Nos telefones de muitos, esta semana o feed apresentava o que parecia uma notícia do jornal ECO. A “notícia” era um relato de uma suposta entrevista do governador do Banco de Portugal no programa Casa Feliz da SIC. O governador teria sido acusado pelo jornalista José Gomes Ferreira de “esconder uma forma de ganhar dinheiro que enriquece pessoas comuns à custa dos bancos”. A “notícia” legendava as supostas fotos do programa com a frase: “Cenas chocantes no estúdio de Casa Feliz quando o governador se recusou a responder e abandonou o programa ao vivo.” Também incluía um link para o suposto “algoritmo” a que qualquer um podia aceder e ganhar muito dinheiro e “testemunhos dos utilizadores” que teriam ganhado o suficiente para liquidarem dívidas pessoais.
Após algumas pesquisas, encontram-se desmentidos e polígrafos/fact check a confirmar que a notícia é fraude.
Mas a “notícia” continua na net, disponível para qualquer incauto. Não obstante a fraude usurpar a imagem e o bom nome do Banco de Portugal, do seu governador, da SIC, do jornalista José Gomes Ferreira e do apresentador João Baião, e ainda a imagem do jornal ECO, nenhuma destas instituições ou pessoas conseguiu eliminar o rasto… e a humilhação.
E se estas instituições e pessoas com meios distintos das pessoas comuns são incapazes de reagir eficazmente, basta imaginar quão desprotegido está o cidadão comum. Seja de ver conspurcado o seu nome, seja de, involuntariamente, a sua história de vida e a sua imagem serem instrumentalizadas num esquema fraudulento, causando dano a terceiros.
No início do mês de junho, a Comissão Europeia divulgou o pacote para a estratégia de soberania digital. Pretende-se promover a cibersegurança. Financiar alternativas, que no seu design incorporem os valores e as regras da União Europeia. Apps que possam ser utilizadas em substituição das plataformas sociais como Instagram e TikTok, meios de comunicação como WhatsApp e ferramentas de trabalho como Microsoft Office. Visa-se também apoiar modelos de LLM baseados na Europa e a construção de data centers que sirvam as soluções europeias.
Iniciativas essenciais certamente, mas cujo sucesso será complexo. Já estão disponíveis alternativas, mas não as usamos… e provavelmente até as desconhece: Pixelfed como alternativa ao Insta, W Social ao invés do X, Mistral como opção ao ChatGPT, Office.eu face ao Microsoft Office.
Não as usamos porque “não está lá ninguém” e porque as “americanas são melhores”. E não é mentira. Mas só são melhores, ou seja, mais aditivas e eficientes, porque são predatórias dos nossos dados pessoais, porque não respeitam as regras do direito de autor, porque desconsideram os custos ambientais dos data centers. Porque não pagam impostos (ou pagam muito menos do que qualquer empresa europeia)… e sobra muito dinheiro para desenvolver algoritmos e aceitar com um sorriso de escárnio as multas que, após um processo iniciado dois anos antes, são finalmente impostas pela Comissão Europeia e das quais recorrem (arrastando pelos tribunais mais uns anos os processos).
Finalmente, e sobretudo, porque a lei não responsabiliza os donos das redes sociais pelas notícias falsas, maliciosas, violentas, cuja divulgação promovem para assim aumentarem as visualizações, recolherem mais dados e venderem mais anúncios.
Uma estratégia que não obrigue ao pagamento dos custos da utilização da infraestrutura, que não incorpore medidas cautelares onde plataformas que violam as regras sejam de imediato suspensas, que não cobre impostos e, sobretudo, que não responsabilize os donos das plataformas da mesma forma que no mundo físico somos responsabilizados pelos nossos atos, será uma estratégia impotente. O problema não se resolve apenas com mais financiamento, mas com a aceitação de que sem regras efetivas e um “policiamento” eficiente das mesmas, estamos, como o Banco de Portugal descobriu, totalmente vulneráveis à ganância das big tech e dos “artistas” do crime.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.