Há uma doença profissional que costuma atacar com força quem passa dez dias num festival de cinema: começa-se lentamente a acreditar que a cidade de Veneza existe apenas entre a acreditação, a sala de imprensa no Casino, a passadeira vermelha e a pergunta inevitável: “Então, o que viste hoje?”. Em Veneza, a doença torna-se mesmo grave porque a 83.ª Mostra decorre no Lido, a praia de Veneza virada para o Adriático, este ano entre 2 e 12 de setembro — embora as datas andem sempre, mais coisa menos coisa, por aqui — e é perfeitamente possível passar mais de uma semana a sair do hotel, atravessar a esplanada do Casino, entrar numa sala escura, sobretudo na Darsena, normalmente muito dedicada às sessões de imprensa, sair para outra fila, voltar ao vaporetto, para quem não fica no Lido — felizmente não é o meu caso — e achar ao fim do dia que estivemos em Veneza.
Não estivemos, não senhor. Estivemos num festival de cinema montado em frente de Veneza. A cidade continuou do outro lado da água, ligeiramente ofendida, quase a perguntar: “Eu sou tão bonita, tenho tanta coisa para ver e aquela gente passa o dia inteiro fechada no cinema?”
Veneza tem, aliás, um problema de reputação: é tão famosa que quase ninguém verdadeiramente a vê. Vê-se São Marcos, Rialto, dá-se uma voltinha de gôndola, já com percurso definido pelo gondoleiro, sobretudo para tirar fotografias e mediante uma conta capaz de provocar uma pequena perturbação cardiovascular, e depois juntam-se quatro mil pessoas a tentar fazer exatamente a mesma fotografia da Ponte da Academia. Publica-se “Venezia, I Love You” e dá-se a missão por cumprida. É o trailer turístico da cidade: os melhores planos e sem o verdadeiro filme. E muitos turistas — e muitos festivaleiros — nem do trailer passam. Durante a Mostra, uma das melhores ideias é, portanto, cometer uma pequena traição profissional, faltar a um filme ou dois e desaparecer durante algumas horas para Veneza. Com vaporetto praticamente à porta, nomeadamente a linha 20 e a sazonal MC — Mostra Cinematografica —, nem sequer há desculpa.
A Biennale: arte até os pés pedirem demissão
A fuga mais óbvia é, evidentemente, a 61.ª Biennale de Arte, este ano com o título In Minor Keys, aberta até 22 de novembro nos Giardini, no Arsenale e por dezenas de espaços espalhados pela cidade. O projeto foi concebido por Koyo Kouoh, a curadora camaronesa-suíça que morreu inesperadamente em maio de 2025, e a Biennale decidiu concretizá-lo respeitando a exposição que ela deixou desenhada. Uma Bienal póstuma numa cidade de palácios, fantasmas, decadência e memória: em Veneza até a melancolia tem curadoria.
Não tentem ver os Giardini e o Arsenale de rajada como quem risca monumentos de uma excursão organizada. É possível, evidentemente, da mesma maneira que é possível comer cinco pratos de massa e depois correr uma meia-maratona. Mais sensato é escolher, vaguear, entrar num pavilhão porque a porta nos chamou a atenção, sair de outro porque uma instalação exige quarenta e sete minutos da nossa existência e aceitar que, a certa altura, os pés também começam a produzir crítica de arte. A Biennale é um dos poucos lugares do planeta onde podemos ficar dez minutos diante de uma pedra, um tubo e um cabo eléctrico sem que alguém chame imediatamente a assistência médica.
Portugal, felizmente, também não veio a Veneza para estar quieto. A representação oficial é RedSkyFalls, de Alexandre Estrela, com curadoria de Ana Baliza e Ricardo Nicolau, instalada no Fondaco Marcello, relativamente perto de San Marco e perfeitamente acessível a pé. A obra reage em tempo real à atividade sísmica global, transformando sinais geofísicos num ecossistema de imagem, som e seres artificiais.
É, no fundo, o terramoto de 1755 atualizado para a era digital: o chão mexe algures no planeta e Portugal recebe a notificação. Uma evolução civilizacional apreciável. Primeiro, temíamos a providência divina; agora, ficamos à espera que o sistema operativo não vá abaixo.
E precisamente nestes dias do Festival houve prolongamentos bastante mais estimulantes do que algumas sessões das oito e meia da manhã. A 9 de setembro, Alexandre Estrela apresentou Ruin Marble no Cinema Galleggiante, com ativação sonora de Gabriel Ferrandini — não deu para ir, porque até quem recomenda fugir do Festival acaba inevitavelmente preso ao Festival — e, no dia seguinte, o Fondaco Marcello recebeu Sirena, de Laia Estruch, e The Sinking of the Titanic, de Gavin Bryars. Em Veneza, até o Titanic tem a delicadeza de regressar por água.
