Ontem, por breves horas, Portugal parou – ou melhor, os ecrãs pararam.
E, no silêncio que se seguiu, algo mágico aconteceu. As conversas à mesa prolongaram-se sem pressa. O jantar não foi interrompido por notificações. Vimos crianças a brincar na rua como se fosse verão dos anos 90, com gargalhadas que ecoavam de forma genuína. Ouvimos vizinhos a conversar à janela, como quem ainda tem tempo para ouvir. Histórias de jantares à luz das velas, onde a presença era mais do que suficiente.
Há quanto tempo não estávamos tão concentrados em quem está ali, à nossa frente? Sem o ruído digital, sem a ansiedade da rotina.
Do ponto de vista psicológico, isto tem nome: atenção plena relacional. Quando não há estímulos digitais a fragmentar a nossa presença, o cérebro diminui os níveis de alerta e de stress. A oxitocina, a hormona associada ao vínculo e à confiança, tende a aumentar em contextos de conexão genuína. O que sentimos ontem não foi apenas sorte. Foi a biologia a lembrar-nos que é assim que nos regulamos. Com toque, com voz, com afeto. Com tempo.
Curiosamente, quando a internet voltou… voltou também o ruído. Muitas pessoas sentiram uma pontada de ansiedade. As notificações caíram como chuva. Os dedos voltaram a deslizar quase sem querer. A cabeça, que parecia mais leve, ficou de novo cheia.
Não é que a tecnologia seja o problema. O problema é quando ela ocupa o lugar de tudo o resto.
Se o tempo é nosso, ao invés de correr atrás do próximo momento, porque não começamos a viver mais o agora, sem tanta pressa?
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.