Nova Iorque sempre teve a extraordinária capacidade de parecer maior do que a geografia. É uma cidade, mas também uma ideia: a promessa de que o movimento vence a imobilidade, o comércio vence as fronteiras e o futuro, por mais caótico que seja, acaba por chegar primeiro ali. Talvez por isso as Torres Gémeas fossem mais do que dois edifícios. Eram a arquitetura de uma época. Quando desapareceram do horizonte de Manhattan, na manhã de 11 de setembro de 2001, não ruíram apenas 110 andares de aço e betão. Terminou, de forma brutal, a breve ilusão de segurança em que o Ocidente vivera desde o fim da Guerra Fria.
Vinte e cinco anos depois, sabemos que o 11 de Setembro não mudou o mundo num único dia. Mudou, porém, a direção em que o mundo caminharia. Os atentados mataram quase três mil pessoas, mas a sua verdadeira dimensão histórica encontra-se naquilo que desencadearam. Poucos acontecimentos demonstram de forma tão cruel que, em política internacional, o poder de um ato não se mede apenas pela destruição que provoca, mas pelas decisões que obriga os outros a tomar.

Em 2001, os Estados Unidos da América eram uma potência sem equivalente. A União Soviética desaparecera, a China ainda não era um rival estratégico, a Rússia procurava um lugar numa ordem desenhada pelo Ocidente e a União Europeia preparava o seu grande alargamento. Falava-se de globalização quase como destino histórico. O século americano parecia não ter adversário.
Foi precisamente nesse momento de supremacia que a América descobriu a sua vulnerabilidade.
A resposta foi compreensível na origem e gigantesca nas consequências. O Afeganistão, o Iraque, a “guerra contra o terror”, Guantánamo, a expansão dos serviços de informações, a vigilância em massa, os drones e a transformação da segurança numa presença permanente na vida quotidiana nasceram, direta ou indiretamente, daquela manhã. Os aeroportos mudaram, as fronteiras mudaram, as leis mudaram. Mudou sobretudo a relação entre liberdade e segurança. Democracias que durante décadas tinham temido o excesso de poder do Estado passaram a exigir-lhe que soubesse mais, vigiasse mais e antecipasse mais.
Mas a alteração mais profunda foi geopolítica. Durante quase 20 anos, Washington concentrou uma parte extraordinária da sua energia política, militar e financeira no Médio Oriente e na Ásia Central. O Iraque consumiu capital estratégico e credibilidade. O Afeganistão terminou, em 2021, com imagens de retirada que pareciam encerrar uma época. E que conquistas conseguiram? Entretanto, o mundo que os Estados Unidos julgavam poder organizar estava a reorganizar-se sem pedir autorização.
A China tornou-se uma superpotência económica e tecnológica. A Rússia regressou à lógica imperial e, em 2022, trouxe de novo uma guerra de conquista ao continente europeu. O Irão construiu uma arquitetura regional de influência. A Índia afirmou-se como potência autónoma. O chamado Sul Global deixou de aceitar automaticamente que a ordem internacional e a ordem ocidental fossem sinónimos. E a Europa, que durante anos acreditou que a interdependência económica tornaria a guerra irracional, descobriu na Ucrânia que uma guerra pode ser irracional e acontecer na mesma.
Há, por isso, uma ironia amarga no legado do 11 de Setembro. A Al-Qaeda nunca derrotou os Estados Unidos. Não tinha capacidade para isso. Mas conseguiu que a única superpotência do sistema internacional passasse anos a combater nos terrenos escolhidos pelos seus inimigos. O custo não foi apenas financeiro ou humano. Foi também o custo de oportunidade de uma potência distraída enquanto começava a nascer a competição que verdadeiramente definiria o século XXI.
O terrorismo também mudou. A ameaça hierarquizada da Al-Qaeda deu lugar a organizações como o Estado Islâmico, a redes fragmentadas, radicalizações digitais e atores solitários. Ao mesmo tempo, o medo tornou-se matéria-prima política. Imigração, identidade, fronteiras, islamismo e segurança entraram definitivamente no centro da política ocidental. Parte do crescimento dos populismos europeus e americanos não nasce no 11 de Setembro, evidentemente, mas desenvolve-se num ambiente político que aquele dia ajudou a criar: sociedades mais desconfiadas, Estados mais securitários e cidadãos menos convencidos de que a globalização beneficia necessariamente todos.
Talvez seja essa a maior distância entre 2001 e 2026. Há 25 anos, o Ocidente temia sobretudo inimigos que vinham de fora. Hoje teme também aquilo que lhe acontece por dentro: polarização, erosão institucional, desinformação, fragmentação social e perda de confiança na democracia. O poder tornou-se novamente multipolar, a guerra regressou à Europa e a tecnologia transformou indivíduos, empresas e Estados em atores de uma mesma disputa global.
Nova Iorque reconstruiu o seu horizonte. Onde estavam as torres existe hoje um vazio deliberadamente preservado, duas enormes ausências desenhadas na pedra. Talvez seja essa a imagem mais rigorosa destes 25 anos. O mundo também continuou, reconstruiu-se e encheu o espaço deixado por 2001. Mas algumas ausências nunca desapareceram.
O 11 de Setembro não foi o dia em que o mundo mudou para sempre. A História raramente concede a um único dia tamanho privilégio. Foi algo mais inquietante: o dia em que começámos a perceber que o mundo em que julgávamos viver já estava a desaparecer. Vinte e cinco anos depois, ainda estamos a descobrir o que nasceu no seu lugar.
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