E não termina aqui a presença portuguesa. Pedro Cabrita Reis ocupa o Magazzino del Sale 3, em Dorsoduro, com XIV Steps, projeto independente apresentado em paralelo com a Biennale e composto por 14 grandes dípticos inspirados nas estações da Via Sacra. Cabrita pega numa das narrativas fundadoras da pintura europeia para falar de violência, sofrimento, condição humana e redenção. Portugal está, portanto, particularmente animado em Veneza: ou há abalo sísmico ou há crucificação. Depois admiram-se que os estrangeiros prefiram os pastéis de nata.
Peggy, Abramović e a síndrome de Stendhal com bilhete
Se ainda houver retina disponível, Veneza consegue liquidar definitivamente qualquer agenda. Na Coleção Peggy Guggenheim, Peggy Guggenheim in London: The Making of a Collector regressa aos anos de 1938 e 1939, quando Peggy abriu a Guggenheim Jeune em Londres e começou a construir o olhar que faria dela muito mais do que uma milionária americana com bons contactos e paredes ainda melhores.
No Palazzo Grassi está Michael Armitage com The Promise of Change; na Punta della Dogana, Lorna Simpson ocupa o espaço com Third Person; e no Museo Fortuny — um daqueles lugares incontornáveis sempre que se visita Veneza — Erwin Wurm apresenta Dreamers, onde o humor faz exatamente aquilo que o bom humor deve fazer: deforma a realidade até ela confessar. Portanto, quem sair do Festival a dizer que “não havia nada para ver” deve ser imediatamente obrigado a devolver a acreditação.
E depois há Marina Abramović. Passou meio século a provar que o corpo humano pode ser atelier, arma, ferida, instrumento e material de construção e apresenta nas Gallerie dell’Accademia Transforming Energy, até 18 de outubro. É a primeira mulher artista viva a receber ali uma exposição desta dimensão, colocando a sua obra em diálogo direto com os grandes mestres da pintura.
Depois de um dia inteiro na Biennale, com vinte mil passos nas pernas, desidratado, dor lombar e desesperadamente à procura de uma cadeira, qualquer crítico de cinema, começa finalmente a compreender melhor o conceito de performance. Sobretudo depois de ainda ter pela frente mais três filmes do Festival.
O melhor antídoto para tanta instituição em Veneza é, entretanto, simples e gratuito: perder-se. Sair de São Marcos, esquecer as setas para Rialto e andar por Cannaregio, Castello, Fondamente Nove ou pelo Gueto, por campi onde ainda há roupa estendida e venezianos que não parecem ter sido contratados pelo município para fornecer “autenticidade local”. Entrar num bacaro, pedir vinho e cicchetti e experimentar essa experiência quase subversiva do século XXI: permanecer num lugar alguns minutos sem sentir a obrigação de o transformar imediatamente em conteúdo para as redes sociais.
Para isso existe um guia melhor do que o Google Maps: Corto Maltese. Fábula de Veneza, de Hugo Pratt, continua a ser uma magnífica porta de entrada para este labirinto, e Guido Fuga e Lele Vianello prolongaram o jogo em Corto Sconto, sete itinerários pela Veneza escondida feitos de pátios, histórias, tabernas, pedras, lendas e lugares que o turismo de rebanho normalmente ignora. O princípio é perfeito: um guia turístico ensina como chegar depressa; Corto ensina como chegar tarde. Num mundo dominado pelo GPS, perder-se voluntariamente já não é sequer extravagância. É quase cultura geral.
E, para perceber Veneza verdadeiramente, convém ainda descer de nível. Um passeio de caiaque ou uma iniciação à voga alla veneta, remando de pé pelos canais menos frequentados, devolve a cidade à sua lógica original. É muito mais giro do que andar de gôndola. Embora, sejamos justos, toda a gente deva andar de gôndola pelo menos uma vez na vida, nem que seja para depois poder dizer mal do preço com conhecimento de causa. Os canais deixam então de ser cenário e voltam a ser ruas; as portas viradas para a água recuperam o sentido; percebe-se finalmente por que razão ambulâncias, lixo, mercadorias, mudanças de casa e até funerais viajam de barco. Veneza não foi construída junto à água. Foi construída para a água. Parece apenas uma diferença semântica. Mas muda tudo.
