, uma espécie de IL da esquerda.