O Lido depois de tirar o crachá
E depois há o próprio Lido, provavelmente o lugar mais mal visto por quem passa todos os anos pelo Festival. “Mal visto” no sentido literal: olha-se para o Palazzo del Cinema, o Casinò, o Hotel Excelsior e acabou. Quando o Festival termina, porém, o Lido recupera aquele espírito pachorrento de fim de verão, com bicicletas, praia, pequenas casas de férias, jardins e uma tranquilidade que dez dias antes parecia cientificamente impossível. Tem cerca de 12 quilómetros de comprimento, é praticamente plano e pede uma bicicleta. De repente estamos noutra Veneza, com árvores, automóveis, ruas e praias, ou seja, quase uma provocação urbanística para quem acha que Veneza é só o labirinto de pontes da Sereníssima. O Lido é muito tranquilo. O percurso pode atravessar as villas Liberty, zonas verdes, a frente marítima e seguir para sul até Malamocco e Alberoni.
O cinema, naturalmente, ficou colado à paisagem. A primeira Mostra nasceu em 1932 no terraço do belo Hotel Excelsior, e por ali passaram estrelas, realizadores, festas, romances, contratos, fiascos e centenas de entrevistas em que toda a gente garante que “foi um sonho trabalhar com este realizador”. O Excelsior continua a desempenhar esse papel de sala de estar extra-oficial do Festival, só que com menos cadeiras de plástico e contas bastante mais difíceis de apresentar à contabilidade. Só para entrar no bar, durante estes dias, o consumo mínimo obrigatório chega aos 50 euros. A esse preço, cada café devia vir acompanhado de um pequeno papel secundário no filme em competição.
Mais adiante, na Lungomare Guglielmo Marconi, mas seguindo no sentido oposto ao de Alberoni, a caminho da Piazzale Santa Maria Elisabetta — grande terminal das várias linhas de vaporetto para Veneza e as outras ilhas, além do Alilaguna para o aeroporto — ergue-se o Grand Hotel des Bains, talvez o maior fantasma cinematográfico do Lido.
Thomas Mann hospedou-se ali em 1911 e dessa experiência nasceu Morte em Veneza. Luchino Visconti filmou depois ali boa parte da adaptação cinematográfica, com Dirk Bogarde e o jovem Björn Andrésen, falecido o ano passado. O hotel fechou em 2010 e desde então vive num limbo imobiliário digno de Antonioni. Um acordo anunciado em 2025 abriu caminho à sua recuperação integral e à transformação em apartamentos de luxo, embora, por enquanto, as obras continuem muito mais presentes nos projetos do que propriamente no edifício.
Passear diante do Des Bains ao fim da tarde continua, apesar disso, a ser uma projeção privada de Morte em Veneza. Mahler não vem incluído, mas pode sempre levar-se nos auscultadores.
Se houver tempo — e devia ser quase obrigatório arranjá-lo — continue-se para sul da língua de areia do Lido. E encontramos Malamocco uma pequena aldeia piscatória, que conserva a escala e a placidez de uma aldeia lagunar; Alberoni muda completamente o cenário, com praia livre, pinhal e um sistema protegido de dunas, numa das zonas naturais mais preservadas do Adriático. Foi também por ali que Visconti rodou exteriores de Morte em Veneza. A bicicleta passa das villas Liberty para os Murazzi e destes para um pedaço de natureza onde ninguém quer saber do buzz do novo candidato ao Leão de Ouro, do embargo de uma crítica ou da classificação provisória da Screen International.
É realmente terapêutico fazê-lo durante o Festival. E, se não houver tempo, vale a pena ficar mais um ou dois dias no Lido depois de terminar tudo, até para assistir à desmontagem. É uma experiência estranha: desaparecem os cartazes, desmontam-se barreiras, retiram-se os tapetes, os jornalistas evaporam-se, os famosos já partiram e a ilha regressa devagarinho a si própria. Dá aquela inevitável nostalgia de fim de festa. E depois pensamos: para o ano há mais. Se houver vida e saúde. Porque muitos dos nossos camaradas de muitos anos de Festival, entretanto já partiram para sempre.
No fundo, Veneza recompensa de facto quem lhe desobedece. Quem sai durante umas horas do Lido, abandona o Casino — a sala de imprensa —, a Sala Grande ou a Darsena, troca o táxi aquático ou o vaporetto pela bicicleta, ou então o mapa por Corto Maltese, o filme das três da tarde por uma ida a Veneza para ver o Cabrita Reis, Marina Abramović ou Alexandre Estrela, e substitui a eterna pergunta “o que viste hoje?” por uma muito mais interessante: “Então, onde foste parar?”
Passamos dez dias fechados em salas escuras à procura de cinema e esquecemo-nos de que, do outro lado da água, está uma cidade que há séculos parece ter sido desenhada por um cenógrafo genial, excessivo, irresponsável e provavelmente sem qualquer preocupação com o orçamento. Talvez tenha sido essa uma das melhores sessões de Veneza 2026. Não entrou em competição, não precisou de convite ou acreditação, não tem embargo e, felizmente, não precisa de ganhar nenhum Leão de Ouro.